sexta-feira, abril 22, 2005

Manias I

Esse assunto já era para ter sido colocado há tempos, ele é sempre o primeiro assunto que penso em escrever, mas a minha preguiça de me autodescrever – que já é uma grande mania, não é a toa que sou quase um bicho preguiça-é maior do que eu. Maior do que a minha preguiça, talvez seja a tendência global de nos afastarmos de certo “temas-tabus” como eu denomino (e para isso recomendo a leitura de um livreto muito bom “A solidão dos moribundos” de Norbert Elias), como a Morte, o Sexo - na visão particular de cada um e não as visões romantizadas, lindas, mas com a tendência a nos generalizar como pacote de salsichas-e, entre outras, as nossas queridas e amadas manias.

Para quem já acompanha este singelo blog sabe que a minha angustia – o meu bichinho de estimação-e a minha amada ansiedade são características quase que inatas a minha personalidade. Se um dia você me vir diante de uma situação sem um ponto de ansiedade e caso essa situação não tenha dado certo, e eu estiver sem uma ponta de autodepreciação e angústia, por favor, chame a ambulância, pois eu fui possuído pela Samara.
Mas hoje as manias são outras, complementares e mais, digamos, exóticas ou engraçadas: o meu “desconstrutivismo” de idéias e o meu querido e longo papo comigo mesmo.

Um exemplo para ilustrar: Certo dia ,creio que numa quinta feira, andando com a minha amada, estávamos a conversar sobre algumas, das várias que existem, dúvidas da Bíblia. Lembro-me do tema: Saul tinha ou não consultado Samuel por via da necromansia? E não entrando no mérito de especificar qual a teoria de cada um, eu tinha uma visão X, e a expus. Logo após ela disse a visão Y dela, embasou, disse bonitinho e tal. Lembro-me como se fosse ha 3 minutos atras eu virando para ela e dizendo: “tá bom, você está certa, mudei de idéia!”. E é assim que eu sempre faço. Isso é que eu denomino de minha “desconstrução” de idéias, e a minha tentativa de buscar o equilibrio das coisas. Mas antes de falar sobre ela, eu quero defendê-la, pois minhas manias são minhas e não quero perdê-las: algumas pessoas chamam isso de falta de personalidade, ou uma espécie de “maria-vai-com-as-outras” , etc. Mas eu acho essa arrogância de só porque você tem uma idéia sua, você não possa mudar, só pelo orgulho de não se sujeitar a uma idéia que não foi criada por você. Isso, ao meu ver, é ridiculo.

Não que eu não pense, muito pelo contrario, pois minha hiperatividade me obriga a pensar , e muito. Eu tenho uma idéia formada sobre tudo, mas ainda assim, prefiro ser aquela Metamorfose Ambulante de Seixas. Sou uma espécie de Liquidificador, onde está tudo misturado, todas as correntes de pensamento, todos os gostos musicais, todos os tipos de literatura, tudo que é programa de televisão, etc. Mas, no caso das idéias, nesse meu “Liquidificador” mental, não entra qualquer coisa,pois, voltando ao primeiro exemplo do parágrafo anterior, não foi pelo fato de ser minha namorada que mudou minha idéia, e sim pelo fato dela ter embasado perfeitamente a posição dela, a tal ponto de eu perceber que a minha visão era falha e que a dela , por mais que mais tarde ela tb possa , talvez, ser colacada em contradição, era bem melhor do que a minha. Ou seja, para entrar no Liquidificador, tem que ter algum conteúdo embasado, uma espécie de filtro, comum nos liquidificadores modernos.

Essas semanas, eu estava ,onde dou aula ,conversando sobre , para variar, história com os outros professores desta disciplina- é, qdo vc encontrar 2 ou mais estudantes de História, eles estão conversando em sua grande maioria sobre história- e uma delas resolveu fazer a pergunta que todos estudante de história gosta de fazer:”Você é o que? Marxista, Estruturalista? Weberiano? Pos-Modernista...”. Aí dois disseram que eram Marxistas, um disse que era Weberiano, e eu quieto...quieto, até que eles olharam para a minha cara quase que me intimando a responder. Foi o que eu fiz: “Eu sou tudo isso, e sou nada disso”. Para mim, a resposta perfeita, uma vez que posso pegar as melhores idéias e que melhor convir para mim e para meu trabalho,mas não necessariamente ser partidário ortodoxo de um destes , mas para eles, que assim como a maioria esmagadora de proto-historiadores que não conseguem entender nem piadas , tampouco metáforas, eu tinha perdido meu conceito que ganhara ao dar a aula.

