domingo, dezembro 07, 2008

Saudades...

No meio da praia, no meio da tarde, meio do nada, bateu aquela angústia, aquela sensação de incompletude. Vi-me sozinho, desamparado ao lado daqueles milhares de pessoas sorridentes que se amavam ao sol escaldante, beijando-se, trocando carícias, ou mesmo abraçada caminhando na beira da praia. Tentei fazer do mar meu companheiro e fiquei o contemplando revolto, agitado, como se algo ou alguém o tivesse irritado seriamente. Mas de nada adiantou: sem perceber, já estava com os olhos voltados de novo para aquele casal que caminhava despretensiosamente pela areia, e o estranho e indecifrável sentimento da saudade começava a dominar toda minha alma. Indecifrável porque “saudade” não é só “sentir falta de algo ou de alguém”, ele vai além: tem um mecanismo mais complexo que eu ainda não consegui compreender. Saudade está ligado incondicionalmente a memória, e assim, uma série de cenas, imagens surgiam na minha mente.


Tomado pela agonia da saudade, lembrei-me do nosso passeio a praia, quando nós éramos o casal despretensioso que flutuava pela beira do mar. Lembrei-me dos risos de nossas piadas, que eram só nossas. De nossas conversas, ora sobre o tudo, ora sobre o nada, que as tornavam verdadeiramente um diálogo, não uma competição entre dois egos infantis. Lembrei-me das provocações ao pé do ouvido que te deixavam tão ruborizada como extasiada. Até dos momentos em silêncio, que não nos incomodava, pois a presença um do outro transcendia as palavras, eu senti falta. Junto com as pegadas na areia, lançávamos nossos planos, sonhos, desejos. Não era mais “o meu” ou “o seu”, era “o nosso”, em que tudo se encaixava harmonicamente, assim como nossos beijos apaixonados ,e eu me lembrava de cada um desses com um sentimento tão carinhoso, como se o desejasse de volta. Mas da mesma que o mar apagava sistematicamente as pegadas na areia, tudo que tínhamos em comum, inclusive um ao outro, foram desaparecendo lentamente.


Será?


Dei-me por mim e tentava, em vão, me distrair. Mudar o foco, talvez. Usemos um argumento científico: “tendemos a olhar para o passado mais do que ele realmente foi”. Eu sei, é verdade, mas quem disse que meu coração se acalma com argumentos cientificamente aceitáveis? Ele só ama e sente falta! E, de repente tudo me fazia lembrar nós dois naquele passeio: a playlist em meu mp4, o tom vermelho da minha camisa, o cheiro do meu perfume, que era o que você mais gostava... Tudo, absolutamente tudo, me lembrava aquele momento tão reluzente, onde, mesmo de improviso, tornamos o litoral escravo de nosso amor. E todos os artifícios para tentar controlar esses pensamentos eram em vão e me trazia você mais próximo de mim. E no martírio da memória imensa, seja auditiva, visual ou olfativa, a saudade começou a apertar e a doer.


Dói saber que tua ausência é o que me basta, e que não me foi dada uma segunda escolha. Dói saber que resta apenas a mim o esforço grandioso de agüentar essa falta, esse sentimento de incompletude, essa outra parte de mim que te dei e nunca tive de volta. E dói ainda mais saber que me faltam forças ou coragem, pois a imagem que de ti em vão persigo, consciente ou inconsciente, é minha única companheira. Dói saber que provavelmente este texto nunca lhe será lido e que, dentre em pouco, se tornarão palavras jogadas ao vento. Mas o que dói mesmo é ver aquele lindo casal caminhando pela praia e perceber que sinto saudade de algo que nunca aconteceu, pois nunca fomos à praia. Posso sentir saudade daquilo que nunca vivi?


Sim, posso...


Porque, na verdade, a saudade maior não é o que éramos, mas sim o que poderíamos ter sido.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Irônico, eu?

Tem certas coisas que não conseguimos controlar.

