domingo, dezembro 07, 2008

Saudades...

No meio da praia, no meio da tarde, meio do nada, bateu aquela angústia, aquela sensação de incompletude. Vi-me sozinho, desamparado ao lado daqueles milhares de pessoas sorridentes que se amavam ao sol escaldante, beijando-se, trocando carícias, ou mesmo abraçada caminhando na beira da praia. Tentei fazer do mar meu companheiro e fiquei o contemplando revolto, agitado, como se algo ou alguém o tivesse irritado seriamente. Mas de nada adiantou: sem perceber, já estava com os olhos voltados de novo para aquele casal que caminhava despretensiosamente pela areia, e o estranho e indecifrável sentimento da saudade começava a dominar toda minha alma. Indecifrável porque “saudade” não é só “sentir falta de algo ou de alguém”, ele vai além: tem um mecanismo mais complexo que eu ainda não consegui compreender. Saudade está ligado incondicionalmente a memória, e assim, uma série de cenas, imagens surgiam na minha mente.


Tomado pela agonia da saudade, lembrei-me do nosso passeio a praia, quando nós éramos o casal despretensioso que flutuava pela beira do mar. Lembrei-me dos risos de nossas piadas, que eram só nossas. De nossas conversas, ora sobre o tudo, ora sobre o nada, que as tornavam verdadeiramente um diálogo, não uma competição entre dois egos infantis. Lembrei-me das provocações ao pé do ouvido que te deixavam tão ruborizada como extasiada. Até dos momentos em silêncio, que não nos incomodava, pois a presença um do outro transcendia as palavras, eu senti falta. Junto com as pegadas na areia, lançávamos nossos planos, sonhos, desejos. Não era mais “o meu” ou “o seu”, era “o nosso”, em que tudo se encaixava harmonicamente, assim como nossos beijos apaixonados ,e eu me lembrava de cada um desses com um sentimento tão carinhoso, como se o desejasse de volta. Mas da mesma que o mar apagava sistematicamente as pegadas na areia, tudo que tínhamos em comum, inclusive um ao outro, foram desaparecendo lentamente.


Será?


Dei-me por mim e tentava, em vão, me distrair. Mudar o foco, talvez. Usemos um argumento científico: “tendemos a olhar para o passado mais do que ele realmente foi”. Eu sei, é verdade, mas quem disse que meu coração se acalma com argumentos cientificamente aceitáveis? Ele só ama e sente falta! E, de repente tudo me fazia lembrar nós dois naquele passeio: a playlist em meu mp4, o tom vermelho da minha camisa, o cheiro do meu perfume, que era o que você mais gostava... Tudo, absolutamente tudo, me lembrava aquele momento tão reluzente, onde, mesmo de improviso, tornamos o litoral escravo de nosso amor. E todos os artifícios para tentar controlar esses pensamentos eram em vão e me trazia você mais próximo de mim. E no martírio da memória imensa, seja auditiva, visual ou olfativa, a saudade começou a apertar e a doer.


Dói saber que tua ausência é o que me basta, e que não me foi dada uma segunda escolha. Dói saber que resta apenas a mim o esforço grandioso de agüentar essa falta, esse sentimento de incompletude, essa outra parte de mim que te dei e nunca tive de volta. E dói ainda mais saber que me faltam forças ou coragem, pois a imagem que de ti em vão persigo, consciente ou inconsciente, é minha única companheira. Dói saber que provavelmente este texto nunca lhe será lido e que, dentre em pouco, se tornarão palavras jogadas ao vento. Mas o que dói mesmo é ver aquele lindo casal caminhando pela praia e perceber que sinto saudade de algo que nunca aconteceu, pois nunca fomos à praia. Posso sentir saudade daquilo que nunca vivi?


Sim, posso...


Porque, na verdade, a saudade maior não é o que éramos, mas sim o que poderíamos ter sido.

6 comentários:

Rodrigo disse...

Saudações.

[Mestre mode ON]
Se "tendemos a supervalorizar o passado", por definição o vemos como "mais do que ele realmente foi". O argumento pode ser científico, mas sua enunciação está mal formulada.
[Mestre mode OFF]

Olha, que orgulho, um Gafanhoto cronista! Ainda vou pedir seu autógrafo (depois que revisar os textos, é claro...):-)

Um grande abraço,
R.

Taísa Fonseca disse...

Romântico!! O que seria de nós de senão sentissemos Saudade? É o que faz a vida ter mais prazer!!!

Mia disse...

sincero e melancólico.
é realmente fascinante como um outro ser humano pode nos provocar tantos sentimentos, muitos deles contraditório.

"Só a perda abre caminho para o novo,
e o novo é sempre fascinante."
Edson Marques.

Silas disse...

no passado são vividos sentimentos que constantemente nos atormentam no presente.

MIAUCHELE disse...

BELO BLOG GOSTEI MESMO

Sil a Pretah .. " ) disse...

Me peguei conversando com o Beija-flor na janela do quarto, perguntando como poderia eu não sentir saudade de algo que não está apagado em minha memória.Como posso eu não chorar ao ouvir aquela música que me deu pra lembrar de vc quando sentisse saudades.. A saudade há.. Mas a escolha não foi minha. Se pudesse não a sentiria e hoje estaria feliz e completa. O que vc faria se tirassem a outra metade de sua vida? Como poseria não sentir falta dos beijos, dos carinhos, das risadas, do tudo, do nada.. do silêncio que fazia-nos ouvir apenas as batidas do coração, fazendo-nos entender através delas tudo o que queriamos, tudo o que sentíamos.. Mais foi embora .. Fiquei aqui. Saudades senti. Saudades sinto.. Saudades sentirei. Uma coisa assim não se esquece facilmente,derrepente. Posso controlar, posso disfarçar,mais a saudade ainda vai ficar ..