segunda-feira, novembro 10, 2008

Irônico, eu?

Tem certas coisas que não conseguimos controlar.

Simplesmente assim: você se esforça, controla-se, mas, quando menos se espera, ta lá você fazendo de novo. Podemos comparar com o vício: sejam coisas destrutivas, como a bebida e os entorpecentes, sejam em coisas cotidianas, como dar menos “pinta” de que esta gostando de alguém, ou não atacar a geladeira de madrugada, seja não entrar no Orkut ou dar uma “espiadinha” em que está on-line no MSN e atrasar seus estudos, lá estamos nós descumprindo nosso desejo de nos segurar.

Eu percebi a algum tempo que se tem uma coisa que eu não consigo me controlar, é com minha ironia e meu sarcasmo. (Não, ironia e sarcasmo não são a mesma coisa, mas não vou me deter a detalhes aqui. Qualquer coisa procura no Google). Confesso que por algum tempo, tentei evitar, busquei ser alguém simples, normal, que não tem um comentário “maldoso” ou “picante” para cada frase que escutasse.

Mas não deu.

Não acredito em natureza, em coisas inatas ao meu ser (e para quem acredita nisso, só um lembrete: cada um no seu quadrado, ta?), mas não tenho outro argumento a dizer que não que o sarcasmo e a ironia faz parte de mim. Não sou eu se não for irônico. Mais. Não sou eu se não for politicamente incorreto. Talvez venha das minhas influências infantis, basicamente Pernalonga e Pica-Pau (a versão comportada, o outro é muito sem noção, é chato), a predileção pelos personagens irônicos. São os mais charmosos, são os mais engaçados para mim, são, em suma, os mais interessantes, os mais inspiradores. Poderia aqui fazer uma lista gigantesca dos personagens irônicos que me inspiram, mas só cito um, o maioral, o preferido: Chandler Bing. Talvez, se você nunca viu Friends (e por isso é uma pessoa menos feliz, fato!), não tenha a mínima idéia do que eu esteja falando, mas ele é o cara! Não perde uma piada, sabe a hora exata e o comentário exato para qualquer assunto, nem que com isso ele acabe por constranger as pessoas ou ser politicamente incorreto. E embora ele seja uma simples ficção, há algo nele que me aproxima ainda mais: seu espírito irônico é uma espécie de autodefesa, ou melhor, a única forma de se comunicar com o mundo.

Sim, pois para mim a ironia não é uma escolha totalmente consciente. Na maioria das vezes, não tenho outra forma de como falar sem soltar uma ironia. Isso não faz de mim um palhaço, daqueles que precisam ser espalhafatoso para fazer graça. É claro que uma coisa leva a outra, mas não sou sarcástico para ser engraçado, sou sarcástico simplesmente porque não sei outra coisa.

E hoje até gosto de ser irônico, faz parte do meu hipotético “carisma”, muito embora ainda cause problemas. O primeiro, mais simples, é que as pessoas confundem meus atos irônicos com atos depreciativos. Isso leva ao segundo problema: não se compreendido. Por não ser compreendido entende-se não ter o humor igual ao da maioria das pessoas. Gosto do humor inteligente, rápido, rasteiro, que precise ter raciocínio muito rápido para dar tempo de achar graça. Não gosto de nada muito escrachado, que tenha que apelar para o pastelão para fazer rir, e, por isso, gosto cada dia menos do humor feito no Brasil. Por ter vivido longos anos em frente à TV, vendo seriados, gosto do humor americano, que, na grande parte das vezes, ninguém entende. E isso repercute na minha forma de fazer graça (aí sim, a ironia é deliberada para o humor): quando eu quero ser engraçado, ou mesmo espirituoso ninguém entende. Ou pior, entende errado.

Cada dia me sinto mais um estranho num grande ninho chamado universo. E para evitar maiores constrangimentos, eu me seguro para evitar um comentário dentro da igreja ou da escola, scrap, um sms para a amiga que ta namorando (mesmo que definhando), um email, ou mesmo uma resposta para uma banca de qualificação de Mestrado de forma irônica, ou com altas doses de humor negro (ou afro-descendente, como queiram) ou mesmo algo politicamente incorreto. Mas quando me vejo já to lá eu fazendo de novo.

Eu disse que não consigo me controlar.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Finitude - A Repercussão

"Com tantos problemas, repouso em ti, ó música, e minha alma se regenera" (Poesia que inspirou a foto)

Mentira: so queria mostrar meu novo chapéu e meu Pierrot* .______________//___________

Aliás, achei uma chapelaria na Marechal Floriano que é agora é meu novo point.
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Enfim, respondendo a algumas indagações depois do meu texto (obrigado a tds q responderam, não é pra amaciar o ego, é pra melhorar a redação msm que peço que vcs comentem)

1. Você terminou com sua namorada?

Nelton: Não, esse texto estava engasgado já faz um tempo. Estamos mt bem, diga-se de passagem. Um dia posto fotos do nosso mais novo programa de domingo de tarde: "A Cozinha maluca de Nelton e Nana".

2. Nelton, vc é gay?

N. Não, não sou, nada contra, mas não sou.

3. Nelton, pq vc escreve uma cronica com linguagem de msn?

N. Pq escrevo minhas crônicas na linguagem daqueles que estão lendo. Não estou escrevendo um texto acadêmico, que tenho que saber as 45 regras de portugues para colocar a virgula...ah, vc entendeu a mensagem? Então, me dá um cadinho de sossego, por favor... se ficar falando mt vou começar a falar assim. Ou ainda pior, eu vou estar começando a estar falando em gerundês de telemarketing, que tal?

