segunda-feira, maio 08, 2006

Festa de Aniversário

E não é que é verdade? É o que o futuro me espera...





FESTA DE ANIVERSÁRIO

Os ingredientes são: uma porção de caos, duas de confusão e uma pobre mãe exausta — tudo misturado com um cão latindo e balões estourando.

Uma boa festa de aniversário deve ter no mínimo vinte crianças, sendo uma de colo, que chora o tempo todo, uma maior do que as outras, chamada Eurico, que bate nas menores e acabará mordida pelo cachorro, para a secreta satisfação de todos; e uma de rosto angelical, olhar límpido e vestido impecável, que conseguirá sentar em cima do bolo de chocolate. Esta deve se chamar Cândida.

Boa festa de aniversário é aquela em que, depois que todos foram embora, a mãe do aniversariante examina os destroços com o mesmo olhar que Napoleão lançou sobre os campos de Waterloo depois da batalha, e fica indecisa entre chorar, fugir de casa ou rolar pelo tapete dando gargalhadas histéricas. Desiste de rolar pelo tapete porque o tapete está coberto de restos de comida.

É indispensável que no fim da festa sobre uma criança que ninguém sabe como foi parar embaixo do sofá.

— Como é seu nome, meu bem?

— Cândida.

É ela de novo. E as grandes camadas de chocolate no seu traseiro não estão ajudando o tapete.

A mãe do aniversariante decide chorar.

Melhor ainda são os pais que vêm buscar as crianças e ficam para tomar uma cervejinha. A noite já vai alta, os filhos dormem nos seus colos com a boca aberta, os balões coloridos presos ao dedo de cada criança fazem um balé em câmera lenta no meio da sala, e os pais não vão embora. A mãe do aniversariante não sente mais as pernas. Apalpa um joelho, para ver se a perna ainda está lá. Fantástico: está. E então ouve, incrédula, a voz do marido:

— Carminha, traz mais uma cerveja para o Dr. Ariel...

Será que o inconsciente não sabe que ela teve que correr o dia inteiro? Que encheu os balões com seus próprios pulmões? Que fez a torta de chocolate com a sua própria receita? Que por pouco não estrangulou vinte crianças com as suas próprias mãos? Boa festa de aniversário é a que acaba com a mãe do aniversariante querendo estrangular o próprio marido.

E o padrinho do aniversariante, que vem de longe especialmente para o aniversário e é ignorado pelo afilhado?

— Ora, Rodolfo, é que ele não via você há dois anos. Criança esquece depressa.

— Ele jamais gostou de mim.

— Gosta sim, Rodolfo. Ó Beto, vem cá pedir a bênção a seu padrinho.

— A bênção, padrinho.

— Agora dê um beijo nele. Pronto. E agora agradeça o presente que ele trouxe para você.

— Obrigado pelo "Forte Apache".

— Viu só, Rodolfo? Você não pode se queixar do seu afilhado. Ele adora você.

— É. Só que o meu presente não foi o "Forte Apache".

O padrinho ficará com a cara trágica até o fim da festa. Recusará salgadinhos e cervejas e suspirará muito. Antes de dormir, o afilhado virá correndo lhe dar um beijo espontâneo e um longo abraço. Na hora de ir embora, Rodolfo confidenciará aos compadres:

— Ele me adora.

Uma boa festa de aniversário deve ter guaraná morno e show de mágica. O mágico deve ser arranjado à última hora e não pode ser muito bom. A mãe do aniversariante deve contratar o mágico na certeza de que, depois de cantarem o "Parabéns a você", comerem a torta de chocolate e beberem o guaraná morno, as crianças não terão mais o que fazer, perderão o interesse e a festa será um fracasso. Ê preciso um show para entretê-las.

— Crianças, atenção! Uma surpresa para vocês!

Dona Carminha não consegue atrair a atenção das crianças. Há um grupo brincando de pegar, outro brincando de cabra-cega, um terceiro improvisando um renhido futebol com balões, e a Cândida que — com sua cara impassível de querubim — se prepara para amarrar uma jarra caríssima no rabo do cachorro.

