quinta-feira, agosto 04, 2005

Apologia à Indignação


Frase da semana: “Eu fico fascinada, parece que estou assistindo ao Roque Santeiro” (Lucia Guimarães, acerca da CPI do sei-lá-qual-nome-tem-aquilo)


No último dia 2 de agosto, o Brasil parou. E dessa vez não foi por causa de alguma final esportiva. Pelo contrário, o país se aglomerou em bares, restaurantes ou mesmo em lojas de eletrodomésticos para assistir a uma acareação entre o ex-ministro da Casa Civil, o agora deputado José Dirceu ,e deputado Roberto Jefferson. Entre as mútuas acusações e defesas, o óbvio se sabe: o que queríamos é que não houvesse chegado a tal ponto. Pior só o fato de concluirmos que falta a sociedade, sobretudo a nova geração, consciência política, consciência de não se conformar com o rumo que a “democracia” brasileira esta seguindo. Observamos também, cada dia mais “público e notório” (tomando uma expressão do Dirceu emprestado), o desleixo e a descredibilidade que a disciplina História tem tomado as mentes de nossa sociedade. Não são todos que têm essa falta de zelo. Não que todos aqueles que não são dessa ‘nova’ geração tivessem a consciência da importância de tal disciplina.Nada de generalização! Mas trabalhemos com o fato: poucos são aqueles que se interessam pela história e enchem de importância com a mesmo afinco que fazem com as Matemáticas, por exemplo (nada contra, são tão necessárias quanto a História). Mesmo dentro do núcleo estudantil que se importa com esta disciplina, ainda temos que dividir entre o grupo que se importa pelo fato de saber da necessidade de ter um pensamento crítico, e aqueles que só se interessam pelo pragmatismo do vestibular.


Sim, o pragmatismo e o conformismo são as tônicas das buscas de nossos jovens: Economizar e poupar energia sempre, esse é o lema. Dentro de todas as modas, de todas as tecnologias, procura-se o conforto, o fácil, o agradável, o prazeroso, o rápido e o certo.E pagando para isso um alto preço: o da liberdade de pensamento. Ficamos presos àquilo que os outros pensam, o que a mídia nos impõe a pensar, e por extensão, ao que certos grupos dominantes querem que pensemos e que não pensemos. Nos indignamos apenas por aquilo que a media quer que nos indignemos, nos alegramos apenas por aquilo que eles querem que nos alegremos. Criticamos ou elogiamos aqueles que alguma personalidade (detentora de uma arma, por vezes mal empregada: a formação de opinião) outrora criticou e/ou elogiou. Os mensalões da vida republicana existem há tempos, e agora a opinião pública se revolta? Antes tarde do que nunca, diriam alguns, e eu concordo, mas já parou para pensar que esse tsunami foi formado pela imprensa? Que antes do interesses democráticos, há o interesse privado pelo furo, pelas manchetes, pela audiência.Não que eu não goste de conforto e prazer, muito pelo contrário, mas aspiro sempre a algo maior: a minha liberdade. Temos um quadro favorável, numa visão macroscópica, em relação aos jovens da época da ditadura, que não viam nos jornais nada que o governo pudesse considerar como negativo para o país(explicitamente, é claro, afinal, criatividade sempre foi o forte do brasileiro): desde o óbvio balanço político até uma epidemia de meningite, e ainda sim vemos pessoas que quando vêem algo relativo a política na televisão, logo mudam de canal, ou para algum programa de variedades ou esportivo, quando não se trancam mentalmente nos Orkut ou menssenger da vida e esquecem que há vida exterior. Estamos formando jovens claustrofóbicos,que, ao contrário do que se imaginam, não pensam cada vez mais rápido, e sim, ao pensar apenas as idéias-chaves , o comum, o óbvio, não pensam, pelo menos criticamente.


E o estudo da História, que em tese deveria romper com esse quadro de comodidade se torna a matéria do “Pra que se estuda isso?” “Para que estudar o passado?”. Em parte isso se explica pela falta de crítica que temos, no entanto , o fato de termos professores que não ajudam em nadaa criarmos esse hábito de pensar é tão ou mais importante. Não estamos pedindo revolucionários, marxistas, anarquistas, comunistas, ou qualquer “istas”. Estamos pedindo graduandos pensantes, críticos, que saibam que a faculdade de História não serve só para ter um emprego ou , em menor escala, ter um status quo de intelectual.. Que tenham a visão de que são tão formadores de opinião quanto os intelectuais “produzidos” pela imprensa, e que saibam que,se não for feito alguma coisa já com esses jovens, chegará o dia no qual seremos meros reprodutores, sem influência alguma. O estudo da História é o espaço que abrimos para o processo do pensamento crítico, de começar a questionar, duvidar, se inconformar. E isso é doloroso e lento. E muito dos nossos graduandos de hoje não esta preparado para essa honra. E muita gente não está interessada que tenhamos tal objetivo enquanto educadores.



Enfim, longe de querer isso, é melhor começarmos dar valor ao que temos hoje, a nossa liberdade de pensamento, a de não sermos obrigados a nos conformarmos com essa imposição de cultura, que dá a falsa idéia de que somos seres pensantes, antes que a gente tenha que buscar, nas ruas, de novo, essa graça. E que possamos entender, dentre as várias e eruditas (algumas bastantes sacais) definições, de que a história nada mais é do que “a ponte que liga o seu mundo ao mundo”.