4. Nelton, vc é homossexual?

N. Eu já disse que não, né?

5. O texto foi pra alguem em específico?

N. Sim e não. A idéia central partiu de um evento com uma pessoa em particular, mas depois descobri que poderia transformar isso numa catarse coletiva, generalizando para outras coisas e pessoas que tenho que aliviar a bagagem.

6. Nelton, sua coca é fanta?

N. Não, não, e Não. Sou coca, sem frescura de Ligt ou Zero... Da pra sossegar e parar de perguntar?

7. Nelton, pq vc transformou seu blog em flog?

N. Pq ngm le meu blog, ou ngm comenta. E olha q no www.fotolog.com/neltonaraujo, qq um pode responder. Aliás, vou até postar essas respostas lá agora.

8. Nelton, vc é gay?

N. ...

9. Essa sua resposta é um indicativo que sim?

N. Não, é um indicativo q já to ficando de saco cheio...

10. Quem é a Carol? A ex que vc despejou td sua raiva e desprezo nesse texto? Ta pegando?

N. Carol é minha grande amiga, já tem uns 12 anos. Eu to namorando e to feliz, embora a Carol seja linda demais (Homens se candidatem... se vc gosta do Botafogo e não tiver problemas em saber q sua namorada joga futebol melhor que vc, te mando um email). Foi ela quem me provocou. E esse texto não teve raiva nem desprezo, tampouco tenho algum desprezo ou raiva a alguma namorada. Embora algumas me odeiem, eu tenho um enorme carinho por todas, pois elas me fizeram ser um namorado melhor. Silvana agradece...

11. Nelton, vc é gay?

N. Pra que vc quer saber isso? Já to falando há um tempão q não, mas vc não acredita...Vai, então, acredita q sou gay... eu desisto.
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Bjs a todos e daqui a alguns meses volto com algum texto polemico de novo.

So para que saibam, estou em época de qualificação, fico o dia inteiro dentro do mosteiro da Biblioteca da UFRJ. Qd não to, to correndo, malhando, nadando, beijando na boca ou falando com a namorada no Telefone. Mas um dia apareço de volta.

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* Pierrot é o nome do meu baixolão, vc ainda não sabe? Não quer q eu explique de novo não, né?

quinta-feira, agosto 07, 2008

Finitude

Uma grande amiga me disse, ao saber do tema deste post, disse que gostaria de lê-lo, pq em geral ela não sente que eu visto a carapuça do que eu escrevo.

Ledo engano.

Muito pelo contrário, tudo que escrevo são baseados em experiências próprias, dores, alegrias, que eu vivo. Talvez a capacidade de distanciar e me observar sob um ponto de vista irônico, ou doce, ou agressivo, ou apaixonado, generalizando, dê esta sutil impressão. Afinal, são vários Neltons que se manifestam em um só.

Generalizar sempre é perigoso, mas é necessário para quem não tempo, nem vontade – confesso – de fazer um estudo aprofundado. Quem veste a carapuça, amém, quem não veste, aparece no próximo post e vê se se enquadrada. E uma coisa que a grande parte dos homens não sabe, ou não gosta, ou não quer fazer é dar fim as coisas. Ninguém gosta do fim, seja de um bom filme, seja de um bom CD... de um livro então? Nossa, bate até uma depressãozinha leve. Uma novela (e eu sou noveleiro, embora ultimamente não praticante) quando chega ao final, dá até frisson: à hora das revelações e desfechos... mas no início da outra trama, a sensação é de saudade da trama que se findou. (nossa, saiu tão poético... rs).

Mas não nos restringimos só a isso: odiamos dar cabo em coisas mais subjetivas, mais abstratas. A morte é tão mal vista pelos homens menos pelo fato de ser o fim de um ciclo, mas por representar a finitude do próprio ser. Ao nos depararmos com a morte de um ente querido, além da dor de não tê-lo mais entre nós, a alegria de saber que está em outro plano, numa melhor (dependendo da fé de cada um) é sobrepujada por aquela reflexão de que éramos nós que podíamos estar ali, que o tempo escorre pelas mãos, e aí todas aquelas questões filosóficas que varia de pessoa para pessoa.

Mas não precisamos ir a questões extremas para perceber que não queremos largar o cabo da nau. Não precisar cair no lugar comum daquelas quinquilharias e bugigangas que vc não se desfaz nem sob ameaça de morte. Falemos de alma, falemos de emoção: não conseguimos definir bem a hora que devemos dar fim a certos sentimentos a certas pessoas ou a certas coisas. Ex-conjugues que não se tocaram que já acabou, que ta na hora de partir para outra. Conjugues que sabem que a caravela do relacionamento já esta indo pique, mas mesmo assim, não conseguem dar fim, e aí inventam desculpas e pretextos egoístas para pular do barco, como “Vou esperar ela (e) terminar”, “Na próxima oportunidade eu termino”, quando poderiam ter a nobreza de simplesmente dizer a verdade. E, na maioria das vezes, não sabemos findar amizades e sentimentos fraternais que já não valem à pena. Temos aquela visão ultra-romântica de que um amor ou uma amizade (posto que são sentimentos gêmeos) devem durar para sempre, e esquecemos-nos do principal: estes são presentes de Deus, anjos enviados com uma missão, de edificar-nos mutuamente, mas isso não implica dizer que sua hospedagem aqui em nossas vidas é sempre eterna. Mas adianta dizer? Falar alguma coisa?