Simplesmente assim: você se esforça, controla-se, mas, quando menos se espera, ta lá você fazendo de novo. Podemos comparar com o vício: sejam coisas destrutivas, como a bebida e os entorpecentes, sejam em coisas cotidianas, como dar menos “pinta” de que esta gostando de alguém, ou não atacar a geladeira de madrugada, seja não entrar no Orkut ou dar uma “espiadinha” em que está on-line no MSN e atrasar seus estudos, lá estamos nós descumprindo nosso desejo de nos segurar.

Eu percebi a algum tempo que se tem uma coisa que eu não consigo me controlar, é com minha ironia e meu sarcasmo. (Não, ironia e sarcasmo não são a mesma coisa, mas não vou me deter a detalhes aqui. Qualquer coisa procura no Google). Confesso que por algum tempo, tentei evitar, busquei ser alguém simples, normal, que não tem um comentário “maldoso” ou “picante” para cada frase que escutasse.

Mas não deu.

Não acredito em natureza, em coisas inatas ao meu ser (e para quem acredita nisso, só um lembrete: cada um no seu quadrado, ta?), mas não tenho outro argumento a dizer que não que o sarcasmo e a ironia faz parte de mim. Não sou eu se não for irônico. Mais. Não sou eu se não for politicamente incorreto. Talvez venha das minhas influências infantis, basicamente Pernalonga e Pica-Pau (a versão comportada, o outro é muito sem noção, é chato), a predileção pelos personagens irônicos. São os mais charmosos, são os mais engaçados para mim, são, em suma, os mais interessantes, os mais inspiradores. Poderia aqui fazer uma lista gigantesca dos personagens irônicos que me inspiram, mas só cito um, o maioral, o preferido: Chandler Bing. Talvez, se você nunca viu Friends (e por isso é uma pessoa menos feliz, fato!), não tenha a mínima idéia do que eu esteja falando, mas ele é o cara! Não perde uma piada, sabe a hora exata e o comentário exato para qualquer assunto, nem que com isso ele acabe por constranger as pessoas ou ser politicamente incorreto. E embora ele seja uma simples ficção, há algo nele que me aproxima ainda mais: seu espírito irônico é uma espécie de autodefesa, ou melhor, a única forma de se comunicar com o mundo.

Sim, pois para mim a ironia não é uma escolha totalmente consciente. Na maioria das vezes, não tenho outra forma de como falar sem soltar uma ironia. Isso não faz de mim um palhaço, daqueles que precisam ser espalhafatoso para fazer graça. É claro que uma coisa leva a outra, mas não sou sarcástico para ser engraçado, sou sarcástico simplesmente porque não sei outra coisa.

E hoje até gosto de ser irônico, faz parte do meu hipotético “carisma”, muito embora ainda cause problemas. O primeiro, mais simples, é que as pessoas confundem meus atos irônicos com atos depreciativos. Isso leva ao segundo problema: não se compreendido. Por não ser compreendido entende-se não ter o humor igual ao da maioria das pessoas. Gosto do humor inteligente, rápido, rasteiro, que precise ter raciocínio muito rápido para dar tempo de achar graça. Não gosto de nada muito escrachado, que tenha que apelar para o pastelão para fazer rir, e, por isso, gosto cada dia menos do humor feito no Brasil. Por ter vivido longos anos em frente à TV, vendo seriados, gosto do humor americano, que, na grande parte das vezes, ninguém entende. E isso repercute na minha forma de fazer graça (aí sim, a ironia é deliberada para o humor): quando eu quero ser engraçado, ou mesmo espirituoso ninguém entende. Ou pior, entende errado.

Cada dia me sinto mais um estranho num grande ninho chamado universo. E para evitar maiores constrangimentos, eu me seguro para evitar um comentário dentro da igreja ou da escola, scrap, um sms para a amiga que ta namorando (mesmo que definhando), um email, ou mesmo uma resposta para uma banca de qualificação de Mestrado de forma irônica, ou com altas doses de humor negro (ou afro-descendente, como queiram) ou mesmo algo politicamente incorreto. Mas quando me vejo já to lá eu fazendo de novo.