Afinal, ninguém é uma ilha.


***

Musica deste post: “Strangers in the night”Frank Sinatra

(Convenhamos:antes essa do que Nervos de Aço interpretada por Roberto Jefferson, não?)



Ps do autor: esse post era até o primeiro parágrafo um enunciado de uma prova para uma turma de pré-vestibular. Quando dei por mim estava na segunda página de divagações, logo eu não cometeria o crime a minha inspiração, tão apagada nos últimos dias, de parar.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Sociedade dos Poetas Mortos


"A gente não faz amigos, reconhece-os."(Vinicius de Moraes)


Tem certas coisas que me fazem sentir muito bem: algumas bem extravagantes, como tocar contrabaixo no escuro, comer sorvete no inverno antártico, e outras tão comuns, como um beijo apaixonado, um abraço sincero, ou mesmo perceber que plantei bons frutos. São gestos simples, discretos, mas que me deixam profundamente feliz, por vezes emocionado.


Quando decidi, ou melhor, quando percebi que meu dom era estar numa sala de aula, ensinando e aprendendo com meus alunos, sabia que não seria fácil. Primeiro, porque eu já tinha noção do desprezo moral e econômico que os professores no Brasil sofrem. Mas isso nunca foi um problema para mim, nunca quis ser rico. Problema mesmo eram minhas idéias um tanto quanto subversivas a respeito do "ser" professor.


Por que autoridade? Por que porta-voz da verdade incontestável? Por que apenas professor, fechando as portas para novas amizades? Estas e outras perguntas me incomodavam desde minha tenra adolescência, principalmente quando uma professora de Química que no seu primeiro dia de aula, usando uma calça Gang, incomodada com os óbvios sussurros dos garotos com os níveis de testosterona acima da média saudável, manda o recado: "não vim para ser amiguinha de vocês!". Pensei que isso fosse coisa de alguém que tem um marido que dormiu de calça jeans no dia anterior, mas quando entrei na faculdade e vi como alguns colegas pensam, percebi que era mais grave do que imaginava. A mística da verdade inabalável, achar que só pelo fato de ter uma faculdade de uma matéria específica sabe mais do que qualquer aluno. Santa Ignorância: no pouco tempo, menos de 3 anos, que leciono, tive o prazer de conhecer pessoas que com sua experiência de vida, ou mesmo com seus lazeres conhecem mais sobre um determinado tema do que muito professor. A esses alunos tenho uma eterna dívida, porque, mesmo sem eles perceberem, eu aprendi muito com eles. Isso remete a questão da autoridade: tudo bem, eu entendo que é necessário, algumas vezes, ser mais rígido em algumas posições, mas "autoridade" não é um termo um tanto quanto autoritário? Eu prefiro me considerar uma espécie de irmão mais velho: não tem a autoridade do pai, contudo os alunos, irmãos mais novos, lhe dão ouvidos, por mais que discordem. Afinal, o aluno não precisa concordar com tudo que você diz, principalmente em História, onde você dá ferramentas para ele pensar.


Mas nada me incomoda tanto quanto a questão da impessoalidade do professor. Alguns chamam isso de ética profissional, eu chamo isso de elitismo idiota. Eu, antes de ser professor, sou humano, carne, possuo desejos, tenho afinidades, interesses, contradições, trocando em miúdos, não sou uma ilha: porque cargas d'água eu tenho que me afastar de pessoas que podem ter os mesmos interesses que eu, que podem ser amizades em potencial? A Idade, maturidade? Ora, Vinicius de Moraes estava certíssimo quando disse que "A gente não faz amigos, reconhece-os.". Eu tenho amizades com alunos, e me orgulho disso, eu sei não misturar as estações, sei aonde vão os limites da amizade e do profissionalismo, e eles também sabem disso. Faço questão de colocar meu MSN, meu orkut, meu blog no quadro tanto no pré-vestibular, quanto na 5ª serie onde sou estagiário. A melhor coisa que tem é estar no meio dos alunos no intervalo: você ri se diverte, de si e dos outros, sabe das últimas. A sala das professoras é tão triste e melancólica perto deste.



Quando tive essas idéias, um pouco, confesso, exóticas de como queria ser na sala de aula, era apenas um mero professor de uma Escolinha Bíblica Infantil, o tio da galera dos Juniores, entre 9 a 12 anos. Trabalhava assim com eles, sendo amigo deles, sendo acessível, mas nunca pensei que eu pudesse causar impacto na vida deles. As minhas idéias amadureceram, mas na sua essência continuaram as mesmas. Estes alunos cresceram, perdi um pouco de contato, nem imaginava que eles me reconhecessem na rua...


...quando numa bela noite de sábado, voltando à igreja onde fui professor , vejo minha melhor aluna da época, Ana Carolina Santos, sentada,conversando, como uma natural adolescente. Lembro-me dela pequena, com seus 10, 12 anos. Imaginei que ela fosse me cumprimentar, nada demais, principalmente na soberba juvenil, onde tudo é "Mico". Mas para a minha emoção e surpresa, eu vejo uma bela moça descendo, chorando, trêmula, me abraçando tão forte e tão carregada de alegria, que não tive outra escolha do que me emocionar junto com ela. Neste instante de silencio na metrópole, consigo relembrar perfeitamente daquele momento, onde ela só conseguia dizer: "Por que você sumiu? Você faz falta!". Desfruto desse momento, tendo a noção de um sentimento agradável, pois a sensação de nós nos abraçando ainda é viva e latente em meu corpo. Mais do que uma sensação boa, ela foi a concretização de que minhas idéias, que não tenho a intenção de que seja um manual pedagógico para ninguém, estão no caminho certo, que consigo ver bons frutos no que estou plantando. Não sou o dono da verdade, nem sou um gênio, meu único desejo é ver professores um pouco mais humanos, mais sensíveis, e não alguém que, narcíscamente, se auto-intitula "O professor”.



