terça-feira, setembro 20, 2005

Momentos Poéticos III



Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.





Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.





A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar teu riso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me todas

as portas da vida.





Meu amor, nos momentos

mais escuros solta

o teu riso e se de súbito

vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua,

ri, porque o teu riso

será para as minhas mãos

como uma espada fresca.





À beira do mar, no outono,

teu riso deve erguer

sua cascata de espuma,

e na primavera, amor,

quero teu riso como

a flor que esperava,

a flor azul, a rosa

da minha pátria sonora.





Ri-te da noite,

do dia, da lua,

ri-te das ruas

tortas da ilha,

ri-te deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando meus passos vão,

quando voltam meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria.





Pablo Neruda





***














Musica para a Poesia: For Your Love - Stevie Wonder

Sentimentos?


É normal acordarmos mais felizes ou mais tristes, mais sorridentes ou mais sisudos, com vontade de mandar flores ao mundo ou mandar o mesmo mundo se explodir, mas é normal quando isso se torna uma constante? Que sentimento é este que, mesmo vendo as adversidades e os problemas cotidianos, que normalmente esgotam seu limite da paciência e da ansiedade, continua a te fazer sorrir, cantar, acordar bem disposto para tarefas rotineiras e maçantes, como escrever uma monografia, por exemplo? Que estranha calma é essa que faz parecer seu mundo andar mais lentamente, ou ,pelo menos, ter a consciência de que você pode fazer tudo com menos ansiedade, com menos pressa? Que leveza é essa que acredito poder, mesmo com algumas dezenas de quilos a mais, voar e espairecer a mente? Que tranqüilidade é essa que me faz ter confiança daquilo que sempre duvidei em 21 anos e tomar como certeza da noite pro dia? Que felicidade instantânea, que diferente paz é essa que consegue paralisar um hiperativo como eu em pleno domingo e o deixa deitado na cama, reflexivo, pensando em tudo, em nada, ou só sentindo, deixando a melodia de Johnny Mathis te guiar para onde não sei?


Já disse uma vez não gosto de usar certos rótulos em vão. Apaixonado? Enamorado? Envolvido? Admirado? Não sei, talvez nada por enquanto, talvez tudo, só sei, e tenho aprendido a cada dia mais, que é um sentimento tão bom e tão saudável que não quero pensar no futuro, pois posso perder o melhor do presente. Uma sensação de vigor, de ser amado e amar. Oras, podemos desejar nosso sucesso profissional, e pessoas renunciam seus sentimentos em prol desse sucesso, mas não há algo melhor, mais edificante, do que a certeza de que pode fazer toda a diferença a alguém, pode fazer alguém amado se sentir bem, mas, sobretudo, o contrário: de ser sentir bem, se sentir amado, de perceber de que nenhuma ilha é uma ilha, por mais que busque.


As pessoas mais machucam do que edificam, porém, certos ‘alguém’ nos engrandecem sem perceber, de forma natural e espontânea, que só podem ser comparadas a anjos. Resta a mim e a todos apenas admirar, às vezes no silêncio, e torcer que esse anjo se humanize e veja a ti também como um anjo. Você já parou para pensar se você já bem fez a alguém hoje. Qualquer um: seu namorado, seus pais, seus amigos. Uma palavra amiga, um abraço, um beijo? Coisas fáceis, simples, e que a gente não dá muito valor? São exatamente essas as que mais me encantam.É exatamente isso que busco fazer, por mais falho que seja: que se sintam tão bem quanto eu me sinto por causa deles. Da mesma forma que posso ir ao céus com um elogio despretensioso, posso cair no vale da amargura e da tristeza com uma palavra despretensiosa também. As pessoas não querem ter mais controle sobre o que dizem, sobre o grande tesouro e a grande arma que ganharam geneticamente: o poder de usar as palavras.Por isso, são tão inocentes quanto culpadas quando elevam ou destroem alguém.