Não, não adianta, por inércia, por medo da solidão, ou aflição da impotência de ser bem-sucedido socialmente, por gratidão a tudo que houve, ou mesmo, (e acredito que seja a maior razão) por aquela visão esperançosa de que toda aquela “Era de Ouro” vai voltar a se repetir, ficamos batendo na mesma tecla, petrificando nosso coração um pouquinho a cada dia. Cremos que largar o cabo de um relacionamento falido (seja qual for) é um ato cruel, indiferente, desumano, egoísta, quando, na verdade, é a inércia que é desprezível, pois estamos perdendo a oportunidade de sermos felizes no presente, nos segurando nas imagens do passado. Antes que me pergunte se sou contra a investir e insistir num relacionamento, respondo que não. Devemos persistir, relacionamento que é relacionamento passa por crises (e das brabas e sim, no plural!) e não vai ser na primeira crise que devemos largar o barco. Mas temos que ir até onde nossa dignidade permite... Larguemos as carniças que estão atadas as nossas mãos, e levantemos nossos braços para receber os anjos que do céu descem a todo instante.

Não é fácil, não é feliz, dói – e muito -, mas é necessário. E eu sou o primeiro a entrar nesta fila. Há tantas coisas e pessoas que devo largar esquecer, deixar livre para quem busquem sua própria felicidade. Procurar ser uma pessoa melhor, e não desejar o mal do outro. Desejar pagar o mal com bem, mesmo que muitas vezes me veja em situação contrária. Afinal, quem tem luz própria não tem medo de sombras. Mas quem gosta do final?

Se esse texto serve pra vc? Não sei, sei que foi feito pra mim. Visto explicitamente a carapuça, viu Carol?


segunda-feira, janeiro 28, 2008

Vida de Mestrando I

Parte mais arrumada de um quarto de Mestrando]

“Manhã de sábado. Dia claro, bonito, muito calor. Apesar disso, ele ali, com o laptop no colo, sentado no sofá da sala, fichando mais um livro para seu mestrado. Aliás, ele dormiu bem tarde, e, para não perder o prazo, deixou o laptop ligado para quando acordar, bem cedo, começasse já no pique. Assim, quando só tinha ele, seu laptop, o som da televisão ligada em qualquer coisa só para fazer companhia, o telefone toca:

- Alô?

- Alô, eu poderia falar com o Nelton Araújo?

- É ele, quem deseja?

- É o orientador do mestrado dele.

O coração dele disparou: o que faria o professor ligar pra ele em pleno sábado? Pior. Que mancada não ter reconhecido a própria voz de seu mestre intelectual. Que ousadia perguntar "quem deseja?" ao seu todo poderoso.

- Nelton, liguei para a professora que vai ser sua co-orientadora. (por motivos óbvios, não irei citar nomes, mas ela é a filha da Camila Morgado e do Caco Ciocler) e ela disse que, para aceitar, quer ler seu projeto, saber se você já leu tais livros e ...

Na cabeça dele, que já pensa cem vezes mais rápido que fala (geralmente, os homens pensam apenas 4 vezes mais rápido que falam), já sabia que as merecidas férias de fevereiro tinham ido para o espaço, só (re)escrevendo o projeto que tem que enviar, mas estava feliz porque estava prestes a conseguir uma co-orientadora de peso. (não literalmente, é claro!)

- ...e ela estava na dúvida quanto a todos seus jornais estiverem disponíveis para você. Teve um orientando que também estava trabalhando com "O Jornal" (Sim, o jornal se chama "O Jornal" , criatividade zero!) e depois descobriu que não tinha todos os exemplares e ficou com as "calças na mão".

- Não, professor, eu já perguntei e tem todos os exemplares até novembro de 1937.

Não obstante tenha dito com firmeza que tinha todos os jornais, que ele, vagamente, lembra que perguntou no primeiro dia que foi na moça dos periódicos da Biblioteca Nacional, as vozes começaram a aparecer. E se ele não tivesse perguntado? Se ele tivesse confundido, afinal, ele cortejou 5 jornais até resolver ficar com "O Jornal" como a fonte do mestrado. E se ele não tiver, o que ele faz? Ele é bolsista, ele poderia perder a bolsa, e isso seria a morte a beira do abismo.

Já eram 11 da manhã, ele ainda tinha a academia (seu método de descansar mentalmente e emagrecer ao mesmo tempo), tinha uma reunião às 15, e tinha ainda muito que estudar. O mais coerente era ele segurar a ansiedade e esperar a segunda vir e, com calma, solucionar essa pequena dúvida. Mas quem disse que Nelton agüentaria? Sua cabeça eram só indagações, medos, incertezas, inseguranças... Mal terminou a conversa com o orientador, já foi escolhendo a primeira coisa que via na sua frente, que combinasse e não estivesse amassada naquele imenso almoxarifado que deveria ser interditado pela Defesa Civil que era o seu quarto. “Desorganizado sim, mal vestido, nunca!”, era o lema dele. Por fim, vestiu aquela velha bermuda da Adidas que ele comprou na Uruguaiana,aquela camisa do Manchester United, que ele comprou por um preço de oficial, mas pairava dúvidas sobre sua autenticidade, e o tênis de academia, afinal, ele já tinha planejado que iria voltar a tempo de pegar a última hora da academia aberta. Esqueceu o celular, que para ele só tinha a função de despertador e relógio, mas o tocador de músicas e o boné ele não esqueceria jamais.

A passos muito rápidos, ele chegou ao ponto de ônibus. 2 ônibus não quiseram parar, e a cabeça cheia o fez dizer a mesma frase que diz quando tudo conspira contra (mesmo que fosse exagero dele, não muito raro):

- É, hoje a lei de Murphy ta contra mim!