Eu disse que não consigo me controlar.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Finitude - A Repercussão

"Com tantos problemas, repouso em ti, ó música, e minha alma se regenera" (Poesia que inspirou a foto)

Mentira: so queria mostrar meu novo chapéu e meu Pierrot* .______________//___________

Aliás, achei uma chapelaria na Marechal Floriano que é agora é meu novo point.
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Enfim, respondendo a algumas indagações depois do meu texto (obrigado a tds q responderam, não é pra amaciar o ego, é pra melhorar a redação msm que peço que vcs comentem)

1. Você terminou com sua namorada?

Nelton: Não, esse texto estava engasgado já faz um tempo. Estamos mt bem, diga-se de passagem. Um dia posto fotos do nosso mais novo programa de domingo de tarde: "A Cozinha maluca de Nelton e Nana".

2. Nelton, vc é gay?

N. Não, não sou, nada contra, mas não sou.

3. Nelton, pq vc escreve uma cronica com linguagem de msn?

N. Pq escrevo minhas crônicas na linguagem daqueles que estão lendo. Não estou escrevendo um texto acadêmico, que tenho que saber as 45 regras de portugues para colocar a virgula...ah, vc entendeu a mensagem? Então, me dá um cadinho de sossego, por favor... se ficar falando mt vou começar a falar assim. Ou ainda pior, eu vou estar começando a estar falando em gerundês de telemarketing, que tal?

4. Nelton, vc é homossexual?

N. Eu já disse que não, né?

5. O texto foi pra alguem em específico?

N. Sim e não. A idéia central partiu de um evento com uma pessoa em particular, mas depois descobri que poderia transformar isso numa catarse coletiva, generalizando para outras coisas e pessoas que tenho que aliviar a bagagem.

6. Nelton, sua coca é fanta?

N. Não, não, e Não. Sou coca, sem frescura de Ligt ou Zero... Da pra sossegar e parar de perguntar?

7. Nelton, pq vc transformou seu blog em flog?

N. Pq ngm le meu blog, ou ngm comenta. E olha q no www.fotolog.com/neltonaraujo, qq um pode responder. Aliás, vou até postar essas respostas lá agora.

8. Nelton, vc é gay?

N. ...

9. Essa sua resposta é um indicativo que sim?

N. Não, é um indicativo q já to ficando de saco cheio...

10. Quem é a Carol? A ex que vc despejou td sua raiva e desprezo nesse texto? Ta pegando?

N. Carol é minha grande amiga, já tem uns 12 anos. Eu to namorando e to feliz, embora a Carol seja linda demais (Homens se candidatem... se vc gosta do Botafogo e não tiver problemas em saber q sua namorada joga futebol melhor que vc, te mando um email). Foi ela quem me provocou. E esse texto não teve raiva nem desprezo, tampouco tenho algum desprezo ou raiva a alguma namorada. Embora algumas me odeiem, eu tenho um enorme carinho por todas, pois elas me fizeram ser um namorado melhor. Silvana agradece...

11. Nelton, vc é gay?

N. Pra que vc quer saber isso? Já to falando há um tempão q não, mas vc não acredita...Vai, então, acredita q sou gay... eu desisto.
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Bjs a todos e daqui a alguns meses volto com algum texto polemico de novo.

So para que saibam, estou em época de qualificação, fico o dia inteiro dentro do mosteiro da Biblioteca da UFRJ. Qd não to, to correndo, malhando, nadando, beijando na boca ou falando com a namorada no Telefone. Mas um dia apareço de volta.

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* Pierrot é o nome do meu baixolão, vc ainda não sabe? Não quer q eu explique de novo não, né?

quinta-feira, agosto 07, 2008

Finitude

Uma grande amiga me disse, ao saber do tema deste post, disse que gostaria de lê-lo, pq em geral ela não sente que eu visto a carapuça do que eu escrevo.

Ledo engano.

Muito pelo contrário, tudo que escrevo são baseados em experiências próprias, dores, alegrias, que eu vivo. Talvez a capacidade de distanciar e me observar sob um ponto de vista irônico, ou doce, ou agressivo, ou apaixonado, generalizando, dê esta sutil impressão. Afinal, são vários Neltons que se manifestam em um só.