Mas o mundo pode cair, o Brasil se tornar uma ditadura comunista, o Flamengo descer à segunda divisão, que eu to aqui feliz e em paz. Não sei até quanto tempo, sentimentos são como nuvens: se dissolvem na mesma velocidade que aparecem e cobrindo a todos, nos envolvem numa atmosfera impossível de sair por recursos humanos. Mas o que vale é o agora, então sinta o presente: não sei até essa história vai embora alguns flashes resolvam, de quando em vez, passar pela minha mente, devaneios típicos de um ansioso em recuperação, contudo sei que me faz bem, muito bem. Gostaria de gritar ao mundo seu nome, mas o bom senso e a educação me aconselham a berrar internamente, sem orgulhos, sem medo nem ansiedades. Eu to me vendo diferente, mais leve, menos ansioso, mais...tantas coisas que acredito não ter palavras para descrever.


Afinal, o que é isso? O que eu tomei?







***





Musica do Post: Isn't it the Romantic- Johnny Mathis







quinta-feira, setembro 01, 2005

Mas eu me mordo de Ciumes...





“Por favor, não mande nenhum recadinho, nenhum scrap, nenhum depoimento no meu orkut, por favor! Por favor!”




Foi assim que uma aluna, em pranto convulsivo, reagia a minha descoberta de seu orkut. O motivo? O namorado sempre sente ciúmes, e isso ocasiona brigas que levam uma menina a chorar só ao lembrar que poderia haver outra.Sinceramente, aquilo me assustou e pensei em dizer algumas coisas, por vezes desconexas, sobre o ciúme.





Ciúme: alguns dizem que é totalmente ruim, outros, dizem que tem seus benefícios.Como tudo na vida, nada é tão mal ou tão bom, portanto, o seu equilíbrio é fundamental, e digamos, até saudável num relacionamento. O problema está quando este sentimento tão avassalador se transforma em obsessão: a cada dia mais, há um retorno, ou desvelamento, do sentimento de posse das pessoas para com quem elas dizem que ‘amam’, como se estas fossem coisas, completamente sem vida social, sem rede amigos. Casais de namorados são os mais atingidos por essa onda: é natural, e até compreensível, que haja uma espécie de autoproteção inicial: ficam mais pertos, não saem com tanta freqüência com os amigos, se devotam aos seus agora amados. Mas quando passa o tempo do deslumbre, continuar a esquecer os amigos porque o(a) namorado(a) assim exige,porque tem ciúmes, é ridículo. Ninguém é posse de ninguém, principalmente porque as pessoas tenderam, gradativamente, a esquecer a real intenção do namoro, que é o de se conhecerem, e não de agir como se fossem casados, e, no caso, mal-casados, e interferirem na vida outro e na sua vida social.






Isso nos leva a pensar em razões, dentre várias, do ciúme assombrar as nossas mentes (sim, a minha também é afetada, como veremos mais abaixo).A primeira é a insegurança:essa é clássica, todo mundo, nas rodas de conversa da vida, diz que é insegurança o principal motivo dos ciúmes. E quem sou eu para discordar? Concordo, pois as pessoas cada dia mais se sentem menos capacitadas a acreditar em si mesmas, nas suas qualidades, virtudes que possam levar o seu parceiro(a) a admira-lo a ponto de tê-lo como o amado, embora isso não exclua ao mesmo tempo, de ter amigos ao redor.E isso produz, imediatamente, um falta de confiança no outro. Já sei que uma das principais dificuldades da minha futura amada será o de entender o meu relacionamento com as minhas amigas, que são o grupo majoritário do meu ciclo de amizade. E, atrelado a insegurança em vertiginoso crescimento, há uma segunda razão, para mim, que também é o causador do ciúmes: ao caráter descartável dos relacionamentos, cada dia mais efêmeros, cada dia menos profundos, cada dia menos estáveis. A onda do ficar entrou e viciou, como um bom chocolate, as pessoas. Eu já fui mais radical quanto a isso, hoje em dia, entendo as vontades das pessoas sem julgá-las, contudo, por vezes há o exagero: hoje o n°1, amanhã o n° 2, no outro dia, o n°592, depois de volta ao n°1 e se acha feliz por isso. Isso gera dentro da pessoa a falta de uma estabilidade, e que, quando se namora, é um produtor de traições a torto e a direita. Que contradição: enquanto o ciúme aumenta, a descarte de relacionamentos também recrudesce. Não há profundidade porque não há confiança no outro. Mesmo que isso visto pelos outro como bom, não consigo me imaginar num relacionamento superficial: estando em um relacionamento, o que não é tão fácil assim, entro no meu submarino do amor, rumo ao mais profundo, ao mais denso, de preferência, sem previsão de volta. Apesar de doer deveras quando o comando aqui de cima manda o submarino emergir, é uma sensação indescritível, sensação de amar incondicionalmente, mesmo sem retorno, amar altruistamente.