São de sensações assim que preciso na minha vida.


Só falta o sorvete.


***



Musica do Mês: Diana Krall - The Took Of Love

segunda-feira, julho 11, 2005

Musas


"Porque a vida de nada vale sem a Musa." (Rodrigo Farias)
Elas são espécies raras: aparecem tão espontaneamente que não conseguimos nos desvencilhar de seus encantos. Rápidas como as águias invadem nossas mentes, corpos, almas e tomam conta dos nossos pensamentos, dos mais científicos aos meros devaneios.Estão para descobrir alguém, algum entorpecente, alguma coisa que tenha tanto impacto, penetre tão profundamente em nós, do que as musas.

Não obstante, sua presença não é, de forma alguma, perniciosa: possuidoras do dom do estro, nos inspiram a ponto de nós mesmos ficarmos surpresos com nossos feitos: de Leonardo Da Vinci, com sua Monalisa , até este mero escritor, com seus textos. Acordar e se lembrar, ou ser lembrado pela contração do coração, de sua musa, torna nossos dias mais colorido. Os dias ruins, que existem para todos, não conseguem levar-nos a completa tristeza, uma vez que ao pensar em nossas musas, o sorriso redentor aparece no canto da boca.

Todos tiveram, têm, ou terão suas musas. Essas nove deusas que presidiam às ciências e às artes na mitologia tem várias facetas: ao contrário do consenso geral, musas não são necessariamente seres do sexo oposto (ou do mesmo), ou seja, as responsáveis pelos platonismos nossos de cada dia. Elas podem ser a nossa carreira, a nossa casa, nossos livros, nossos amigos, ou mesmo nós mesmos. Mas quando tratamos exclusivamente da Suposta divindade ou gênio que inspira a poesia, temos que evitar o mesmo erro que cometeu Ícaro .


Musas são sonhos, bons sonhos, seres poetizados por nós mesmos, por isso a falta de imunidade a elas, só que podem se espalhar como poeira quando queremos toca-las. Sempre estamos em busca da Musa ideal. Só não podemos, como Ícaro, perder nossas asas quando tentamos alcançar o inalcançável . E aí está um problema, pois sonhos também são motivadores de nossas vidas, variando de proporção, todos corremos atrás de nossos sonhos, mas como saber se um sonho é alcançável ou não? Não há receita para isso, e isso é tão atormentador quanto fascinante: nenhuma musa é igual a outra, são complexas, encontram-se no limite do real e do imaginário, podem ser tocadas como podem se dissipar em nossas mãos. E se não temos esta noção corremos o risco de esquecermos que a realidade, por mais nublada que seja, é,mesmo assim, mais acessível.Um encontro pessoal com sua musa pode ser um sonho, o tempo pode parar, as pessoas em volta podem se tornar, num estalo,tão desinteressantes quanto desnecessárias. Uma música inebriante pode invadir o seu ser, e você pode sentir dentro de si uma atmosfera de alegria que a última coisa que quer é sair dali. Mas quando se vê tentado a encostar na sua suave e tenra pele, quando você se vê tentado a nunca mais deixa-la escapar da sua vista, cuidado...

... você pode cair em si, percebendo que está a contemplar as estrelas, numa estrada noturna, de volta para casa.


De mãos vazias.




***


Musica das Férias: Luiza – Tom Jobim



domingo, julho 10, 2005

Momentos poéticos II



Dando continuidade a série, um poema que conheci em Patch Adams e é o meu predileto:




Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
(Pablo Nerruda)
***
Musica do Dia: Forever By Your side- The Manhatans

terça-feira, junho 21, 2005

Platonismos

Dias nublados, com uma minúscula garoa, tendendo a esfriar (embora eu já esteja vestido como se estivesse no pólo norte) sempre foram os meus prediletos. E hoje não deve ficar por menos, pois além da inspiração oriunda da natureza, acordei hoje pensativo, reflexivo, cheio de dúvidas, uma angústia amalgamada com uma ansiedade que só numa coisa pensei: preciso escrever.

Platão: esse sábio conseguiu definir uma categoria de amor na qual eu, constantemente, me enquadrei, enquadro e me enquadrarei ao longo da minha vida. É uma sensação totalmente diferente de quem já amou uma vez na vida: é sublime, inebriante, atormentadora, confusa, depressiva, regojizante entre outras característica que daria um volumoso livro.

Talvez seja a tentativa de se encontrar a mulher perfeita, ou então fugir da realidade da solidão, não importa. Importa é o fato desta acontecer espontaneamente ou racionalizada, perto mas tão longe, ou mesmo, longe mas com a impressão de ser tão perto a ponto de pensar em acariciar sua pele majestosa, ainda que tal pele majestosa esteja a algumas centenas de quilômetros longe de ti. É um sentimento que seja dos mais difíceis de ser romper: é mais difícil romper consigo mesmo do que com o outro, e neste processo platônico, se quiseres despedaçar tão ambíguo sentimento, terás que despedaçar a ti mesmo em primeiro lugar.