Enfim, pegando o ônibus, esboçou abrir o livro que precisava ler pra ontem, mas sem sucessos: a sua cabeça fazia centenas de combinações para uma possível inexistência de fontes, que iam da mais elementar troca de jornais (O Rio de Janeiro dos anos 1930 possuía quase 3 dezenas de bons jornais para serem estudados) até o lançamento do seu corpo do décimo andar de onde morava, ou mesmo a fuga para a Groelândia. Absorto em seus pensamentos, nem percebeu que já estava na Avenida Rio Branco, a dois pontos da Biblioteca Nacional. Ao soltar, fez o mesmo ritual de todos os dias: adiantado ou atrasado, lá ele ia ao jornaleiro paquerar as notícias do dia de todos os jornais, conversava com o senhor da banca, e saía com um saquinho de amendoim, duas paçocas e uma bala de caramelo. Correu o risco de todos os dias, atravessando a Rio Branco correndo e fora da faixa (ele me confessara que adorava esse tipo de esporte radical!) , e olhando sobre as escadarias,via uma Biblioteca Nacional aberta. Isso já era um grande alívio: quantas vezes tinha acordado cedo, pego o ônibus cheio (e enjoava todas as vezes), e quando chegava a encontrava fechada, com uma bela faixa de “REPOSIÇÃO SALARIAL JÁ! GREVE!”.

Passou pelas formalidades de praxe da Biblioteca até de forma mais rápida, já que não levara o laptop e não passara pelo constrangimento do segurança verificar se a declaração de entrada do laptop era verdadeira. Só estava ele e um lápis- tinha guardado o Boné, o MP4 e o livro no escaninho – Entrou na sala de periódicos com a sensação de que ele não deveria estar ali. Olhou para o relógio de parede da sala: eram 12:03. Chegou na sala de atendimento, e como sempre, foi aquele poço de simpatia.

- Pois não?

- Olá, olha eu preciso muito da sua ajuda. Eu queria apenas que você visse essa localização – SPR 00136, que era o código dos bibliotecários para o “Jornal” - e me dissesse se há todos os meses entre Novembro de 1935 a novembro de 1937. Vim do Méier só pra isso, você poderia aliviar a alma desse mestrando cristão?

A atendente, querendo rir, mas muito solicita, acena com a cabeça e vai até o depósito. Menos de 2 minutos depois

- Olha, para a sua felicidade, tem todos os jornais microfilmados até novembro de 1937, e se você quiser fazer o doutorado usando “O Jornal”, fica a vontade: tem até 1945.

- Sério? Poxa, muito obrigado!

E sem pensar, se dirigiu para fora da Biblioteca: pegou suas coisas no escaninho, entregou o cartão de identificação a segurança que o tinha feito o cadastro, que exclamou

- “Nossa, que rápido! Veio só ver se a BN estava em pé?”

- Rápido? São que horas?

- 12:06!

Sim, toda aquela insegurança para serem resolvidos em três míseros minutos! Nelton se despediu da segurança, e colocando os fones do MP4 nos ouvidos enquanto descia as escadarias da BN, sorriu pra si mesmo e disse:

- Só você mesmo, né Nelton? Você precisa se tratar!

E lá foi ele, atravessando novamente uma Rio Branco com sinal verde, e foi para a Uruguaiana fazer o que mais gostava: escolher um boné para comprar. Não comprou nenhum depois de 2 horas, e voltou pra casa, esquecendo da academia, cheio de remorso de ter perdido o precioso tempo com uma insegurança boba. Prometeu nunca mais fazer isso outra vez.

Até que num outro dia...."

segunda-feira, dezembro 17, 2007

1 ano depois...


Esse post está um pouco atrasadinho.

Afinal, ontem as 16:10 fez exatamente um ano que vi meu nome encabeçando a lista dos aprovados para cursar o mestrado em História Política na UERJ. Depois do espanto natural de ver meu nome lá em cima, logo pensei:” isso tem que virar post do meu blog, eu preciso contar a todos essa vitória!”.


E demorei 1 ano para tocar no assunto simplesmente pq não vi necessidade de espalhar aos quatro ventos. Pra quem me conhece um pouquinho sabe que até fico envergonhado em falar com boca cheia que “Fui o primeiro no concurso do mestrado na UERJ”, sobretudo pq isso soa pra mim a arrogância, que é o mais odioso de todos os defeitos que o homem pode ter.

Um ano após essa “conquista”, posso falar com conhecimento de causa: sabe o que mudou na minha vida por ter conseguido tal fato? Porra nenhuma (advérbio de intensidade significando “nada”). Não me sinto maior e nem melhor que ninguém, pelo contrário. Posso até dizer: “Sobre anticomunismo na imprensa entre 1935 e 1937, dificilmente alguém saberá mais do que eu”, mas tal não me autoriza a andar pelos outros e dizer (ou pensar): “Eu sou o intelectual-sábio-ancião-mestre Miyagi e vcs são um bando de ignorantes, quem ousa discordar de mim?”. E,acredite,não é exagero meu: muitos pensam assim.

Lá na UERJ eu já encontrei um monte assim. Mas também encontrei na UFF, UFRJ, Unirio, USP e em qualquer lugar. E não precisa estar no mestrado não. Seja percebendo que se destaca entre os seus colegas de turma, ou tendo algum defeito na transição do mundo do ensino médio para a da graduação, cada vez mais jovens estão se tornando “arrogantes intelectuais”. Confesso que já quis ser um, mas também confesso que o queria como instrumento de poder, como forma de ter voz reconhecidamente respeitada no grupo social que vivo.