Há outros tipos de ciúmes, fora do campo amoroso. O ciúme do amigo é algo tão presente quanto velado entre nós, talvez porque neste se revele a real insegurança que há em nós. Falo por mim agora: não tenho tanto ciúmes quando estou com a pessoa amada, mesmo porque sempre fica bem claro que, se ela está comigo, é por que alguma coisa eu posso doar, e quando não há mais amor, seja a definição desse termo tão polissêmico, fica claro que não tem mais porque continuar. Entretanto, com meus amigos, pode me chamar de Sr.Ciúmes: inseguro como eu sou, sempre acredito que fiz alguma coisa de errado para um amigo não puxar assunto, convidar para uma festa, ou mesmo me contar sobre uma nova amizade. Ah! As amizades deles, se eu pudesse, devoraria todos, e deixava só com um amigo: eu. Também é um misto com carência: pessoas que se isolam por outras questões que não a sua vontade, sentem necessidade do toque, mesmo que virtual: um telefonema, um cartão, um scrap, uma carta.(Tenho saudades das minhas cartas, gosto de enviar, mas isso fica para uma outra hora). Embora guardadas as devidas proporções, estou tão errado quanto o namorado da minha aluna, ao tentar, num esforço egocêntrico, ter a mim como o único amigo dos meus amigos. Cada dia mais estamos mais egoístas, mais voltado para as nossas necessidades, nossos desejos, nossas vontades, esquecendo dos outros. Tento, a cada dia, e com esmero não ser mais assim, e to melhorando, o que prova que há cura para o ciúme, mesmo embora sofra ainda com o desinteresse de amigos que tanto querem bem, que pareciam ser daqueles amigos, quase irmãos, e inexplicavelmente gelam o seu comportamento, causando profundos furos numa alma já insegura, que doem mais do que qualquer rompimento de relacionamento amoroso.






Mas um pouco de ciúme, beirando o ‘charminho’ é vital para um relacionamento: demonstra interesse, preocupação. Mas mesmo assim, tem que se tomar cuidado com as falsas generalizações: nem todo homem que é generoso, amigo, conselheiro, que dá presentes fora do período festivo é alguém que tenha algum interesse pessoal. Falo por mim, novamente:gosto de presentear, mandar cartões, telefonar não, sou muito tímido para isso e invento que não gosto de telefone, enviar músicas, scraps, sms, etc. E não vejo mal nisso, mesmo não faça muito isso com as amigas que namoram-casadas-noivas-ficantes-enroladas, pois declarações de amor não se resumem a eu te amo, e não se prendem a uma pessoa só, de outro sexo: amigos são amantes, eternos doadores e renunciadores de si em prol do outro.





Uma fala totalmente parcial: não percam sua individualidade por causa de outra pessoa, falo isso de experiência própria: amores passam, amizades permanecem, mas quando esquecidas tentar reconquista-las são tão difíceis. Olhe ao seu redor e veja se realmente ama parceiro(a) ou esta apenas acomodada a um relacionamento dito estável, seja pelo laço de tempo ou coisa parecida.Isso é a pior das coisas: a falta de amor. Isso tem conseqüência, que posso falar, traumáticas.






Amem, vivam, beijem, curtam, mas não se isolem, não prometam a mim, mas a vocês mesmos.