Outro exemplo clássico, a tão famigerada política. Eu, particularmente me divirto com o ortodoxismo dos PSTUs da vida. Será que é tão dificil perceber que mudar um país continental com tantas desigualdades não se faz em 4 anos? Não, não defendo o Lula, nem o ataco, pq nada esperarava dele quando entrou, e sinceramente, ele tem falado cada besteira ultimamente, talvez por falta de uma boa acessoria, e quem o viu pedindo perdão aos Africanos pela Escravidão sabe do que estou falando.Mas ser radical , e infantil, em dizer que ele faz o jogo do Imperialismo (que definição mais anacrônica), é no mínimo, engraçado.Mas também o jogo do Olavo de Carvalho, q a cada dia com seu discurso de que vivemos uma ditadura comunista (?) vem arrebatando um número crescente de neo-conservadores, não faz parte das minhas convicções.

Mas onde esta o ponto principal do meu tema no que eu disse? Pois bem, mesmo o radicalismo de esquerda ou de direita não sendo algo que eu leve como convicção partidária, colocando severas críticas em seus discursos, eu consigo e apreendo algumas das suas idéias na visão mais “neutra” ou “de centro”. É algo tão natural , pois nada é tão certo a ponto de ser acreditar cegamente (leia o proximo parágrafo) ou tão errado a ponto de ser descartado completamente.

Falando em crença cega, vamos a mais um “tema-tabu” : a religião. A tendência hoje é dizer que este não é mais um tabu, pois a liberdade de expressão e de confissão religiosa esta aí para isso. Mas já parou para perceber uma certa ceguidão na maioria de seus discursos, não importa se é no culto, homilia, seja lá o que for, ou em blogs da vida, ou mesmo na musica ou nos testemunhos? Como se a verdade absoluta estivesse em suas mãos, cabendo a si prórpio a salvação , e a condenação para quem não estivesse dentro de sua “religião”? É algo polemico, tanto que sei que receberei criticas, como recebo, por este parágrafo.Tive que rir um dia desses quando um aluno me disse que o Papa foi para o Inferno pq era católico. A senhora me diz isso em sala de aula, com mais de 60 pessoas a escutando, tem noção? Talvez a minha risada irônica, junto do fato dela saber que sou protestante também , tenha sido mais revoltante para ela do que a minha resposta que se o céu só fosse dos “Evangélicos” (Isso e a denominação de “crente” eu não consigo entender...), ele ia ficar bastante vazio do que o planejado inicialmente...Mesmo sendo protestante, batista, quase que nascido em Igreja, não me cega a ponto de pensar que vivo na melhor das religiões, pois isso não há: Jesus nasceu Judeu, e morreu Judeu, a trasformação que ele propôs é no coração do homem. Se ele não condenou a mulher de samaria , pq eu condenaria o papa , um velhinho simpático, pela sua escolha? Quantas escolhas eu não faço que não são condenáveis? Eu tenho a minha crença, minha “religião” , não estou lá pela força da inércia ou da tradição, mas , só por causa disso eu tenho que me calar e deixar de estudar, para melhor me descobrir? É por isso que as pessoas são enganadas hoje como eram enganadas na Idade Média.Eu nem sempre tive essa idéia, visto que fui criado na Igreja,mas a vida, as leituras, e sobretudo a faculdade de História me deram uma visão mais racional (como Paulo pede em sua carta) da minha fé.Em outras palavras, mudei de idéia por outra que, para mim, era melhor.


É por essas e outras que eu digo que sou um bicho estranho...não é?


Continua...

2 comentários:

nayara disse...

cada um tem um pouco de bicho estranho.

Salomão Patrick Afra disse...

Não é problema algum isso que vc diz. Talvez todos protestantes que tenham um pingo de tino e questionamento tenha a percepção q vc fala ter, mas o medo de onde isso vai terminar os deixa sem vontande de ir adiante... Abraços