quinta-feira, agosto 04, 2005

Apologia à Indignação


Frase da semana: “Eu fico fascinada, parece que estou assistindo ao Roque Santeiro” (Lucia Guimarães, acerca da CPI do sei-lá-qual-nome-tem-aquilo)


No último dia 2 de agosto, o Brasil parou. E dessa vez não foi por causa de alguma final esportiva. Pelo contrário, o país se aglomerou em bares, restaurantes ou mesmo em lojas de eletrodomésticos para assistir a uma acareação entre o ex-ministro da Casa Civil, o agora deputado José Dirceu ,e deputado Roberto Jefferson. Entre as mútuas acusações e defesas, o óbvio se sabe: o que queríamos é que não houvesse chegado a tal ponto. Pior só o fato de concluirmos que falta a sociedade, sobretudo a nova geração, consciência política, consciência de não se conformar com o rumo que a “democracia” brasileira esta seguindo. Observamos também, cada dia mais “público e notório” (tomando uma expressão do Dirceu emprestado), o desleixo e a descredibilidade que a disciplina História tem tomado as mentes de nossa sociedade. Não são todos que têm essa falta de zelo. Não que todos aqueles que não são dessa ‘nova’ geração tivessem a consciência da importância de tal disciplina.Nada de generalização! Mas trabalhemos com o fato: poucos são aqueles que se interessam pela história e enchem de importância com a mesmo afinco que fazem com as Matemáticas, por exemplo (nada contra, são tão necessárias quanto a História). Mesmo dentro do núcleo estudantil que se importa com esta disciplina, ainda temos que dividir entre o grupo que se importa pelo fato de saber da necessidade de ter um pensamento crítico, e aqueles que só se interessam pelo pragmatismo do vestibular.


Sim, o pragmatismo e o conformismo são as tônicas das buscas de nossos jovens: Economizar e poupar energia sempre, esse é o lema. Dentro de todas as modas, de todas as tecnologias, procura-se o conforto, o fácil, o agradável, o prazeroso, o rápido e o certo.E pagando para isso um alto preço: o da liberdade de pensamento. Ficamos presos àquilo que os outros pensam, o que a mídia nos impõe a pensar, e por extensão, ao que certos grupos dominantes querem que pensemos e que não pensemos. Nos indignamos apenas por aquilo que a media quer que nos indignemos, nos alegramos apenas por aquilo que eles querem que nos alegremos. Criticamos ou elogiamos aqueles que alguma personalidade (detentora de uma arma, por vezes mal empregada: a formação de opinião) outrora criticou e/ou elogiou. Os mensalões da vida republicana existem há tempos, e agora a opinião pública se revolta? Antes tarde do que nunca, diriam alguns, e eu concordo, mas já parou para pensar que esse tsunami foi formado pela imprensa? Que antes do interesses democráticos, há o interesse privado pelo furo, pelas manchetes, pela audiência.Não que eu não goste de conforto e prazer, muito pelo contrário, mas aspiro sempre a algo maior: a minha liberdade. Temos um quadro favorável, numa visão macroscópica, em relação aos jovens da época da ditadura, que não viam nos jornais nada que o governo pudesse considerar como negativo para o país(explicitamente, é claro, afinal, criatividade sempre foi o forte do brasileiro): desde o óbvio balanço político até uma epidemia de meningite, e ainda sim vemos pessoas que quando vêem algo relativo a política na televisão, logo mudam de canal, ou para algum programa de variedades ou esportivo, quando não se trancam mentalmente nos Orkut ou menssenger da vida e esquecem que há vida exterior. Estamos formando jovens claustrofóbicos,que, ao contrário do que se imaginam, não pensam cada vez mais rápido, e sim, ao pensar apenas as idéias-chaves , o comum, o óbvio, não pensam, pelo menos criticamente.


E o estudo da História, que em tese deveria romper com esse quadro de comodidade se torna a matéria do “Pra que se estuda isso?” “Para que estudar o passado?”. Em parte isso se explica pela falta de crítica que temos, no entanto , o fato de termos professores que não ajudam em nadaa criarmos esse hábito de pensar é tão ou mais importante. Não estamos pedindo revolucionários, marxistas, anarquistas, comunistas, ou qualquer “istas”. Estamos pedindo graduandos pensantes, críticos, que saibam que a faculdade de História não serve só para ter um emprego ou , em menor escala, ter um status quo de intelectual.. Que tenham a visão de que são tão formadores de opinião quanto os intelectuais “produzidos” pela imprensa, e que saibam que,se não for feito alguma coisa já com esses jovens, chegará o dia no qual seremos meros reprodutores, sem influência alguma. O estudo da História é o espaço que abrimos para o processo do pensamento crítico, de começar a questionar, duvidar, se inconformar. E isso é doloroso e lento. E muito dos nossos graduandos de hoje não esta preparado para essa honra. E muita gente não está interessada que tenhamos tal objetivo enquanto educadores.



Enfim, longe de querer isso, é melhor começarmos dar valor ao que temos hoje, a nossa liberdade de pensamento, a de não sermos obrigados a nos conformarmos com essa imposição de cultura, que dá a falsa idéia de que somos seres pensantes, antes que a gente tenha que buscar, nas ruas, de novo, essa graça. E que possamos entender, dentre as várias e eruditas (algumas bastantes sacais) definições, de que a história nada mais é do que “a ponte que liga o seu mundo ao mundo”.



Afinal, ninguém é uma ilha.


***

Musica deste post: “Strangers in the night”Frank Sinatra

(Convenhamos:antes essa do que Nervos de Aço interpretada por Roberto Jefferson, não?)



Ps do autor: esse post era até o primeiro parágrafo um enunciado de uma prova para uma turma de pré-vestibular. Quando dei por mim estava na segunda página de divagações, logo eu não cometeria o crime a minha inspiração, tão apagada nos últimos dias, de parar.

2 comentários:

Cacau disse...

Bem fiquei com medo agora de 2af.......
Vc tava off no msn ontem?Entrei t procurando mas nem achei..é q ontem precisava mt ter falado c/vc...mas...fazer o q neh? bjs

Nayara Cristina disse...

bom, lendo seu blog senti umas certas indiretas. não sei se senti isso porque falei para você aquele dia que não estava entendendo nada da CPI e, de repente, me vi sozinha numa tela do msn. sim, você saiu e me deixou lá sem despedidas. mas isso não vem ao caso, afinal, você pode passar 24h de olha na CPI e continuará entendendo nada e não me vejo pior ou contratitória porque gosto de História mas não fico de olho nessa CPI - que, diga-se de passagem, virou um circo. No mais, vim aqui mesmo só para avisar que tem um link do seu blog lá no meu blog. beijos,