Tem a postura de superior, de achar que o mundo deve gravitar em torno dele. Entende-se por mundo desde o universo inteiro até o seu mundo particular: família e amigos. Acha que com seu desenvolvimento intelectual é equivalente a seu crescimento como pessoa. Pobre coitado.

Um pseudo-intelectual também se fecha no seu mundinho e não permite novas aventuras e experimentações. Não se permitem ousar, brincar, enfim, viver. Pior. Tudo aquilo que ele não se permite, ele põe a etiqueta de “errado”, “medíocre” ou de “ridículo”. Enumero as criticas mais freqüentes:

“Como você pode ver novela da Globo?” “Funk? Isso não é música, é coisa de ignorante” “Estou lendo Tolstoi, como vc pode ler Harry Potter?” “Que Perfil é aquele no Orkut?”

E aí vem a última característica que mais me irrita: não saber discutir. Discussão, para mim, sempre foi um diálogo entre vozes diferentes, buscando o levantamento de opiniões, e que, num segundo momento optativo, pode gerar uma terceira opinião adotada por um, pelo outro, ou pelos dois. Mas não, discutir com pseudo-intelectual requer dizer: guerra por ter razão. Ele já vem todo armado, com frases de efeito prontos e táticas de persuasão aprendidas em internet. Aí qualquer coisa que vc possa discordar, qualquer debate se torna um inferno. Quem disse que eu quero ter razão? Quem disse que eu não posso mudar de opinião? Quem disse que eu sei tudo sobre tudo? Mas não, eu sou o primeiro lugar no mestrado na UERJ, eu sou o cara, eu tenho que ter uma opinião formada sobre tudo e tenho que impô-las a todos aqueles que estão abaixo de mim. Acredite, já me disseram isso. Mais: aqueles que não disseram, pensam assim. Nessas horas , eu tenho que gritar aquele palavrão libertador, que te desestressa e coloca vc no eixo:

FODA-SE!

Por essas e por outras que eu não tive vontade de escrever sobre a minha vitória. Para que não soasse assim. Melhor que expô-las, é ter em sua memória cada segundo da batalha, de passar um ano inteiro sem dinheiro algum, trancado no quarto se matando para passar, mesmo sabendo que no ano anterior a mesma banca que me passou em primeiro, chamou a mim de “fraude”. É saborear cada instante e desfrutá-lo numa posição neutra, equilibrada, sensata: não em cima de um pedestal de uma intelectualidade falsa e que só vai te atrapalhar. Em resumo: no final, todos vamos morrer, seja menos intelectual, e mais humano.

Texto completo em www.nelton.blogspot.com

P.S.: A foto foi da época quando entrei. Hoje em dia, o tema da minha dissertação é, provisoriamente, “A fabricação do Perigo Vermelho – O discurso anticomunista em “O Jornal”” (1935-1937).

domingo, outubro 07, 2007

A CRIANÇA QUE VIVE EM VOCÊ



(Quase) tudo que alguém precisa saber aprende na infância. Relembre as regras daquela época e melhore sua vida.


1 - Perguntar é a palavra de ordem para descobrir e entender como as coisas realmente são. Perguntar, perguntar e perguntar.


2 - Beijar aquela(e) garotinha(o) bonita(o) no rosto é algo importante. Dar um selinho, então, nem se fala. Vê-la(o) nu(a) pela primeira vez é um superevento que vai alterar sua vida para sempre.


3 - Uma das piores da vida é um adulto dizer: "Amanhã eu penso nisso". Não é porque você cresceu que isso se tornou aceitável. Portanto, não procrastine.


4- Lição de casa é um saco: enquanto você não pode terminá-la, não pode assistir à Tv ou brincar com seu pai. Só leve trabalho para casa se você quiser acabar com sua noite, sua família e sua vida.


5 - Seu mundo pode ser meio real, meio imaginário.


6 - Mijar tentanto acertar um alvo faz o tempo voar. (e leva a sua mãe a loucura)


7 - AMIGOS SÃO PESSOAS DIVERTIDAS, AMOROSAS, LEAIS E LIVRES DE GRANDES EXIGÊNCIAS OU COMPROMISSOS. TENTE SER HOJE, MESMO COM TANTOS COMPROMISSOS E TÃO POUCO TEMPO, O AMIGO QUE VOCÊ ERA QUANDO TINHA 12 ANOS.


8 - Chuva não merece ser amaldiçoada. Pelo contrário, voc~e deve curtí-la ao máximo. Corra para o quintal antes que ela pare.


9- Há uma razão os bancos não darem cartões a crianças de 8 anos. E ela é muito simples: antes de comprar um brinquedinho novo, você precisa ter o dinheiro guardado.


10 - Diversão é tão importante quanto a obrigação. Use e abuse de seu tempo livre com a mesma seriedade e dedicação que você tinha aos 5 anos, quando brincava de caça tesouro no quintal de casa.


11 - Entupir-se com alguma coisa va dar a você uma bela dor de barriga. E essa regra vale para balas, chocolates, picanha e cervejas.


12 - O café-da-manhã é a mais important refeição do dia. Ainda que ele não venha mais com o brinde da caixa de cereais.


13 - A janela da varanda é até melhor para ver o que acontece no mundo do que a TV de última geração que está na sala.
Aliás, feliz Dias das Crianças.

quinta-feira, maio 31, 2007

Viagem Ao Pólo


Eu estava dentro de um bloco de gelo. E como qualquer pessoa de bom senso, estava lá sem saber que estava. Juro, realmente não percebi do inverno que se encontrava meus sentimentos. Meu coração, acostumado a bater descompassado, quiçá arritimado, esquecera-se disto e batia até agora tranqüilo, morno, resignado.