— Crianças! Por favor, silêncio! Parem imediatamente tudo o que estão fazendo. Para vocês não ficarem sem o que fazer, vamos apresentar um show de mágicas!

Deve ser uma luta para reunir as crianças em torno do mágico. Antes que o espetáculo acabe, as crianças estarão participando ativamente de cada truque, espiando para dentro da manga, descobrindo todos os compartimentos secretos e desmoralizando por completo o mágico, que no dia seguinte mudará de profissão. Em seguida, a mãe do aniversariante tentará organizar um calmo e instrutivo jogo de charadas, mas ninguém lhe dará bola. As crianças agora brincam de Zorro, e o Eurico, montado no cachorro, faz um rápido "Z" com um jato de Coca-Cola na parede da sala.

Uma boa festa de aniversário deve terminar depois da meia-noite, quando o último pai sai arrastando a última criança, e a criança, o último balão, que estoura na saída. A mãe do aniversariante deve olhar para o marido, suspirar e declarar que está morta. Que irá direto para a cama e só pensará em arrumar a casa amanhã. Ou daqui a uma semana, sei lá. E só então se lembrará:

— Meu Deus, a Cândida! Temos que levar a Cândida em casa. Uma boa festa de aniversário deve terminar com uma criança sonolenta sendo entregue em casa com a recomendação:

— Olhe que ela está que é só chocolate.


(Do Fantástico Luis Fernando Verissimo)




sexta-feira, maio 05, 2006

The Emancipation of Me




Estar desempregado não é tão ruim como eu pensei. Obviamente não é o que pedi a Deus, mas tem lá suas vantagens: vc pode compensar todo as noites de sono perdidas por conta da faculdade, mudar um pouco seu fuso horário (do tipo que acorda as 11 da manhã e dorme as 3 da madrugada), acompanhar aquele seriado que você tanto gosta, mas que passa as 2 da matina , ter tempo para ler todos os jornais e revistas sossegadamente, ler aquele livro só por curiosidade e não pq ele vai cair na sua prova. Mas, mais do que tudo, o que essa fase momentânea da minha vida -ouviram? MOMENTÂNEA- me proporcionou foi a possibilidade de pensar e repensar certas coisas que o mar do esquecimento nos leva.




Fiquei me perguntando pq cargas d'água eu fui me formar em História. Não, não é arrependimento, pelo contrário, fui tentar achar uma razão diferente das que convencionei para ser apaixonado pela Clio. As que convencionei, para saciar a curiosidade alheia, foi a que comecei a gostar de lecionar quando comecei a dar aula para as crianças na minha igreja. O mais engraçado é que fui lecionar por conta de uma menina que era apaixonado. A outra razão para começar a gostar de dar aula foi quando a professora provocou a turma e disse que daria generosos 0,5 ponto para aquele que desse aula por 2 tempos. Quem foi lá na frente dar aula? Isso mesmo, eu. E lá, por mais que a turma estivesse me sabotando -e estava mesmo- eu senti que ali era o mesmo lugar. Isso no meu segundo ano de ensino médio. Porém, curiosamente, nunca tinha reparado que nessa duas razões, não tem nada que explique o fato de ter sido História a disciplina escolhida. Não tem razão: não era minha matéria predileta (Pasmem, as prediletas era Física e Geografia Política), nunca tive a cultura de leitura, não fui educado numa família que incentivasse o hábito de ler.