Sobre amores platônicos há uma considerável literatura contando passo a passo o que acontece com as pessoas vítimas desse bem, como se tudo nesse mundo pudesse ser reduzido a receitas de bolo. E como tais receitas você encontra a torto e a direito por aí, prefiro dar a(s) minha(s) experiências, que nunca tiveram finais felizes como os amores platônicos hollywoodianos . A minha adolescência entrecruzou-se, indelevelmente, com amores platônicos, de modo tão rápido e tão inexplicável que quando vi, não conseguia me imaginar mais com outra pessoa a não ser ella. Fui aos 4 cantos da terra para buscar sua amizade, criei e recriei o céu por ella, meu coração vivia em coma: e só acordava quando meus olhos a viam, ou escutavam a sua doce voz. O tempo não foi meu inimigo, pelo contrário, dois anos são 730 dias pensando incessantemente nella, o que é, no mínimo razoável. Bem, tive que me contentar com sua grande amizade, o que para mim, naquele período era como se fosse um prêmio de consolação. Pensei: “não vou cair nessa armadilha novamente!”. Enganei-me a mim, mas não ao meu coração, que é padece do mal da surdez. Mas dessa vez seria mais maduro, mais honesto comigo, menos altruísta. Foi quando percebi que fazia as mesmas coisas, que no amor platônico, não há maturidade ou imaturidade, há desapego a sua pessoa em prol de outra. Sofri novamente...

Passaram-se quase 5 anos, pensei que tinha superado essa fase juvenil de minha vida, mas como o andar na bicicleta, uma vez que você aprende, não esquece nunca e sempre volta ao ponto inicial. Pior, ou melhor, da mesma forma do que aos seus 16 anos. Mas há suas diferenças: se outrora fora espontâneo, dessa vez foi escolhido, pensado, racionalizado. Mas novamente sofri, da mesma que me alegrei dezenas de vezes. É processo viciante, a adrenalina no corpo é arrebatadora.

Mas nem tudo é lamento. Em todas, eu aprendi muito mais do que perdi. Não entrarei em pormenores, mas praticamente tudo que eu sou hoje é graças ao meu platonismo: desde dos livros que leio, do meu gosto musical, o que é engraçado, pois eu sou diferente de quase toda minha família (graças a Deus!), até, e acredite-se se quiser, a minha paixão pela docência, a escolha da minha profissão.Tão entranhado nesse universo feminino que adquiri um conhecimento, pequeno, reconheço, deste tal mundo tão fascinante. Mas, sobretudo, aprendi a fazer alguém feliz, não sei se consegui algum dia, mas eu ainda mostrarei.

Mas é difícil eu pensar como o cantor, em acreditar só vou gostar de quem gosta de mim .

Talvez eu goste de ser, ou estar assim. Talvez porque acredite que possa acontecer para mim o que aconteceu com Simplício Gomes e a Dudu, do conto de Artur Azevedo. Termino esse passeio na minha mente pedindo para quem esta a ler-me , que se delicie com esse conto, e imagine quão doce final eu quero uma vez na minha vida.

Mesmo em sonhos.

segunda-feira, junho 20, 2005

Momentos Poéticos I

De volta ao Planeta dos Macacos!

Mas como todo regresso a normalidade, pelo menos durante esse 1 mês e meio de férias, faz-se necessário alguns instantes de re-adaptação social, política, religiosa, e, sobretudo, emocional. Deixo então que o poeta descreva, com uma admirável perfeição, meu estado de espírito das últimas semanas.

Senhoras e senhores, é com imensa satisfação que vos apresento,
Luis de Camões







Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela
está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,
Está no
pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Antes de partir, deixo uma frase que acho que combina harmonicamente com tudo isso aqui escrito. Agradeço minha queria, amada, salve salve amiga Cinthia Rocha que indicou o site e essa frase por achar que era a minha cara:
Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!" - Mario Quintana

Mais Nelton impossível.

domingo, junho 19, 2005

Uma Câmera na mão e ...

Sucumbi aos encantos de um Flog ou Flickr, mesmo tendo certeza de que não sou o mais fotogênico dos homens.

Já que abri um post para contar as novidades, agora vos-me-cês podem se cadastrar aqui no canto direito deste singelo blog e sempre que eu atualizar o mesmo, vocês serão premiados em serem os primeiros a saber: sem precisar entrar no blog todos os dias (Nelton, sem delírios!) ; sem encheção de paciência do dono do blog para entrar. Simples, rápido e prático.

Musica da semana: Circles , Mariah Carey

sexta-feira, maio 27, 2005

Quietude

Silencio...


Oh, a mais bela das melodias, com seu acorde único e tão subjetivo. O que seria do som se não fosse o silêncio? Este é o artista: dentro daquele amontoado de complexos sonoros, ele molda e o transformam na mais bela harmonia. Pena que o este é dado um papel secundário, quando não é completamente desdenhado.


Vivemos num mundo tão barulhento, tão poluído,que o silencio é como um grande refletor aos nossos olhos: incômodo. Estranhamos quando o outro esta silencioso, achamos logo que não está bem. Engraçado, a quietude sempre leva esse rótulo de tristeza ou apatia, talvez seja pelo fato das pessoas não saberem escutar o silêncio.Talvez não.