Não que isto me surpreendesse totalmente. Não que isso seja regra, mas as vezes escolhemos a razão (na falta de uma palavra melhor) sob o preço de nos distanciarmos do coração (na falta tb de uma palavra melhor). Em certos momentos da vida, parece que o mundo vai cair sobre seus ombros, e eu tenho o dever de não poder hesitar um segundo. Enquanto a avalanche de compromissos, responsabilidades, tarefas, livros me bombardeiam a torto e a direita, chego a conclusão de que é hora de começar a realizar – conquistar, digo – aqueles meus sonhos, desejos, estes que tantos têm e tão poucos alcanço, menos por falta de vontade do que por oportunidades. E eu tenho essa oportunidade nas minhas mãos! E lá fui eu, nessa caminhada espinhosa, não tendo a percepção que a medida em que eu ia buscar meu lugar ao sol, minha alma se dirigia rumo ao Pólo Sul.

E por um bom tempo permaneci inerte dentro desta geleira. O corpo humano possui a capacidade incrível da adaptabilidade. E só agora, a distância e sob uma segunda perspectiva, vejo que não somente tinha me congelado sem saber como tinha me acostumado com as baixas temperaturas. Mas para mim, estava tudo normal: tinha meus amigos, família, continuava rindo, pranteava em outras. De diferente somente aquela sensação incômoda de que faltava alguma coisa, de uma relativa “incompletude” que me deixava hermeticamente fechado aos outros. Aqueles – poucos - que me amam, eu deixava a distância com aquele meu humor, meu jeito desajeitado e irônico. Sim, o humor é uma ferramenta excelente para deixar as pessoas a margem do seu verdadeiro eu, não pq eu seja uma pessoa triste, que não sorri, mas o meu lado sacarstico é apenas uma pequena faceta do que realmente sou. Assim, poucos sabiam das minhas desilusões, dos amores não correspondidos, das cicatrizes que os outros – e muitas vezes eu mesmo – deixaram em meu peito, e de que aqui estou eu: dentro desse bloco em derretimento.

Derretendo, sim, porque por alguns belos e fugidios minutos, uma fonte intensa de calor apareceu nessas terras geladas. Fechando os olhos me lembrando exatamente como aconteceu: primeiro como num ato impulsivo e imprevisível, um pequeno e brilhante raio de sol penetrou entre uma miríade de nuvens escuras que pintavam o meu céu. Depois, de maneira ousada, como deve ser, foi lentamente competindo seu calor, sua luz, com os ventos gélidos e as nuvens cinzentas, recolorindo a paisagem até então monocromática, chegando,doravante, aquele bloco de gelo que me encontrava. Logo, logo foi ganhando espaço, deixando de ser um simples raio, aumentando consideravelmente seu diâmetro, e meu corpo, outrora acostumado com o breu da noite fria, começou a reagir à claridade e ao brilho daquela luz. O bloco já dava os primeiros sinais de que estava se deformando por conta do calor. Enquanto isso passei a olhar ao meu redor, e me surpreendi ao ver o verde vivo dos campos, as primeiras flores querendo desabrochar. Contemplei o céu e via que as nuvens ainda estavam lá, mas num cantinho minúsculo, ao contrário daquele céu azul de brigadeiro que ali sorria para mim. Finalmente, olhei para mim e maravilhei quando percebi que estava ganhando co, tal como aquelas pessoas da cidade de Pleasentiville em “A Vida em Preto e Branco”.

E foi aí que aquele calor me atingiu em cheio, não mais timidamente como no início, mas agora intenso, forte, porém doce, suave, acolhedor. Percebi que meu coração se aquecia: que saudade tinha – e não sabia – desse calor, deste sentimento tão aconchegante, paz.... Se outrora, estava dormindo mesmo de olhos abertos, agora estou realmente desperto, saboreando cada instante, respirando fundo para não esquecer daquele frescor.

Estava prestes a me desvencilhar de toda aquela crosta de gelo presa em meu corpo, daquela hipotermia que impedia que meu coração fosse completamente aquecido, quando aquele lindo raio de sol se foi. E de volta vieram as nuvens, o frio, o sentimento de solidão. Já não estava tão preso naquele bloco como antes, mas continuo lá. Se é temporário ou não? Se é um prenúncio de uma nova estação? Não sei, acho melhor não me preocupar tanto com isso e deixar de aproveitar esse restinho de calor, que trouxe esse meu sorriso no cantinho da boca e a certeza de que vou sair desse bloco de gelo. Não sei quando, mas vou sair.

Enquanto isso fecho meus olhos, tentando não esquecer um segundo dessa breve primavera, poetizando, mesmo que levianamente, o instante de um beijo.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Se é bom ouvir, imagina tocar...



No início de minha adolescência eu descobri uma brincadeira, no mínimo, diferente: eu me trancava no quarto, desligava as luzes, colocava uma boa música, pegava um violão -que não sabia tocar- e simplesmente fingia ser o guitarrista. Falando assim, de forma impessoal e distanciada, parece meio insano (meio?), mas me lembro como se fosse hoje do que sentia: minha pele toda ficava arrepiada, eu tinha calafrios e tinha uma sensação muito aliviante. Eram os primórdios da minha relação com essa dona tão fascinante: a música. O que era uma mera brincadeira, virou terapia: com toda tensão que um rapaz um tanto diferente de 16,17 anos, acrescida do fato nunca antes pensado que seus pais estavam se separando, eu precisava ter alguma válvula de escape para não surtar. E aí, ficava no quarto alguns minutos, antes que a irmã entrasse e confirmasse que eu era doido, e voltava anestesiado.