Não só o de ler, mas de várias outras características que eu possuo hoje. Isso é estranhamente bizarro, posto que sempre carregamos algumas características dos pais, seja biológica, seja culturalmente. Tirando o fato de, pelo que eu me lembre, ser a cara da mãe,, ou seja, a parte biológica, na parte cultural eu não tenho NADA que eu possa dizer que herdei deles. Sabe aquela história de "se quiseres conhecer um homem, conheça a sua família"? Comigo não adianta...As vezes eu me pego prestando atenção a alguns discursos do meu pai aqui em casa, conversando com a esposa dele. E consigo discordar do início ao fim, incrivelmente. E acredito que ele deve ficar se perguntando que filho é esse que escuta coisas do seu tempo, como "Frank Sinatra", "Marvin Gaye", "Aretha Franklin", e qualquer banda de soul/funk dos anos 70, e coisas que quase nenhum rapaz de 22 anos escutaria normalmente, como Jazz, Bossa Nova, Música Clássica etc. Em geral, os filhos começam a construir seus gostos escutando o que tem em casa, os famosos Lp's, e eu não me lembro de nenhum Lp dos meu pais, a exceção dos seus lps dos Bee Gees e da trilha de "Estúpido Cupido" que escutava escondido da minha mãe, que tenha me marcado. Fui gostar de Bee Gees anos depois e detesto Jovem Guarda.Mas entendo se ele pensar assim, que eu sou louco. Não estamos acostumados a ser diferentes, na verdade, o "bom" é quando vc é igual aos outros. Eu sei, querido leitor, vc não pensa assim, mas vc já parou para pensar quantas pessoas pensam desse jeito.Mas o mais estranho de tudo não é quando eu vejo quanto meu gosto musical se difere dos meus pais, e sim como construir esse tão eclético gosto musical( E põe eclético nisso, são 21 Gb de música ao todo). Talvez tão complicado de responder essa pergunta quanto a de responder pq eu fui gostar de ler. Não sejamos hipócritas: a falta de incentivo, mais a preguiça natural de ler de uma juventude que passa horas na televisão e na Internet, mas chega aos seus vintes anos sem ter lido um grande clássico sem ser aqueles cobrados na escola. Eu tinha tudo para ser mais um destes, e ainda reconheço que há muitos clássicos que ainda não li, e ao contrário do Diogo Mainardi, eu não me orgulho nem um pouco disso. Nunca ganhei um livro de presente (se tem algum leitor meu que é pai, deixo a pergunta: vc já deu um livro para seu filho?), não tive acesso a biblioteca do meu pai, sobretudo pelo mínimo detalhe: ele não tem biblioteca. Mas eu sei quando começou a minha paixão pela leitura, e para isso teremos que voltar aos longínquos dias de 1994. Foi graças a um livro paradidático, que tinha que ler, a primeira sensação de como a leitura e as palavras são fascinantes: O menino do Dedo Verde, de Maurice Druon.



Eu me recordo de já ter lido outros livros paradidáticos, antes e depois,, mas não me esqueço desse: mais do que a "obrigação" de ler, eu comecei a ter prazer em ler. Prazer de ler para mim é mais do que vc extrair algum ensinamento, alguma lição, de se instruir, é vc se transportar para o livro, isto é, o mundo esta ao seu redor, mas vc esta dentro daquelas linhas, sendo espécie de Voyuer de toda aquela trama. É montar um pequeno filme na cabeça, um filme que muda sempre que vc retorna a ler aquelas palavras. É fantástico vc sentir essa sensação com 10 anos de idade, uma faixa etária tão rica, tão criativa, tão explosiva para a cabeça de um "pré-adolescente", vulgo criança.É tão fresca e viva a lembrança quando eu fui a um médico no Valqueire: eu tava tão hipnotizado pelo livro que minha mãe que me guiava. A partir daí comecei a ser um fiel assíduo a tão vazia biblioteca do Santa Mônica. Lia aqueles livros, que hoje dou risada, de diários de adolescentes,e Pedro Bandeira: a Marca de uma lágrima,A Droga da Obediência,a série dos Karas,etc. Enfim, fui aprendendo a gostar de ler: a qualquer momento eu poderia me deslocar para onde quiser, eu poderia ir para qualquer lugar, poderia ser quem eu quisesse, ou melhor, ser eu mesmo, sem as amarras que nos prendem e que moldam de acordo com algum tipo de estereótipo pré-estabelecido.Talvez aí esteja uma razão para meu ecletismo musical: na verdade não existe um Nelton, uma máscara, um ser previsível e padronizado, mas sim, vários Nelton, vários humores, vários pensamentos, imprevisível.