Eu gosto do silêncio. Traz-me paz, calma, serenidade. Eleva meu espírito a um estado indescritível.Também gosto do som: alegra minha alma, me desperta, alinda. Mas deste dois, eu prefiro ao primeiro. Uma das primeiras lições que tive na escola de música, e que todos devem saber, é que saber respeitar a pausa. Pausa é igual ao silencio, instante de profunda concentração, contudo, instante de relaxamento frente à tensão das notas que foram e que serão tocadas.


Sou um homem que fala muito. E põe muito nisso. Falo alto (recebo diversas reclamações por isso), gesticulo mais ainda. Sou desastrado, hiperativo, falo pelos cotovelos, às vezes falo o que não devo.Preciso ainda ser mais diplomático, ter menos papas na língua, amadurecer o vocabulário.Mas sei me calar. E faço isso com tanta naturalidade, com tanta espontaneidade, que aos outros parece anormal. É como se eles nunca esperassem isso de mim.


O silencio é meu amigo, um dos melhores, inclusive. Conviver com ele não é nada fácil: sua sinceridade chega a ser inconveniente e constrangedora. Não consigo mentir nem enganá-lo, tampouco omitir algum fato ou detalhe a ele. Parece que ele tudo sabe, me escuta como se já tivesse escutado aquela história outras vezes, mas mesmo assim está ali, do meu lado, sem parecer cansado. A cada dia tento aprender a saber tirar mais proveito dessa união.Tem dias, e ultimamente bem recorrentes, que a minha vontade é ficar quietinho, de preferência quase que imperceptível, só escutando os outros, sem julgar, sem criticar, só escutar, envoltos em meus pensamentos, conversando com o meu silêncio.


Mas este não é sinônimo de solidão, tampouco, sinônimo de parceria. Não é nem um, nem o outro, é apenas silêncio. Também não se resume a falta de som. Cada um tem que achar seu silêncio, aquele que foi feito para você. Isso demanda tempo, paciência, interesse. Como tudo tem seus prós, assim como seus contras.

Meu silencio é bem barulhento: numa casa onde você não é o único, nem o “dono da bola”, pouco se pode fazer a não ser encontrar outros “silêncios”. O meu tem como nome Jazz: adoro todos, ou quase todos estilos de musica (acho engraçado o forro de duplo sentido mas ainda não suporto o sertanejo), escuto-os quase que 24 horas, todavia, quando estou escutando jazz, eu não estou nesse plano, na verdade não estou em plano algum. Estou dentro da harmonia, navegando sobre as notas, procurando as pausas, buscando o inexplicável, uma endorfina viciante. As vezes, um violão do lado (um dia terei um piano de calda), alguns acordes, mas, no fim, a busca é a mesma: o silencio.

Pensar em nada especificamente, mas ficar submerso a tudo que vem a mente. Resolver algumas duvidas, criar outras tantas, deixar algumas pela metade. Não ter compromisso com nada, e amadurecer com isso. Pois, no nosso idealismo juvenil, cremos que podemos mudar o rumo da onda. Nessas horas, vale a máxima do surf: surfe, apenas
Surfe.


Equilíbrio...


É como esse texto aqui, que não tem lógica, nem fim. São apenas pensamentos, traduções de conversas com meu silêncio


Devaneios...

domingo, maio 08, 2005

Sobre amigos e colegas

"Vc é um eremita? Você é muito solitário, gafanhoto!”.

Com essas palavras, ditas não faz muito tempo, um amigo meu alertou-me sobre uma virtude minha e sobre um defeito meu: a minha severidade nas escolhas das amizades e minha solidão consciente, respectivamente.

Mas a minha vontade de escrever sobre amizades (o título do texto é um plagio confesso de "Sobre meninos e lobos") foi depois que algo tão agradável aconteceu, mas tão agradável e prazeroso que tinha até esquecido que existia: a formação de uma amizade.Foi tão honroso que mereceu a menção no blog, não somente menção, mas um post inteiro, intrometendo-se na análise sobre minhas manias.

Deixo bem claros aos quatros ventos: sofro de uma solidão espontânea. É algo tão interiorizado, tão consciente que se tornou algo intrínseco, parte da minha natureza. Não sou de viver isolado do mundo, mesmo porque, para quem me conhece, falo pelos cotovelos - escuto ainda comentários de "vc esta bem? Não, nada em especial, é pq vc esta muito quieto!” - contudo eu gosto de um silencio, de apenas o som da natureza, tudo bem que aqui na metrópole a natureza se resume a buzinas,batidas, funk (quer bolete na veia!), trens, tiros..., Mas eu gosto estar sozinho, de pensar sozinho, de falar sozinho (já prometi um tópico só sobre isso, mas falta vontade...), ou seja, de SER sozinho.Não que isso seja algo permanente, pelo contrário, sonho com minha família tradicional bastante movimentada, mas sabe tem horas que quero só eu e um livro, eu e um computador, eu e uma musica ou mesmo eu e um violão (terapia para todas as horas).

Justamente por isso, tenho uma espécie de dificuldade de relacionamento. Para quem já entrou no meu orkut vê num dos depoimentos uma frase que achei fantástica sobre mim: "...ou o amam ou o odeiam. ". Não há meio termo para quem me conhece, ou será meu amigo ou prefere não ser nada meu, apenas um companheiro de trabalho, ou de faculdade. Para mim então, a coisa é mais intransigente, não há meio termo para mim: ou é meu amigo ou não é. E hoje em dia, cada vez mais desumanizada, é tão difícil encontrar alguém que tenha prazer ou, no mínimo, paciência para querer ser um amigo, sobretudo, um amigo meu. A essas pessoas, eu gostaria, se pudesse, de dar uma coroa, um premio, um feudo ou etc.