***
Musica do Post: Trapped In the Closet - R. Kelly (Um suspense numa música em 5 partes, fenomenal)



quarta-feira, agosto 17, 2005

Ri é o melhor remédio


"Me sinto preparado para assumir a presidência da República"


(Severino Cavalcanti)





***





Musica do dia: "Don't Worry, be Happy" (Bob McFerrin)

quinta-feira, agosto 11, 2005

Momentos Poéticos III


A Matemática, quando bem empregada, pode ser uma fonte de inspiração maravilhosa. Como historiador preciso admitir isso: a matemática é fascinante.


Mais fascinante é essa canção do mestre dos mestres, Tom Jobim.






Aula de Matemática


Pra que dividir sem raciocinar


Na vida é sempre bom multiplicar


E por A mais B


Eu quero demonstrar


Que gosto imensamente de você



Por uma fração infinitesimal,


Você criou um caso de cálculo integral


E para resolver este problema


Eu tenho um teorema banal


Quando dois meios se encontram desaparece a fração


E se achamos a unidade


Está resolvida a questão


Prá finalizar, vamos recordar


Que menos por menos dá mais amor


Se vão as paralelas


Ao infinito se encontrar


Por que demoram tanto os corações a se integrar?


Se infinitamente, incomensuravelmente,


Eu estou perdidamente apaixonado por você.







Musica do Post: Aula de Matemática - Tom Jobim (Óbvio, não?)

quinta-feira, agosto 04, 2005

Apologia à Indignação


Frase da semana: “Eu fico fascinada, parece que estou assistindo ao Roque Santeiro” (Lucia Guimarães, acerca da CPI do sei-lá-qual-nome-tem-aquilo)


No último dia 2 de agosto, o Brasil parou. E dessa vez não foi por causa de alguma final esportiva. Pelo contrário, o país se aglomerou em bares, restaurantes ou mesmo em lojas de eletrodomésticos para assistir a uma acareação entre o ex-ministro da Casa Civil, o agora deputado José Dirceu ,e deputado Roberto Jefferson. Entre as mútuas acusações e defesas, o óbvio se sabe: o que queríamos é que não houvesse chegado a tal ponto. Pior só o fato de concluirmos que falta a sociedade, sobretudo a nova geração, consciência política, consciência de não se conformar com o rumo que a “democracia” brasileira esta seguindo. Observamos também, cada dia mais “público e notório” (tomando uma expressão do Dirceu emprestado), o desleixo e a descredibilidade que a disciplina História tem tomado as mentes de nossa sociedade. Não são todos que têm essa falta de zelo. Não que todos aqueles que não são dessa ‘nova’ geração tivessem a consciência da importância de tal disciplina.Nada de generalização! Mas trabalhemos com o fato: poucos são aqueles que se interessam pela história e enchem de importância com a mesmo afinco que fazem com as Matemáticas, por exemplo (nada contra, são tão necessárias quanto a História). Mesmo dentro do núcleo estudantil que se importa com esta disciplina, ainda temos que dividir entre o grupo que se importa pelo fato de saber da necessidade de ter um pensamento crítico, e aqueles que só se interessam pelo pragmatismo do vestibular.


Sim, o pragmatismo e o conformismo são as tônicas das buscas de nossos jovens: Economizar e poupar energia sempre, esse é o lema. Dentro de todas as modas, de todas as tecnologias, procura-se o conforto, o fácil, o agradável, o prazeroso, o rápido e o certo.E pagando para isso um alto preço: o da liberdade de pensamento. Ficamos presos àquilo que os outros pensam, o que a mídia nos impõe a pensar, e por extensão, ao que certos grupos dominantes querem que pensemos e que não pensemos. Nos indignamos apenas por aquilo que a media quer que nos indignemos, nos alegramos apenas por aquilo que eles querem que nos alegremos. Criticamos ou elogiamos aqueles que alguma personalidade (detentora de uma arma, por vezes mal empregada: a formação de opinião) outrora criticou e/ou elogiou. Os mensalões da vida republicana existem há tempos, e agora a opinião pública se revolta? Antes tarde do que nunca, diriam alguns, e eu concordo, mas já parou para pensar que esse tsunami foi formado pela imprensa? Que antes do interesses democráticos, há o interesse privado pelo furo, pelas manchetes, pela audiência.Não que eu não goste de conforto e prazer, muito pelo contrário, mas aspiro sempre a algo maior: a minha liberdade. Temos um quadro favorável, numa visão macroscópica, em relação aos jovens da época da ditadura, que não viam nos jornais nada que o governo pudesse considerar como negativo para o país(explicitamente, é claro, afinal, criatividade sempre foi o forte do brasileiro): desde o óbvio balanço político até uma epidemia de meningite, e ainda sim vemos pessoas que quando vêem algo relativo a política na televisão, logo mudam de canal, ou para algum programa de variedades ou esportivo, quando não se trancam mentalmente nos Orkut ou menssenger da vida e esquecem que há vida exterior. Estamos formando jovens claustrofóbicos,que, ao contrário do que se imaginam, não pensam cada vez mais rápido, e sim, ao pensar apenas as idéias-chaves , o comum, o óbvio, não pensam, pelo menos criticamente.