Generalizar sempre é perigoso, mas é necessário para quem não tempo, nem vontade – confesso – de fazer um estudo aprofundado. Quem veste a carapuça, amém, quem não veste, aparece no próximo post e vê se se enquadrada. E uma coisa que a grande parte dos homens não sabe, ou não gosta, ou não quer fazer é dar fim as coisas. Ninguém gosta do fim, seja de um bom filme, seja de um bom CD... de um livro então? Nossa, bate até uma depressãozinha leve. Uma novela (e eu sou noveleiro, embora ultimamente não praticante) quando chega ao final, dá até frisson: à hora das revelações e desfechos... mas no início da outra trama, a sensação é de saudade da trama que se findou. (nossa, saiu tão poético... rs).

Mas não nos restringimos só a isso: odiamos dar cabo em coisas mais subjetivas, mais abstratas. A morte é tão mal vista pelos homens menos pelo fato de ser o fim de um ciclo, mas por representar a finitude do próprio ser. Ao nos depararmos com a morte de um ente querido, além da dor de não tê-lo mais entre nós, a alegria de saber que está em outro plano, numa melhor (dependendo da fé de cada um) é sobrepujada por aquela reflexão de que éramos nós que podíamos estar ali, que o tempo escorre pelas mãos, e aí todas aquelas questões filosóficas que varia de pessoa para pessoa.

Mas não precisamos ir a questões extremas para perceber que não queremos largar o cabo da nau. Não precisar cair no lugar comum daquelas quinquilharias e bugigangas que vc não se desfaz nem sob ameaça de morte. Falemos de alma, falemos de emoção: não conseguimos definir bem a hora que devemos dar fim a certos sentimentos a certas pessoas ou a certas coisas. Ex-conjugues que não se tocaram que já acabou, que ta na hora de partir para outra. Conjugues que sabem que a caravela do relacionamento já esta indo pique, mas mesmo assim, não conseguem dar fim, e aí inventam desculpas e pretextos egoístas para pular do barco, como “Vou esperar ela (e) terminar”, “Na próxima oportunidade eu termino”, quando poderiam ter a nobreza de simplesmente dizer a verdade. E, na maioria das vezes, não sabemos findar amizades e sentimentos fraternais que já não valem à pena. Temos aquela visão ultra-romântica de que um amor ou uma amizade (posto que são sentimentos gêmeos) devem durar para sempre, e esquecemos-nos do principal: estes são presentes de Deus, anjos enviados com uma missão, de edificar-nos mutuamente, mas isso não implica dizer que sua hospedagem aqui em nossas vidas é sempre eterna. Mas adianta dizer? Falar alguma coisa?

Não, não adianta, por inércia, por medo da solidão, ou aflição da impotência de ser bem-sucedido socialmente, por gratidão a tudo que houve, ou mesmo, (e acredito que seja a maior razão) por aquela visão esperançosa de que toda aquela “Era de Ouro” vai voltar a se repetir, ficamos batendo na mesma tecla, petrificando nosso coração um pouquinho a cada dia. Cremos que largar o cabo de um relacionamento falido (seja qual for) é um ato cruel, indiferente, desumano, egoísta, quando, na verdade, é a inércia que é desprezível, pois estamos perdendo a oportunidade de sermos felizes no presente, nos segurando nas imagens do passado. Antes que me pergunte se sou contra a investir e insistir num relacionamento, respondo que não. Devemos persistir, relacionamento que é relacionamento passa por crises (e das brabas e sim, no plural!) e não vai ser na primeira crise que devemos largar o barco. Mas temos que ir até onde nossa dignidade permite... Larguemos as carniças que estão atadas as nossas mãos, e levantemos nossos braços para receber os anjos que do céu descem a todo instante.

Não é fácil, não é feliz, dói – e muito -, mas é necessário. E eu sou o primeiro a entrar nesta fila. Há tantas coisas e pessoas que devo largar esquecer, deixar livre para quem busquem sua própria felicidade. Procurar ser uma pessoa melhor, e não desejar o mal do outro. Desejar pagar o mal com bem, mesmo que muitas vezes me veja em situação contrária. Afinal, quem tem luz própria não tem medo de sombras. Mas quem gosta do final?