Digo: tenho n colegas, dos mais variados tipos e gostos, de todos os tamanhos e idades, do ateu, ao mais fanático e fervoroso protestante. Mas amigos, amigos no sentido estrito da palavra, são poucos e se esgotam nos números das minhas mãos.Até menos, se fosse mais exigente.

Mas o que é amizade para Nelton Araújo? Algo tão simples, tão banal que desacostumamos a fazer: se importar com o outro.Nenhuma outra frase poderia resumir tão perfeitamente o que é ser amigo para mim. Da mesma forma que Jesus conseguiu, brilhante como sempre, resumir os dez mandamentos em dois (pequena aula de escola bíblica que você matou: 1- "Amar a Deus sobre todas as coisas" e, 2- "Amar ao próximo como assim mesmo"), eu resumo qualquer coisa que venha a falar agora sobre o que é ser amigo para mim nesta frase. Mas, também, poderia importar esse segundo mandamento como ótima síntese, aliás, o que é ser amigo além de você buscar amar o outro como a si mesmo? Pelo menos na minha óptica sim, e quem também se enquadra nisso, continue a leitura, caso contrario, os próximos parágrafos serão profundamente nauseantes.

Sabe ter o feeling de perceber quando o outro não tá legal? Sentir na voz ou nas palavras de um MSN que o outro precisa de ajuda mesmo quando ele não pede, sem ser com isso intrometido ou indiscreto?Saber q a frase "Sorrir quando esta feliz, mas, principalmente estar perto quando o outro chora?" é a diretriz de uma amizade?Tratar e ajudar o outro mesmo quando você não sabe abacates sobre o assunto ou pouco fazer, mas só estar ali dando um suporte moral, dando seu tempo...Tempo, que palavra interessante de ser dita agora, parece q veio dos céus (efeito de Constantine, ligue não...), é isso: É você, nesse mundo louco e corrido do século XXI, ter tempo para ouvir, dar atenção. Não falo ouvir a toa: às vezes, quase sempre, as amizades são mercenárias, só servem para falar, aí na sua maioria, fala-se muito, escuta-se muito pouco. Pior, é como se o outro tenha que ser seu psicólogo 24 horas: dar os ouvidos é uma coisa, se fazer de psicólogo é outra completa e perigosamente diferente. Ou mesmo simular uma amizade com outros interesses , como interesses acadêmicos. Talvez a dor de ter percebido que foi usado ou , pior , perceber que uma amizade que parecida existir , ser apenas fachada por um ou outro problema me faz hoje ser mais duro comigo mesmo e com os meus amigos.

É conversar sobre qualquer coisa sem ter que "pisar em ovos".Mas sobre qualquer coisa mesmo, até, inclusive, de coisas que você depois de ter dito se pergunta, "Eu disse isso, realmente?" É conversar sobre essas mesmas baboseiras altas horas da noite, mesmo com sono, mas só pelo fato de se sentir tão bem que não acredita q um sono possa ser melhor, e acordar as 6 da manha do mesmo dia. É pensar, seja numa musica, seja com a leitura de algum livro que você pensa "Ele ia gostar disso" ou "Isso o acrescentaria nos seus estudos"; É fazer as coisas desinteressadamente, tipo aquele que dá presente porque gosta e não porque quer ganhar presente no seu aniversario (alias desde já se preparem, o meu é no final de dezembro, e eu quero livros, bons livros, não precisa ser caro, apenas livros), é ver no outro o outro, obviamente, mas também se ver nele, e é por isso que "Sorrir quando se esta alegre e estar perto quando esta triste", pq chorar nem sempre é uma reação espontânea, estar perto para ajudar e cuidar, mesmo que essa proximidade seja pela net, isso sim deve ser natural.Ser leal.

Lendo o que escrevi agora, parece que isso pode parecer algo que esteja mais próximo de um relacionamento amoroso do que para uma amizade. Sei que vou escutar criticas e oposições ao que vou escrever agora, mas eu creio que a amizade, do sentido que eu penso funcionar, é um nível superior do amor, algo maior. Não é a toa que os casamentos que dão certo tem como base uma profunda amizade. A renúncia é maior, o amor e a tolerância devem também ser maior do que num relacionamento, uma vez que um amigo nem sempre é o "seu tipo", se é que você pode entender onde quero chegar.

Os tempos de formação de uma amizade também variam no tempo e no espaço: há amizades q se formam e solidificam em anos de vivência, bem lento-era daquele que você pensava que nunca seria seu amigo, mas com o passar dos anos você percebe q ele é interessante, que há uma química-, e outros que se fazem na velocidade de um ou dois meses, ou mesmo em uma ou duas semanas, e pelo mesmo motivo: a química. Química é o que não pode faltar, aquele clima q rola quando você conversa sobre História ate sobre como seu amigo pode conquistar aquele amor enrustido-mesmo que para isso, temos que voltar a adolescência e ler horóscopo (risos)...