É bem intensa minha relação com a música: chego ao extremo de dizer que posso ficar sem livros, sem computador, sem televisão, mas sem música eu não vivo. O efeito terapeutico dela é melhor que muito antidepressivo. A cada melodia, uma estrada rumo a um lugar novo. A cada acorde, um sentimento aflorado, uma retrospetiva. É aquela musica do primeiro beijo, daquela viagem inesquecível, daquele amor platônico que nunca soube o que você sentia por ela...enfim, quando você se dá conta, você tem uma trilha sonora sem perceber. Meu mundo é o da música: meu melhor amigo é o mp3 player e o meu violão. Sim, ele mesmo. Depois de alguns anos, aprendi contrabaixo, e violão. Não vejo a hora passar, noites de sono já foram perdidas...

Mas não é só o som do violão que me inebria. Na verdade, todos os intrumentos são fascinante para mim (eu ainda vou aprender teclado e trompete), mas eu tenho meu xodó: o contrabaixo. É instrumento que é alma da banda, mas ninguém sabe o que ele é:alguns dizem que ele é uma guitarra com menos corda, alguns nunca perceberam o som gravinho, gravinho dele. Foi o primeiro instrumento que estudei (o violão eu aprendi sozinho depois), e a paixão é cada dia maior: tão bom quanto um bom solo é o aquele peso de um bom baixo tocado sendo captado pela sua alma. Sim, a música tem que ser ouvida pela alma, mais do que pelo ouvido.

Hoje, 10 anos depois da criação da minha estranha brincadeira, mais maduro e sabendo o que fazer com o instrumento que to segurando, me vejo fazendo a mesma coisa: desligando as luzes e tocando junto com o rádio. E saio igualmente relaxado, pronto para esse mundo musical que me cerca. Sou um autista por opção: em geral estou na rua, com o mp3 nas alturas, fingindo estar tocando uma guitarra, o baixo, a bateria...E as sensações que tenho são as mesmas de outrora. Eu já disse a terapeuta q não preciso de remédio, eu preciso de música.

E não é que ela concordou?

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Toque

[Toque]

Nunca é muito tempo e é uma palavra muito forte. Mas, embora eu seja irremediavelmente apaixonado, certamente um relacionamento virtual não duraria muito tempo comigo. Não, é menos pela distância em si, posto que os corpos podem estar a quilômetros de distancia, mas as almas, os corações, podem estar a milímetros. (ok, há controvérsias, mas isso é outra conversa, mesmo pq não escrevo para convencer... Ta, há controvérsias, mas posso continuar a escrever, posso?). Também é menos pela inevitável máscara que usamos no mundo virtual, mesmo que involuntariamente. É, sobretudo, pela falta do toque. Não, não to falando do toque subjetivo, o na alma, que é lindo, sublime, extraordinário, etc e tal. To falando do físico mesmo, o pele na pele, o cafuné, o carnal...

O toque é uma arte, e antes que vc diga que acabei de falar um chavão horroroso, eu peço as próximas linhas para explicar. O toque a qual me refiro não é apenas o pegar na mão, no cabelo, na bochecha. Isso qualquer um faz: seu pai, sua tia, seus avós (os seus avós nunca fizeram isso? Penas, os meus sim...). O toque é a arte de passar uma mensagem com um movimento. Sutil, leve, sem necessidade de explicação. É aquela mão na sua que sussurrou na sua alma vem comigo, juntos somos imbatíveis e fez com que vc se tornasse capaz e segura para fazer qualquer coisa. Aquela cabeça no seu colo, naquele final de tarde chuvoso, vendo qualquer coisa na tv. Afinal, ninguém ta vendo nada mesmo. É aquele emaranhar nos seus cabelos pela sua amiga, que vale mais de cem “to aqui, conte comigo para tudo...”. O beijo não deixa de ser um toque. Mais. O primeiro na hierarquia. Há dois tipos de pessoas: aquelas que não vivem sem um beijo, e aquelas que mentem. Naqueles micros segundos (ou não...) é o sopro de vida que te invade sem pedir , um lembrete em néon de que vc está viva. Já o abraço é o meu predileto pq há entrega, renuncia do outro. Naquele instante, você é do outro, e o outro é seu.

Um relacionamento, seja qual for, tem que ter este elementos. Não esses expressos necessariamente, nem numa ordem. Mas vc já viu dois amigos que nunca se abraçaram, que não se tocam, como se existisse uma parede dividindo-os? Nem eu. Um casal de namorados, que mesmo que não sejam dois chicletes, não trocam carícias? Uma relação entre pais e filhos onde um evita o outro? Este eu tb já vi: para um lado, o medo do mico, para o outro lado, o medo de não constranger, e assim, pais e filhos se tornam, cada vez mais, dois estranhos que dividem um mesmo teto.

Poderia fazer um tratado do toque aqui, mas longe desta vã pretensão, só desejo lembrar que um mísero contato, um mísero cafuné, pode trazer a tona um turbilhão de emoções, sensações, podem nos levar a lugares longínquos, te tirar do chão, te fazer voar, transcender o tempo, o espaço, a distancia. E nos levar a fazer digressões, devaneios, dos mais bobos, dos mais infantis...


...Como este.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Faltando um pedaço...