Se esse texto serve pra vc? Não sei, sei que foi feito pra mim. Visto explicitamente a carapuça, viu Carol?


segunda-feira, janeiro 28, 2008

Vida de Mestrando I

Parte mais arrumada de um quarto de Mestrando]

“Manhã de sábado. Dia claro, bonito, muito calor. Apesar disso, ele ali, com o laptop no colo, sentado no sofá da sala, fichando mais um livro para seu mestrado. Aliás, ele dormiu bem tarde, e, para não perder o prazo, deixou o laptop ligado para quando acordar, bem cedo, começasse já no pique. Assim, quando só tinha ele, seu laptop, o som da televisão ligada em qualquer coisa só para fazer companhia, o telefone toca:

- Alô?

- Alô, eu poderia falar com o Nelton Araújo?

- É ele, quem deseja?

- É o orientador do mestrado dele.

O coração dele disparou: o que faria o professor ligar pra ele em pleno sábado? Pior. Que mancada não ter reconhecido a própria voz de seu mestre intelectual. Que ousadia perguntar "quem deseja?" ao seu todo poderoso.

- Nelton, liguei para a professora que vai ser sua co-orientadora. (por motivos óbvios, não irei citar nomes, mas ela é a filha da Camila Morgado e do Caco Ciocler) e ela disse que, para aceitar, quer ler seu projeto, saber se você já leu tais livros e ...

Na cabeça dele, que já pensa cem vezes mais rápido que fala (geralmente, os homens pensam apenas 4 vezes mais rápido que falam), já sabia que as merecidas férias de fevereiro tinham ido para o espaço, só (re)escrevendo o projeto que tem que enviar, mas estava feliz porque estava prestes a conseguir uma co-orientadora de peso. (não literalmente, é claro!)

- ...e ela estava na dúvida quanto a todos seus jornais estiverem disponíveis para você. Teve um orientando que também estava trabalhando com "O Jornal" (Sim, o jornal se chama "O Jornal" , criatividade zero!) e depois descobriu que não tinha todos os exemplares e ficou com as "calças na mão".

- Não, professor, eu já perguntei e tem todos os exemplares até novembro de 1937.

Não obstante tenha dito com firmeza que tinha todos os jornais, que ele, vagamente, lembra que perguntou no primeiro dia que foi na moça dos periódicos da Biblioteca Nacional, as vozes começaram a aparecer. E se ele não tivesse perguntado? Se ele tivesse confundido, afinal, ele cortejou 5 jornais até resolver ficar com "O Jornal" como a fonte do mestrado. E se ele não tiver, o que ele faz? Ele é bolsista, ele poderia perder a bolsa, e isso seria a morte a beira do abismo.

Já eram 11 da manhã, ele ainda tinha a academia (seu método de descansar mentalmente e emagrecer ao mesmo tempo), tinha uma reunião às 15, e tinha ainda muito que estudar. O mais coerente era ele segurar a ansiedade e esperar a segunda vir e, com calma, solucionar essa pequena dúvida. Mas quem disse que Nelton agüentaria? Sua cabeça eram só indagações, medos, incertezas, inseguranças... Mal terminou a conversa com o orientador, já foi escolhendo a primeira coisa que via na sua frente, que combinasse e não estivesse amassada naquele imenso almoxarifado que deveria ser interditado pela Defesa Civil que era o seu quarto. “Desorganizado sim, mal vestido, nunca!”, era o lema dele. Por fim, vestiu aquela velha bermuda da Adidas que ele comprou na Uruguaiana,aquela camisa do Manchester United, que ele comprou por um preço de oficial, mas pairava dúvidas sobre sua autenticidade, e o tênis de academia, afinal, ele já tinha planejado que iria voltar a tempo de pegar a última hora da academia aberta. Esqueceu o celular, que para ele só tinha a função de despertador e relógio, mas o tocador de músicas e o boné ele não esqueceria jamais.

A passos muito rápidos, ele chegou ao ponto de ônibus. 2 ônibus não quiseram parar, e a cabeça cheia o fez dizer a mesma frase que diz quando tudo conspira contra (mesmo que fosse exagero dele, não muito raro):

- É, hoje a lei de Murphy ta contra mim!