As pessoas não me conhecem. Definitivamente não. Eu não sou uma pessoa fechada, pelo contrario, sou um livro aberto, mas só com aqueles que eu percebo confiança. Essa, entre outras que deixei aqui escapuli, termina minha análise sobre a amizade: sabe alguém que você pode contar seus sórdidos defeitos, sabendo que mesmo um dia, nos desencontros da vida, nos esbarrões das personalidades, nas brigas, você ter a consciência limpa e saber que nem ele vai espalhar aos sete ventos nem você terá vontade? Na verdade a briga é algo natural numa amizade, pois assim como não há o casamento sem briga, não há amizade sem criticas, briguinhas, pedidos de perdão, desculpas etc...Sabe o que é você perguntar sobre algo, e saber que se a pessoa criticou, mandou corrigir, ou mesmo que disse que tá ótimo, não é porque ele quer te fazer mal, pelo contrario, é porque ele não quer que os outros te façam mal. Isso é confiança, que é como um vaso de cristal: uma vez quebrado, nunca volta ao seu estado harmonioso original.

Isso é a amizade: o resto é coleguismo passageiro e fugaz.

Não sei se para você funciono assim, talvez eu seja um pouco intransigente, tradicional frente essas amizades pós-modernas, que trocam de amigos como quem troca de roupa, é só falar um não, ou falar aquilo que não agrada, que partem para uma outra "amizade". Chamar as pessoas de amigas ta tão banal e costumeiro como falar "Eu te amo".Ainda sou do tempo, saudoso por sinal, em que os amigos eram para sempre, que se encontravam, mesmo longe...Do tempo em que quando falava que a pessoa era amiga, é pq ela era amiga mesmo. E quando se falava "Eu te amo", que nem sempre este direcionado a segundas, terceiras ou ducentésimas intenções, independente de sexo, é porque se ama.

Talvez seja por isso que tenha tão poucos amigos.

Tudo bem, eles são os melhores amigos do mundo . Eu os realmente os amo com toda minha alma.Se eles tivessem a oportunidade de saber como eles são importantes, influentes e responsáveis na minha vida, se pudessem me retribuir com um sorriso sempre que me vissem, não faria mais questão de fazer amigos. Alias, não se faz amigos, eles são dádivas dos céus, admiro cada diferença que eles têm de mim, pq as igualdades é muito fácil admirar. Gostaria de ser mais presente, de estar mais ao lado, de ser mais amigo, mas é complicado quando a sociabilidade não faz parte da minha natureza. Por isso mesmo agradeço a cada um de vocês (tão poucos que já sabem quem são...) pela paciência e tolerância de cuidar de um bicho do mato, que vive de lua e que não gosta de telefone.

Mas eu ainda não chego a ser um eremita.

"Antes de cultivares novas amizades, não esqueças das antigas”.

sexta-feira, abril 22, 2005

Manias I

Esse assunto já era para ter sido colocado há tempos, ele é sempre o primeiro assunto que penso em escrever, mas a minha preguiça de me autodescrever – que já é uma grande mania, não é a toa que sou quase um bicho preguiça-é maior do que eu. Maior do que a minha preguiça, talvez seja a tendência global de nos afastarmos de certo “temas-tabus” como eu denomino (e para isso recomendo a leitura de um livreto muito bom “A solidão dos moribundos” de Norbert Elias), como a Morte, o Sexo - na visão particular de cada um e não as visões romantizadas, lindas, mas com a tendência a nos generalizar como pacote de salsichas-e, entre outras, as nossas queridas e amadas manias.

Para quem já acompanha este singelo blog sabe que a minha angustia – o meu bichinho de estimação-e a minha amada ansiedade são características quase que inatas a minha personalidade. Se um dia você me vir diante de uma situação sem um ponto de ansiedade e caso essa situação não tenha dado certo, e eu estiver sem uma ponta de autodepreciação e angústia, por favor, chame a ambulância, pois eu fui possuído pela Samara.
Mas hoje as manias são outras, complementares e mais, digamos, exóticas ou engraçadas: o meu “desconstrutivismo” de idéias e o meu querido e longo papo comigo mesmo.

Um exemplo para ilustrar: Certo dia ,creio que numa quinta feira, andando com a minha amada, estávamos a conversar sobre algumas, das várias que existem, dúvidas da Bíblia. Lembro-me do tema: Saul tinha ou não consultado Samuel por via da necromansia? E não entrando no mérito de especificar qual a teoria de cada um, eu tinha uma visão X, e a expus. Logo após ela disse a visão Y dela, embasou, disse bonitinho e tal. Lembro-me como se fosse ha 3 minutos atras eu virando para ela e dizendo: “tá bom, você está certa, mudei de idéia!”. E é assim que eu sempre faço. Isso é que eu denomino de minha “desconstrução” de idéias, e a minha tentativa de buscar o equilibrio das coisas. Mas antes de falar sobre ela, eu quero defendê-la, pois minhas manias são minhas e não quero perdê-las: algumas pessoas chamam isso de falta de personalidade, ou uma espécie de “maria-vai-com-as-outras” , etc. Mas eu acho essa arrogância de só porque você tem uma idéia sua, você não possa mudar, só pelo orgulho de não se sujeitar a uma idéia que não foi criada por você. Isso, ao meu ver, é ridiculo.