E o estudo da História, que em tese deveria romper com esse quadro de comodidade se torna a matéria do “Pra que se estuda isso?” “Para que estudar o passado?”. Em parte isso se explica pela falta de crítica que temos, no entanto , o fato de termos professores que não ajudam em nadaa criarmos esse hábito de pensar é tão ou mais importante. Não estamos pedindo revolucionários, marxistas, anarquistas, comunistas, ou qualquer “istas”. Estamos pedindo graduandos pensantes, críticos, que saibam que a faculdade de História não serve só para ter um emprego ou , em menor escala, ter um status quo de intelectual.. Que tenham a visão de que são tão formadores de opinião quanto os intelectuais “produzidos” pela imprensa, e que saibam que,se não for feito alguma coisa já com esses jovens, chegará o dia no qual seremos meros reprodutores, sem influência alguma. O estudo da História é o espaço que abrimos para o processo do pensamento crítico, de começar a questionar, duvidar, se inconformar. E isso é doloroso e lento. E muito dos nossos graduandos de hoje não esta preparado para essa honra. E muita gente não está interessada que tenhamos tal objetivo enquanto educadores.



Enfim, longe de querer isso, é melhor começarmos dar valor ao que temos hoje, a nossa liberdade de pensamento, a de não sermos obrigados a nos conformarmos com essa imposição de cultura, que dá a falsa idéia de que somos seres pensantes, antes que a gente tenha que buscar, nas ruas, de novo, essa graça. E que possamos entender, dentre as várias e eruditas (algumas bastantes sacais) definições, de que a história nada mais é do que “a ponte que liga o seu mundo ao mundo”.



Afinal, ninguém é uma ilha.


***

Musica deste post: “Strangers in the night”Frank Sinatra

(Convenhamos:antes essa do que Nervos de Aço interpretada por Roberto Jefferson, não?)



Ps do autor: esse post era até o primeiro parágrafo um enunciado de uma prova para uma turma de pré-vestibular. Quando dei por mim estava na segunda página de divagações, logo eu não cometeria o crime a minha inspiração, tão apagada nos últimos dias, de parar.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Sociedade dos Poetas Mortos


"A gente não faz amigos, reconhece-os."(Vinicius de Moraes)


Tem certas coisas que me fazem sentir muito bem: algumas bem extravagantes, como tocar contrabaixo no escuro, comer sorvete no inverno antártico, e outras tão comuns, como um beijo apaixonado, um abraço sincero, ou mesmo perceber que plantei bons frutos. São gestos simples, discretos, mas que me deixam profundamente feliz, por vezes emocionado.


Quando decidi, ou melhor, quando percebi que meu dom era estar numa sala de aula, ensinando e aprendendo com meus alunos, sabia que não seria fácil. Primeiro, porque eu já tinha noção do desprezo moral e econômico que os professores no Brasil sofrem. Mas isso nunca foi um problema para mim, nunca quis ser rico. Problema mesmo eram minhas idéias um tanto quanto subversivas a respeito do "ser" professor.


