segunda-feira, janeiro 28, 2008

Vida de Mestrando I

Parte mais arrumada de um quarto de Mestrando]

“Manhã de sábado. Dia claro, bonito, muito calor. Apesar disso, ele ali, com o laptop no colo, sentado no sofá da sala, fichando mais um livro para seu mestrado. Aliás, ele dormiu bem tarde, e, para não perder o prazo, deixou o laptop ligado para quando acordar, bem cedo, começasse já no pique. Assim, quando só tinha ele, seu laptop, o som da televisão ligada em qualquer coisa só para fazer companhia, o telefone toca:

- Alô?

- Alô, eu poderia falar com o Nelton Araújo?

- É ele, quem deseja?

- É o orientador do mestrado dele.

O coração dele disparou: o que faria o professor ligar pra ele em pleno sábado? Pior. Que mancada não ter reconhecido a própria voz de seu mestre intelectual. Que ousadia perguntar "quem deseja?" ao seu todo poderoso.

- Nelton, liguei para a professora que vai ser sua co-orientadora. (por motivos óbvios, não irei citar nomes, mas ela é a filha da Camila Morgado e do Caco Ciocler) e ela disse que, para aceitar, quer ler seu projeto, saber se você já leu tais livros e ...

Na cabeça dele, que já pensa cem vezes mais rápido que fala (geralmente, os homens pensam apenas 4 vezes mais rápido que falam), já sabia que as merecidas férias de fevereiro tinham ido para o espaço, só (re)escrevendo o projeto que tem que enviar, mas estava feliz porque estava prestes a conseguir uma co-orientadora de peso. (não literalmente, é claro!)

- ...e ela estava na dúvida quanto a todos seus jornais estiverem disponíveis para você. Teve um orientando que também estava trabalhando com "O Jornal" (Sim, o jornal se chama "O Jornal" , criatividade zero!) e depois descobriu que não tinha todos os exemplares e ficou com as "calças na mão".

- Não, professor, eu já perguntei e tem todos os exemplares até novembro de 1937.

Não obstante tenha dito com firmeza que tinha todos os jornais, que ele, vagamente, lembra que perguntou no primeiro dia que foi na moça dos periódicos da Biblioteca Nacional, as vozes começaram a aparecer. E se ele não tivesse perguntado? Se ele tivesse confundido, afinal, ele cortejou 5 jornais até resolver ficar com "O Jornal" como a fonte do mestrado. E se ele não tiver, o que ele faz? Ele é bolsista, ele poderia perder a bolsa, e isso seria a morte a beira do abismo.

Já eram 11 da manhã, ele ainda tinha a academia (seu método de descansar mentalmente e emagrecer ao mesmo tempo), tinha uma reunião às 15, e tinha ainda muito que estudar. O mais coerente era ele segurar a ansiedade e esperar a segunda vir e, com calma, solucionar essa pequena dúvida. Mas quem disse que Nelton agüentaria? Sua cabeça eram só indagações, medos, incertezas, inseguranças... Mal terminou a conversa com o orientador, já foi escolhendo a primeira coisa que via na sua frente, que combinasse e não estivesse amassada naquele imenso almoxarifado que deveria ser interditado pela Defesa Civil que era o seu quarto. “Desorganizado sim, mal vestido, nunca!”, era o lema dele. Por fim, vestiu aquela velha bermuda da Adidas que ele comprou na Uruguaiana,aquela camisa do Manchester United, que ele comprou por um preço de oficial, mas pairava dúvidas sobre sua autenticidade, e o tênis de academia, afinal, ele já tinha planejado que iria voltar a tempo de pegar a última hora da academia aberta. Esqueceu o celular, que para ele só tinha a função de despertador e relógio, mas o tocador de músicas e o boné ele não esqueceria jamais.

A passos muito rápidos, ele chegou ao ponto de ônibus. 2 ônibus não quiseram parar, e a cabeça cheia o fez dizer a mesma frase que diz quando tudo conspira contra (mesmo que fosse exagero dele, não muito raro):

- É, hoje a lei de Murphy ta contra mim!