Não que eu não pense, muito pelo contrario, pois minha hiperatividade me obriga a pensar , e muito. Eu tenho uma idéia formada sobre tudo, mas ainda assim, prefiro ser aquela Metamorfose Ambulante de Seixas. Sou uma espécie de Liquidificador, onde está tudo misturado, todas as correntes de pensamento, todos os gostos musicais, todos os tipos de literatura, tudo que é programa de televisão, etc. Mas, no caso das idéias, nesse meu “Liquidificador” mental, não entra qualquer coisa,pois, voltando ao primeiro exemplo do parágrafo anterior, não foi pelo fato de ser minha namorada que mudou minha idéia, e sim pelo fato dela ter embasado perfeitamente a posição dela, a tal ponto de eu perceber que a minha visão era falha e que a dela , por mais que mais tarde ela tb possa , talvez, ser colacada em contradição, era bem melhor do que a minha. Ou seja, para entrar no Liquidificador, tem que ter algum conteúdo embasado, uma espécie de filtro, comum nos liquidificadores modernos.

Essas semanas, eu estava ,onde dou aula ,conversando sobre , para variar, história com os outros professores desta disciplina- é, qdo vc encontrar 2 ou mais estudantes de História, eles estão conversando em sua grande maioria sobre história- e uma delas resolveu fazer a pergunta que todos estudante de história gosta de fazer:”Você é o que? Marxista, Estruturalista? Weberiano? Pos-Modernista...”. Aí dois disseram que eram Marxistas, um disse que era Weberiano, e eu quieto...quieto, até que eles olharam para a minha cara quase que me intimando a responder. Foi o que eu fiz: “Eu sou tudo isso, e sou nada disso”. Para mim, a resposta perfeita, uma vez que posso pegar as melhores idéias e que melhor convir para mim e para meu trabalho,mas não necessariamente ser partidário ortodoxo de um destes , mas para eles, que assim como a maioria esmagadora de proto-historiadores que não conseguem entender nem piadas , tampouco metáforas, eu tinha perdido meu conceito que ganhara ao dar a aula.

Outro exemplo clássico, a tão famigerada política. Eu, particularmente me divirto com o ortodoxismo dos PSTUs da vida. Será que é tão dificil perceber que mudar um país continental com tantas desigualdades não se faz em 4 anos? Não, não defendo o Lula, nem o ataco, pq nada esperarava dele quando entrou, e sinceramente, ele tem falado cada besteira ultimamente, talvez por falta de uma boa acessoria, e quem o viu pedindo perdão aos Africanos pela Escravidão sabe do que estou falando.Mas ser radical , e infantil, em dizer que ele faz o jogo do Imperialismo (que definição mais anacrônica), é no mínimo, engraçado.Mas também o jogo do Olavo de Carvalho, q a cada dia com seu discurso de que vivemos uma ditadura comunista (?) vem arrebatando um número crescente de neo-conservadores, não faz parte das minhas convicções.

Mas onde esta o ponto principal do meu tema no que eu disse? Pois bem, mesmo o radicalismo de esquerda ou de direita não sendo algo que eu leve como convicção partidária, colocando severas críticas em seus discursos, eu consigo e apreendo algumas das suas idéias na visão mais “neutra” ou “de centro”. É algo tão natural , pois nada é tão certo a ponto de ser acreditar cegamente (leia o proximo parágrafo) ou tão errado a ponto de ser descartado completamente.

Falando em crença cega, vamos a mais um “tema-tabu” : a religião. A tendência hoje é dizer que este não é mais um tabu, pois a liberdade de expressão e de confissão religiosa esta aí para isso. Mas já parou para perceber uma certa ceguidão na maioria de seus discursos, não importa se é no culto, homilia, seja lá o que for, ou em blogs da vida, ou mesmo na musica ou nos testemunhos? Como se a verdade absoluta estivesse em suas mãos, cabendo a si prórpio a salvação , e a condenação para quem não estivesse dentro de sua “religião”? É algo polemico, tanto que sei que receberei criticas, como recebo, por este parágrafo.Tive que rir um dia desses quando um aluno me disse que o Papa foi para o Inferno pq era católico. A senhora me diz isso em sala de aula, com mais de 60 pessoas a escutando, tem noção? Talvez a minha risada irônica, junto do fato dela saber que sou protestante também , tenha sido mais revoltante para ela do que a minha resposta que se o céu só fosse dos “Evangélicos” (Isso e a denominação de “crente” eu não consigo entender...), ele ia ficar bastante vazio do que o planejado inicialmente...Mesmo sendo protestante, batista, quase que nascido em Igreja, não me cega a ponto de pensar que vivo na melhor das religiões, pois isso não há: Jesus nasceu Judeu, e morreu Judeu, a trasformação que ele propôs é no coração do homem. Se ele não condenou a mulher de samaria , pq eu condenaria o papa , um velhinho simpático, pela sua escolha? Quantas escolhas eu não faço que não são condenáveis? Eu tenho a minha crença, minha “religião” , não estou lá pela força da inércia ou da tradição, mas , só por causa disso eu tenho que me calar e deixar de estudar, para melhor me descobrir? É por isso que as pessoas são enganadas hoje como eram enganadas na Idade Média.Eu nem sempre tive essa idéia, visto que fui criado na Igreja,mas a vida, as leituras, e sobretudo a faculdade de História me deram uma visão mais racional (como Paulo pede em sua carta) da minha fé.Em outras palavras, mudei de idéia por outra que, para mim, era melhor.


É por essas e outras que eu digo que sou um bicho estranho...não é?


Continua...