Por que autoridade? Por que porta-voz da verdade incontestável? Por que apenas professor, fechando as portas para novas amizades? Estas e outras perguntas me incomodavam desde minha tenra adolescência, principalmente quando uma professora de Química que no seu primeiro dia de aula, usando uma calça Gang, incomodada com os óbvios sussurros dos garotos com os níveis de testosterona acima da média saudável, manda o recado: "não vim para ser amiguinha de vocês!". Pensei que isso fosse coisa de alguém que tem um marido que dormiu de calça jeans no dia anterior, mas quando entrei na faculdade e vi como alguns colegas pensam, percebi que era mais grave do que imaginava. A mística da verdade inabalável, achar que só pelo fato de ter uma faculdade de uma matéria específica sabe mais do que qualquer aluno. Santa Ignorância: no pouco tempo, menos de 3 anos, que leciono, tive o prazer de conhecer pessoas que com sua experiência de vida, ou mesmo com seus lazeres conhecem mais sobre um determinado tema do que muito professor. A esses alunos tenho uma eterna dívida, porque, mesmo sem eles perceberem, eu aprendi muito com eles. Isso remete a questão da autoridade: tudo bem, eu entendo que é necessário, algumas vezes, ser mais rígido em algumas posições, mas "autoridade" não é um termo um tanto quanto autoritário? Eu prefiro me considerar uma espécie de irmão mais velho: não tem a autoridade do pai, contudo os alunos, irmãos mais novos, lhe dão ouvidos, por mais que discordem. Afinal, o aluno não precisa concordar com tudo que você diz, principalmente em História, onde você dá ferramentas para ele pensar.


Mas nada me incomoda tanto quanto a questão da impessoalidade do professor. Alguns chamam isso de ética profissional, eu chamo isso de elitismo idiota. Eu, antes de ser professor, sou humano, carne, possuo desejos, tenho afinidades, interesses, contradições, trocando em miúdos, não sou uma ilha: porque cargas d'água eu tenho que me afastar de pessoas que podem ter os mesmos interesses que eu, que podem ser amizades em potencial? A Idade, maturidade? Ora, Vinicius de Moraes estava certíssimo quando disse que "A gente não faz amigos, reconhece-os.". Eu tenho amizades com alunos, e me orgulho disso, eu sei não misturar as estações, sei aonde vão os limites da amizade e do profissionalismo, e eles também sabem disso. Faço questão de colocar meu MSN, meu orkut, meu blog no quadro tanto no pré-vestibular, quanto na 5ª serie onde sou estagiário. A melhor coisa que tem é estar no meio dos alunos no intervalo: você ri se diverte, de si e dos outros, sabe das últimas. A sala das professoras é tão triste e melancólica perto deste.



Quando tive essas idéias, um pouco, confesso, exóticas de como queria ser na sala de aula, era apenas um mero professor de uma Escolinha Bíblica Infantil, o tio da galera dos Juniores, entre 9 a 12 anos. Trabalhava assim com eles, sendo amigo deles, sendo acessível, mas nunca pensei que eu pudesse causar impacto na vida deles. As minhas idéias amadureceram, mas na sua essência continuaram as mesmas. Estes alunos cresceram, perdi um pouco de contato, nem imaginava que eles me reconhecessem na rua...


...quando numa bela noite de sábado, voltando à igreja onde fui professor , vejo minha melhor aluna da época, Ana Carolina Santos, sentada,conversando, como uma natural adolescente. Lembro-me dela pequena, com seus 10, 12 anos. Imaginei que ela fosse me cumprimentar, nada demais, principalmente na soberba juvenil, onde tudo é "Mico". Mas para a minha emoção e surpresa, eu vejo uma bela moça descendo, chorando, trêmula, me abraçando tão forte e tão carregada de alegria, que não tive outra escolha do que me emocionar junto com ela. Neste instante de silencio na metrópole, consigo relembrar perfeitamente daquele momento, onde ela só conseguia dizer: "Por que você sumiu? Você faz falta!". Desfruto desse momento, tendo a noção de um sentimento agradável, pois a sensação de nós nos abraçando ainda é viva e latente em meu corpo. Mais do que uma sensação boa, ela foi a concretização de que minhas idéias, que não tenho a intenção de que seja um manual pedagógico para ninguém, estão no caminho certo, que consigo ver bons frutos no que estou plantando. Não sou o dono da verdade, nem sou um gênio, meu único desejo é ver professores um pouco mais humanos, mais sensíveis, e não alguém que, narcíscamente, se auto-intitula "O professor”.