Para quem não me conhece, que fique sabendo da minha característica mais evidente: falo pra caramba. Minto. Não é pra caramba, é pra carambaaaaaaaaaa. Sou daqueles que viram a noite no msn com amigo, que discute sobre futebol com o porteiro, sobre política com o jornaleiro, culinária com o vizinho no elevador, que tem que ser lembrado pelos alunos que vc já ultrapassou 20 minutos da aula, e em vez de responder “Ok, gente , vamos embora!”, diz “Gente me dá mais 10 minutos”...

Então, seja normal que eu mesmo, mais do que qualquer um, estranhe essa sombria quietude, essa minha falta de vontade de falar, essa melancolia no meu olhar.

Nessas horas peço perdão aos meus amigos, mas me torno um chato. Nada está suficientemente bom, há um vazio que, aos berros, diz que tá faltando alguma coisa, algum pedaço. Tédio: pior do que a vontade fazer alguma coisa é a vontade de não fazer aquilo que vc precisa fazer. Em questão de segundos, parece que seus 21 Gb de música não tem nada que interesse. Acho que a jam session do silêncio da madrugada com o som de teclar farão a trilha. Hiato no word: as incontáveis idéias na cabeça confabularam e resolveram de lá não sair.

Olho para o lado e vejo um sofá vazio, uma sala escura e em silêncio. Os poucos amigos estão em duas categorias: ou estão dentro da caixinha do msn, acreditando que está tudo bem comigo (talvez uma vergonha de parecer um Jeremias e usar o msn como um muro de lamentações), ou estão longe, fisica ou emocionalmente, tão preocupados com seus problemas que esquecem que um “oi, to cheio de coisa para fazer e pra pensar, mas não esqueci de vc, tá?” num scrap, telefone, carta, telegrama, código morse, pode me fazer ganhar o dia... Esquece isso, Nelton! Vc tb age assim de vez em quando...Enfim, olho para meus irmãos de fé e percebo que eles me vêem como o mais herege de todos. O erro não é pensar diferente deles, ter uma outra idéia sobre nossa relação com Deus, tentar não emocionalizar a fé ou mesmo ter um gosto diverso da cultura cristã: o erro é você expor isso. Não com o proselitismo que é peculiar deles, mas com intenção de aceitar a opinião contrária. Mas, mesmo assim, acho melhor estar recluso aqui a ser apedrejado.

Resolvo ir a janela, vejo corpos em direções diversas:dentro de carros, em ônibus, a pé, sozinhos, abraçados, alguns estão se beijando em alguma esquina.Tento advinhar o q uma pessoa dentro desse avião, que passa em cima de mim agora, está pensando. Cada um com seus objetivos, seus medos, seus pensamentos... Subitamente me sinto sozinho. Desprotegido seria a palavra ideal. Todos na casa dos 20, com algum juízo, já se perguntou o que fez até agora, o que contribuiu, que marca deixou nesse mundo tão efêmero.E a resposta não é a das melhores. Mas,e minha fé nunca foi abalada, e clamo para que alguma coisa aconteça, que esse silêncio enlouquecedor se dissipe. Que a carência que sinto do toque do outro seja suprida de alguma outra forma.Meu desejo é desejo do Outro. Sinto falta da pele de seda, da minha mão no cabelo dela, descendo pela nuca, de seu cheiro,da sua voz doce e apaixonante no ouvido, do seu sorriso contagiante,e do seu beijo, daqueles que ainda está para se criar o adjetivo ideal para qualificá-lo...Não, ninguém em especial, pelo contrário, luto em vão para não me apaixonar pela imagem abstrata que criei de mulher ideal. O apaixonar é combustível para mim, e na falta do grande amor, que só encontrei uma vez (e perdi), me reapaixono por esse holograma. Assim, me apaixono por todas as mulheres, todas me fascinam, cada uma de uma forma. É a busca pela musa, tão citada por mim, aquela que me distrairá dos meus dilemas. E essa busca termina, provisoriamente, quando vejo apenas meus 2 pés na areia. Ali, parado,forçando para enxergar outro par ao meu lado, entendo o que é estar desprotegido, vulnerável. Não fomos feitos para sermos lobos, solitários, nômades. Não mesmo...

...

Hesito em continuar.Não quero que as pessoas me entendam pela forma mais fácil:sentindo pena. Isso aqui não é um atestado de infelicidade, apenas uma descrição breve para alguém, que só conheço o seu vulto, em algum tempo imprevisível, perceba o quão necessária é para mim. Isso mesmo, da forma mais sombria e negativa, isso é uma declaração de amor. Talvez seja para essa minha abstração, esse alguém que um dia hei de conhecer. Ou não. Muitas pessoas lerão essas palavras, talvez alguns amores, talvez elas achem, com razão, que isso seja para ela. Mas, quando for a pessoa certa e a hora certa, faço questão de mostrar. Se bem que nessa sociedade, de sobrenome efêmero, tenho minhas dúvidas...

E amanhã será um outro dia. Encontrarei pessoas, amigos, amores,e parecerei menos desprotegido. Irei conversar, rir, amar, beijar, andar na praia, tomar chuva deliberadamente, debater, falar (e muito...). Mas, mesmo assim,quando cair a noite, vou sentir a falta desse pedaço que não encontrei,sentirei a agonia da incompletude. Mas isso tem fim: do outro lado do labirinto tem alguém procurando por alguém que pode ser eu. Eu sei disso. Não sei se dá para sair do labirinto e encontrá-la ao mesmo tempo?

Enquanto isso, vou sorrindo, ou seja, como diz o poeta, mentindo a minha dor,para que ao notar que quando estou sorrindo, todo mundo irá supor que sou feliz.

Musica do Post – Sorri (Smile), Charles Chaplin (cantada em português pelo Djavan)