Isso é diferente de ter personalidade múltiplas, é vc entender que ser contraditório não é o fim do mundo e que nem tudo que se difere contrapõe entre si. Talvez isso explique minha tolerância, num sentido mais amplo. Sou daqueles que pode não concordar com uma palavra do que dizes , mas lutarei até a morte pelo direito de você dizê-las, parafraseando Voltaire. Vibrei com a faixa de "Coexistência" na testa do Bono Vox (embora não goste de U2), e detestei quando vi uma revista dita "Evangélica", discutindo a questão da Coexistência, dizia, em nome de todos os protestantes, que nós dizíamos não a Coexistência. Sou protestante, embora deteste o termo evangélico (por outro pormenores que só deixariam esse post mais longo), mas sou daqueles tipo de protestante raro nos dias de hoje: aquele que reconhece que sua igreja não é perfeita, que sua religião não é a melhor, que devemos respeitar a religião do outro, porque, na verdade, nenhuma religião é perfeita, nenhuma é melhor do que a outra. Esse proselitismo gratuito que tenho que ver e acompanhar todos os dias, onde pastores,não obstante alguns bem intencionados, outros conscientes do que estão fazendo, se auto intitulam "geração eleita"e dizem que são o único caminho que levam ao céu,ao verdadeiro Deus,e ao seu enaltecimento, atacam as outras religiões, não levando em consideração o filtro de cultura, que é diferente, que cada religião passa em relação a revelação divina, é algo tão comum e tão intrínseco nas pessoas, que, espero que não, qualquer pessoa religiosa que leu até aqui ou tá saindo do blog ou ta em vias de sair. Consideram-me um polêmico, um subversivo, mas ninguém parou para pensar se aquela pessoa que está nas "trevas" realmente está afim de sair de lá, ou melhor, se considera em trevas. E o que vc vê são pessoas "tacando terror" nas outras, não tendo tolerância com o irmão, não respeitando a sua opinião, mesmo que não concorde, ou mesmo fazendo comentários infelizes e fúteis como eu já tive desprazer de ouvir:"Morreu e não se converteu, é, vai para o inferno!". É claro que acredito que o Protestantismo seja a melhor forma de me religar com Deus, se não achasse, seria no mínimo estranho ainda permanecer lá. Mas conceitos como "bom", "Melhor" são subjetivos e, por isso, variam de pessoa para pessoa. Ou seja, gostar da minha religião não significa odiar e abominar as outras: posso até discordar de alguns dogmas, mas as respeito com dignidade.Não é a toa que um grande amigo meu diz que eu sou o menos evangélico dos evangélicos. Embora eu saiba que sou diferente, não me acho único: há um grupo infinitesimal de "evangélicos" que pensam. Quero crer que sim...




Outra característica além da tolerância é a da desconstrução de pensamentos. Há pessoas que constroem suas idéias, sua régua de valores e comportamentos e vivem eternamente sobre aquilo que tão arduamente construiu. Eu construo minhas idéias para justamente desconstruir mais tarde.Para mim, melhor do que dizer "Eu tenho uma idéia!" é dizer "Eu mudei de idéia". Entrando na frase clichê do Raul Seixas, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha idéia sobre tudo. Isso, para mim, é bom pq vivo num eterno aprendizado: nenhuma idéia é suficiente para me saciar, eu busco sempre mais, sempre mais explicações, mais conceitos, e por muitas vezes encontro-me mudando de idéia: depois de algum tempo, vc começa a refletir sobre suas primeiras impressões e verifica que vc pensa, hoje, completamente diferente. Mas o poder da inércia é mais forte do que podemos imaginar: pessoas tem aquela velha idéia e não busca mais fontes, tanto para reafirmá-las qto para refutá-las, por pura preguiça, por desconhecimento, em menor escala por vontade própria, e uma parcela por arrogância. Sim, arrogância, aquela maldita característica de se achar superior aos outros e tratá-los com menosprezo.