São de sensações assim que preciso na minha vida.


Só falta o sorvete.


***



Musica do Mês: Diana Krall - The Took Of Love

segunda-feira, julho 11, 2005

Musas


"Porque a vida de nada vale sem a Musa." (Rodrigo Farias)
Elas são espécies raras: aparecem tão espontaneamente que não conseguimos nos desvencilhar de seus encantos. Rápidas como as águias invadem nossas mentes, corpos, almas e tomam conta dos nossos pensamentos, dos mais científicos aos meros devaneios.Estão para descobrir alguém, algum entorpecente, alguma coisa que tenha tanto impacto, penetre tão profundamente em nós, do que as musas.

Não obstante, sua presença não é, de forma alguma, perniciosa: possuidoras do dom do estro, nos inspiram a ponto de nós mesmos ficarmos surpresos com nossos feitos: de Leonardo Da Vinci, com sua Monalisa , até este mero escritor, com seus textos. Acordar e se lembrar, ou ser lembrado pela contração do coração, de sua musa, torna nossos dias mais colorido. Os dias ruins, que existem para todos, não conseguem levar-nos a completa tristeza, uma vez que ao pensar em nossas musas, o sorriso redentor aparece no canto da boca.

Todos tiveram, têm, ou terão suas musas. Essas nove deusas que presidiam às ciências e às artes na mitologia tem várias facetas: ao contrário do consenso geral, musas não são necessariamente seres do sexo oposto (ou do mesmo), ou seja, as responsáveis pelos platonismos nossos de cada dia. Elas podem ser a nossa carreira, a nossa casa, nossos livros, nossos amigos, ou mesmo nós mesmos. Mas quando tratamos exclusivamente da Suposta divindade ou gênio que inspira a poesia, temos que evitar o mesmo erro que cometeu Ícaro .


Musas são sonhos, bons sonhos, seres poetizados por nós mesmos, por isso a falta de imunidade a elas, só que podem se espalhar como poeira quando queremos toca-las. Sempre estamos em busca da Musa ideal. Só não podemos, como Ícaro, perder nossas asas quando tentamos alcançar o inalcançável . E aí está um problema, pois sonhos também são motivadores de nossas vidas, variando de proporção, todos corremos atrás de nossos sonhos, mas como saber se um sonho é alcançável ou não? Não há receita para isso, e isso é tão atormentador quanto fascinante: nenhuma musa é igual a outra, são complexas, encontram-se no limite do real e do imaginário, podem ser tocadas como podem se dissipar em nossas mãos. E se não temos esta noção corremos o risco de esquecermos que a realidade, por mais nublada que seja, é,mesmo assim, mais acessível.Um encontro pessoal com sua musa pode ser um sonho, o tempo pode parar, as pessoas em volta podem se tornar, num estalo,tão desinteressantes quanto desnecessárias. Uma música inebriante pode invadir o seu ser, e você pode sentir dentro de si uma atmosfera de alegria que a última coisa que quer é sair dali. Mas quando se vê tentado a encostar na sua suave e tenra pele, quando você se vê tentado a nunca mais deixa-la escapar da sua vista, cuidado...

... você pode cair em si, percebendo que está a contemplar as estrelas, numa estrada noturna, de volta para casa.


De mãos vazias.




***


Musica das Férias: Luiza – Tom Jobim



domingo, julho 10, 2005

Momentos poéticos II



Dando continuidade a série, um poema que conheci em Patch Adams e é o meu predileto:




Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
(Pablo Nerruda)
***
Musica do Dia: Forever By Your side- The Manhatans

terça-feira, junho 21, 2005

Platonismos

Dias nublados, com uma minúscula garoa, tendendo a esfriar (embora eu já esteja vestido como se estivesse no pólo norte) sempre foram os meus prediletos. E hoje não deve ficar por menos, pois além da inspiração oriunda da natureza, acordei hoje pensativo, reflexivo, cheio de dúvidas, uma angústia amalgamada com uma ansiedade que só numa coisa pensei: preciso escrever.