Enfim, pegando o ônibus, esboçou abrir o livro que precisava ler pra ontem, mas sem sucessos: a sua cabeça fazia centenas de combinações para uma possível inexistência de fontes, que iam da mais elementar troca de jornais (O Rio de Janeiro dos anos 1930 possuía quase 3 dezenas de bons jornais para serem estudados) até o lançamento do seu corpo do décimo andar de onde morava, ou mesmo a fuga para a Groelândia. Absorto em seus pensamentos, nem percebeu que já estava na Avenida Rio Branco, a dois pontos da Biblioteca Nacional. Ao soltar, fez o mesmo ritual de todos os dias: adiantado ou atrasado, lá ele ia ao jornaleiro paquerar as notícias do dia de todos os jornais, conversava com o senhor da banca, e saía com um saquinho de amendoim, duas paçocas e uma bala de caramelo. Correu o risco de todos os dias, atravessando a Rio Branco correndo e fora da faixa (ele me confessara que adorava esse tipo de esporte radical!) , e olhando sobre as escadarias,via uma Biblioteca Nacional aberta. Isso já era um grande alívio: quantas vezes tinha acordado cedo, pego o ônibus cheio (e enjoava todas as vezes), e quando chegava a encontrava fechada, com uma bela faixa de “REPOSIÇÃO SALARIAL JÁ! GREVE!”.

Passou pelas formalidades de praxe da Biblioteca até de forma mais rápida, já que não levara o laptop e não passara pelo constrangimento do segurança verificar se a declaração de entrada do laptop era verdadeira. Só estava ele e um lápis- tinha guardado o Boné, o MP4 e o livro no escaninho – Entrou na sala de periódicos com a sensação de que ele não deveria estar ali. Olhou para o relógio de parede da sala: eram 12:03. Chegou na sala de atendimento, e como sempre, foi aquele poço de simpatia.

- Pois não?

- Olá, olha eu preciso muito da sua ajuda. Eu queria apenas que você visse essa localização – SPR 00136, que era o código dos bibliotecários para o “Jornal” - e me dissesse se há todos os meses entre Novembro de 1935 a novembro de 1937. Vim do Méier só pra isso, você poderia aliviar a alma desse mestrando cristão?

A atendente, querendo rir, mas muito solicita, acena com a cabeça e vai até o depósito. Menos de 2 minutos depois

- Olha, para a sua felicidade, tem todos os jornais microfilmados até novembro de 1937, e se você quiser fazer o doutorado usando “O Jornal”, fica a vontade: tem até 1945.

- Sério? Poxa, muito obrigado!

E sem pensar, se dirigiu para fora da Biblioteca: pegou suas coisas no escaninho, entregou o cartão de identificação a segurança que o tinha feito o cadastro, que exclamou

- “Nossa, que rápido! Veio só ver se a BN estava em pé?”

- Rápido? São que horas?

- 12:06!

Sim, toda aquela insegurança para serem resolvidos em três míseros minutos! Nelton se despediu da segurança, e colocando os fones do MP4 nos ouvidos enquanto descia as escadarias da BN, sorriu pra si mesmo e disse:

- Só você mesmo, né Nelton? Você precisa se tratar!

E lá foi ele, atravessando novamente uma Rio Branco com sinal verde, e foi para a Uruguaiana fazer o que mais gostava: escolher um boné para comprar. Não comprou nenhum depois de 2 horas, e voltou pra casa, esquecendo da academia, cheio de remorso de ter perdido o precioso tempo com uma insegurança boba. Prometeu nunca mais fazer isso outra vez.

Até que num outro dia...."

2 comentários:

Priscila disse...

Eu acho que você pode estar sim, à beira da loucura. Mas estar à beira da loucura aos 24 anos é muito mais saudável do que aos 50...a hora de enlouquecer, suar e ser ridiculamente exagerado é agora. Você está indo bem.

;***

Nanda disse...

Fiquei cansada fisica e mentalmente só de ler! o.o

Como é o esquema pra poder usar a BN?


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Saudações