Enfim, pegando o ônibus, esboçou abrir o livro que precisava ler pra ontem, mas sem sucessos: a sua cabeça fazia centenas de combinações para uma possível inexistência de fontes, que iam da mais elementar troca de jornais (O Rio de Janeiro dos anos 1930 possuía quase 3 dezenas de bons jornais para serem estudados) até o lançamento do seu corpo do décimo andar de onde morava, ou mesmo a fuga para a Groelândia. Absorto em seus pensamentos, nem percebeu que já estava na Avenida Rio Branco, a dois pontos da Biblioteca Nacional. Ao soltar, fez o mesmo ritual de todos os dias: adiantado ou atrasado, lá ele ia ao jornaleiro paquerar as notícias do dia de todos os jornais, conversava com o senhor da banca, e saía com um saquinho de amendoim, duas paçocas e uma bala de caramelo. Correu o risco de todos os dias, atravessando a Rio Branco correndo e fora da faixa (ele me confessara que adorava esse tipo de esporte radical!) , e olhando sobre as escadarias,via uma Biblioteca Nacional aberta. Isso já era um grande alívio: quantas vezes tinha acordado cedo, pego o ônibus cheio (e enjoava todas as vezes), e quando chegava a encontrava fechada, com uma bela faixa de “REPOSIÇÃO SALARIAL JÁ! GREVE!”.

Passou pelas formalidades de praxe da Biblioteca até de forma mais rápida, já que não levara o laptop e não passara pelo constrangimento do segurança verificar se a declaração de entrada do laptop era verdadeira. Só estava ele e um lápis- tinha guardado o Boné, o MP4 e o livro no escaninho – Entrou na sala de periódicos com a sensação de que ele não deveria estar ali. Olhou para o relógio de parede da sala: eram 12:03. Chegou na sala de atendimento, e como sempre, foi aquele poço de simpatia.

- Pois não?

- Olá, olha eu preciso muito da sua ajuda. Eu queria apenas que você visse essa localização – SPR 00136, que era o código dos bibliotecários para o “Jornal” - e me dissesse se há todos os meses entre Novembro de 1935 a novembro de 1937. Vim do Méier só pra isso, você poderia aliviar a alma desse mestrando cristão?

A atendente, querendo rir, mas muito solicita, acena com a cabeça e vai até o depósito. Menos de 2 minutos depois

- Olha, para a sua felicidade, tem todos os jornais microfilmados até novembro de 1937, e se você quiser fazer o doutorado usando “O Jornal”, fica a vontade: tem até 1945.

- Sério? Poxa, muito obrigado!

E sem pensar, se dirigiu para fora da Biblioteca: pegou suas coisas no escaninho, entregou o cartão de identificação a segurança que o tinha feito o cadastro, que exclamou

- “Nossa, que rápido! Veio só ver se a BN estava em pé?”

- Rápido? São que horas?

- 12:06!

Sim, toda aquela insegurança para serem resolvidos em três míseros minutos! Nelton se despediu da segurança, e colocando os fones do MP4 nos ouvidos enquanto descia as escadarias da BN, sorriu pra si mesmo e disse:

- Só você mesmo, né Nelton? Você precisa se tratar!

E lá foi ele, atravessando novamente uma Rio Branco com sinal verde, e foi para a Uruguaiana fazer o que mais gostava: escolher um boné para comprar. Não comprou nenhum depois de 2 horas, e voltou pra casa, esquecendo da academia, cheio de remorso de ter perdido o precioso tempo com uma insegurança boba. Prometeu nunca mais fazer isso outra vez.

Até que num outro dia...."

segunda-feira, dezembro 17, 2007

1 ano depois...


Esse post está um pouco atrasadinho.

Afinal, ontem as 16:10 fez exatamente um ano que vi meu nome encabeçando a lista dos aprovados para cursar o mestrado em História Política na UERJ. Depois do espanto natural de ver meu nome lá em cima, logo pensei:” isso tem que virar post do meu blog, eu preciso contar a todos essa vitória!”.


E demorei 1 ano para tocar no assunto simplesmente pq não vi necessidade de espalhar aos quatro ventos. Pra quem me conhece um pouquinho sabe que até fico envergonhado em falar com boca cheia que “Fui o primeiro no concurso do mestrado na UERJ”, sobretudo pq isso soa pra mim a arrogância, que é o mais odioso de todos os defeitos que o homem pode ter.