Platão: esse sábio conseguiu definir uma categoria de amor na qual eu, constantemente, me enquadrei, enquadro e me enquadrarei ao longo da minha vida. É uma sensação totalmente diferente de quem já amou uma vez na vida: é sublime, inebriante, atormentadora, confusa, depressiva, regojizante entre outras característica que daria um volumoso livro.

Talvez seja a tentativa de se encontrar a mulher perfeita, ou então fugir da realidade da solidão, não importa. Importa é o fato desta acontecer espontaneamente ou racionalizada, perto mas tão longe, ou mesmo, longe mas com a impressão de ser tão perto a ponto de pensar em acariciar sua pele majestosa, ainda que tal pele majestosa esteja a algumas centenas de quilômetros longe de ti. É um sentimento que seja dos mais difíceis de ser romper: é mais difícil romper consigo mesmo do que com o outro, e neste processo platônico, se quiseres despedaçar tão ambíguo sentimento, terás que despedaçar a ti mesmo em primeiro lugar.

Sobre amores platônicos há uma considerável literatura contando passo a passo o que acontece com as pessoas vítimas desse bem, como se tudo nesse mundo pudesse ser reduzido a receitas de bolo. E como tais receitas você encontra a torto e a direito por aí, prefiro dar a(s) minha(s) experiências, que nunca tiveram finais felizes como os amores platônicos hollywoodianos . A minha adolescência entrecruzou-se, indelevelmente, com amores platônicos, de modo tão rápido e tão inexplicável que quando vi, não conseguia me imaginar mais com outra pessoa a não ser ella. Fui aos 4 cantos da terra para buscar sua amizade, criei e recriei o céu por ella, meu coração vivia em coma: e só acordava quando meus olhos a viam, ou escutavam a sua doce voz. O tempo não foi meu inimigo, pelo contrário, dois anos são 730 dias pensando incessantemente nella, o que é, no mínimo razoável. Bem, tive que me contentar com sua grande amizade, o que para mim, naquele período era como se fosse um prêmio de consolação. Pensei: “não vou cair nessa armadilha novamente!”. Enganei-me a mim, mas não ao meu coração, que é padece do mal da surdez. Mas dessa vez seria mais maduro, mais honesto comigo, menos altruísta. Foi quando percebi que fazia as mesmas coisas, que no amor platônico, não há maturidade ou imaturidade, há desapego a sua pessoa em prol de outra. Sofri novamente...

Passaram-se quase 5 anos, pensei que tinha superado essa fase juvenil de minha vida, mas como o andar na bicicleta, uma vez que você aprende, não esquece nunca e sempre volta ao ponto inicial. Pior, ou melhor, da mesma forma do que aos seus 16 anos. Mas há suas diferenças: se outrora fora espontâneo, dessa vez foi escolhido, pensado, racionalizado. Mas novamente sofri, da mesma que me alegrei dezenas de vezes. É processo viciante, a adrenalina no corpo é arrebatadora.

Mas nem tudo é lamento. Em todas, eu aprendi muito mais do que perdi. Não entrarei em pormenores, mas praticamente tudo que eu sou hoje é graças ao meu platonismo: desde dos livros que leio, do meu gosto musical, o que é engraçado, pois eu sou diferente de quase toda minha família (graças a Deus!), até, e acredite-se se quiser, a minha paixão pela docência, a escolha da minha profissão.Tão entranhado nesse universo feminino que adquiri um conhecimento, pequeno, reconheço, deste tal mundo tão fascinante. Mas, sobretudo, aprendi a fazer alguém feliz, não sei se consegui algum dia, mas eu ainda mostrarei.

Mas é difícil eu pensar como o cantor, em acreditar só vou gostar de quem gosta de mim .

Talvez eu goste de ser, ou estar assim. Talvez porque acredite que possa acontecer para mim o que aconteceu com Simplício Gomes e a Dudu, do conto de Artur Azevedo. Termino esse passeio na minha mente pedindo para quem esta a ler-me , que se delicie com esse conto, e imagine quão doce final eu quero uma vez na minha vida.

Mesmo em sonhos.