Um ano após essa “conquista”, posso falar com conhecimento de causa: sabe o que mudou na minha vida por ter conseguido tal fato? Porra nenhuma (advérbio de intensidade significando “nada”). Não me sinto maior e nem melhor que ninguém, pelo contrário. Posso até dizer: “Sobre anticomunismo na imprensa entre 1935 e 1937, dificilmente alguém saberá mais do que eu”, mas tal não me autoriza a andar pelos outros e dizer (ou pensar): “Eu sou o intelectual-sábio-ancião-mestre Miyagi e vcs são um bando de ignorantes, quem ousa discordar de mim?”. E,acredite,não é exagero meu: muitos pensam assim.

Lá na UERJ eu já encontrei um monte assim. Mas também encontrei na UFF, UFRJ, Unirio, USP e em qualquer lugar. E não precisa estar no mestrado não. Seja percebendo que se destaca entre os seus colegas de turma, ou tendo algum defeito na transição do mundo do ensino médio para a da graduação, cada vez mais jovens estão se tornando “arrogantes intelectuais”. Confesso que já quis ser um, mas também confesso que o queria como instrumento de poder, como forma de ter voz reconhecidamente respeitada no grupo social que vivo.

Tem a postura de superior, de achar que o mundo deve gravitar em torno dele. Entende-se por mundo desde o universo inteiro até o seu mundo particular: família e amigos. Acha que com seu desenvolvimento intelectual é equivalente a seu crescimento como pessoa. Pobre coitado.

Um pseudo-intelectual também se fecha no seu mundinho e não permite novas aventuras e experimentações. Não se permitem ousar, brincar, enfim, viver. Pior. Tudo aquilo que ele não se permite, ele põe a etiqueta de “errado”, “medíocre” ou de “ridículo”. Enumero as criticas mais freqüentes:

“Como você pode ver novela da Globo?” “Funk? Isso não é música, é coisa de ignorante” “Estou lendo Tolstoi, como vc pode ler Harry Potter?” “Que Perfil é aquele no Orkut?”

E aí vem a última característica que mais me irrita: não saber discutir. Discussão, para mim, sempre foi um diálogo entre vozes diferentes, buscando o levantamento de opiniões, e que, num segundo momento optativo, pode gerar uma terceira opinião adotada por um, pelo outro, ou pelos dois. Mas não, discutir com pseudo-intelectual requer dizer: guerra por ter razão. Ele já vem todo armado, com frases de efeito prontos e táticas de persuasão aprendidas em internet. Aí qualquer coisa que vc possa discordar, qualquer debate se torna um inferno. Quem disse que eu quero ter razão? Quem disse que eu não posso mudar de opinião? Quem disse que eu sei tudo sobre tudo? Mas não, eu sou o primeiro lugar no mestrado na UERJ, eu sou o cara, eu tenho que ter uma opinião formada sobre tudo e tenho que impô-las a todos aqueles que estão abaixo de mim. Acredite, já me disseram isso. Mais: aqueles que não disseram, pensam assim. Nessas horas , eu tenho que gritar aquele palavrão libertador, que te desestressa e coloca vc no eixo:

FODA-SE!

Por essas e por outras que eu não tive vontade de escrever sobre a minha vitória. Para que não soasse assim. Melhor que expô-las, é ter em sua memória cada segundo da batalha, de passar um ano inteiro sem dinheiro algum, trancado no quarto se matando para passar, mesmo sabendo que no ano anterior a mesma banca que me passou em primeiro, chamou a mim de “fraude”. É saborear cada instante e desfrutá-lo numa posição neutra, equilibrada, sensata: não em cima de um pedestal de uma intelectualidade falsa e que só vai te atrapalhar. Em resumo: no final, todos vamos morrer, seja menos intelectual, e mais humano.

Texto completo em www.nelton.blogspot.com

P.S.: A foto foi da época quando entrei. Hoje em dia, o tema da minha dissertação é, provisoriamente, “A fabricação do Perigo Vermelho – O discurso anticomunista em “O Jornal”” (1935-1937).