Certas coisas que são aprendidas na escola são decoradas e nunca refletidas. Vejamos só: todos aqui aprendemos que com Copérnico e Galileu, os homens começaram a ver que o universo não gira em torno da Terra, mas, agora, era o Sol o centro do Sistema solar. Chamamos essa idéia de Heliocentrismo.Olhamos para isso como uma coisa distante, fria, a decoramos, acertamos a questão na prova e esquecemos do essencial: refletir. Esquecemos que pensamos que o mundo gira ao nosso redor, que nossos valores são os melhores, que nossas idéias as mais brilhantes, nossas posições, as corretas. Somos a Terra, arrogantes e prepotentes: entramos num discussão, numa conversa, não pelo prazer do debate, de observar uma segunda opinião, respeitá-la,mesmo que a discorde. Não, entramos numa discussão já certo de nossa vitória, tendo a idéia que o produto final desse debate é o convencimento da outra parte. E assim caminha a humanidade: homens e mulheres, jovens e adultos querendo vencer, como se tudo fosse uma grande competição e esquecendo que o principal é o diálogo interno, é a vitória contra seu maior inimigo: vc e a sua inércia. Qdo começarmos a agir assim, não necessariamente mudando de idéia como se muda de camisa, mas refletindo sobre nossas "verdades", mudando quando for necessário, estaremos, destarte, fazendo jus a celebre frase de Descartes de "Penso, Logo existo", i.e., dignificando a existência do nosso ser.É assim que eu caminho, por estradas diferentes da que meu pai me acostumou a seguir, por vezes, na contra-mão do mundo, mas sempre buscando a minha autonomia.




E ai de vc de discordar de mim!




Music do Post - Virtual Insanity do Jamiroquai

domingo, março 19, 2006

Notas mentais em um fim de noite.



Em geral esse autor que aqui vos escreve de forma um tanto quanto equilibrada: nem tão frio que parece que você esteja lendo um artigo científico chatérrimo, nem tão pessoal a ponto de invadir certos pontos estratégicos da minha privacidade. Afinal, sou uma pessoa que, quanto mais se convive, mais se tem a sensação que menos o conhece: volúvel, inconstante, e deveras paradoxal.

Mas hoje resolvi mudar: são 3 da manhã, a escuridão da linda madrugada estrelada só é interrompida pelo clarão do meu monitor, e venho de uma festa que mais que me divertiu, méritos da aniversariante e dos velhos amigos de infância que reencontrei, provocou uma avalanche de reflexões, umas mais óbvias que outras. Para isso, talvez terei que mexer em alguns bolsões do meu íntimo, de sentimentos pouco revelados, e meu blog servirá para algo que sempre comprei, mas vivia em branco: um diário.

Não sou muito de sair, pouco vou às festas, nunca fui a uma boate (o máximo que já aconteceu foi virar a noite na casa de um colega falando bobagens através do famoso jogo da verdade), mas dificilmente fico deslocado quando vou a uma festa: meu contato semanal com jovens de 8 a 80 me fez pensar ter uma espécie de cultura paralela, onde o funk, forró, pagode, jovens bêbados, jovens semi-nuas, e mais meia dúzia de obscenidades fossem algo normal para mim. Hoje descobri que essa cultura paralela é uma balela: nunca me senti tão desconfortável e deslocado com os rap’s que rebaixam a posição da mulher a qualquer coisa abaixo de objeto de uso descartável, com uma dúzia de jovens vestidos como dita a moda, bebendo como dita a moda, falando como ditam a moda, se exibindo como se estivessem numa vitrine, como dita a moda. Não to aqui condenando que goste de ser assim, apenas ressaltei esses aspectos para ressaltar ainda mais meu deslocamento. Como foi difícil achar assunto com meus velhos colegas de condomínio, à exceção de uns e outros que eu mantenho contato, como foi árdua a tarefa de tentar falar alguma coisa sem parecer soberbo, arrogante, ou coisa que valha.

Sobre a arrogância, eu tive pavor dessa palavra, era a última coisa que eu queria ser nessa vida, mas volta e meia vejo alguém dizer que eu sou, ou fui em algum momento prepotente: a vez mais dolorida foi quando soube que não passei no mestrado porque o entrevistador tinha me achado arrogante. Preferia continuar conjeturando que não tinha passado por falta de capacidade mesmo. Pois para essa deficiência, a da incapacidade técnica, há um remédio: o estudo, redobrado e melhor explorado. Mas como resolver o problema da arrogância? Até semana passada, se você me perguntasse se era arrogante, seria taxativo em dizer: Não. Hoje já não sei. Às vezes sou hipócrita comigo mesmo, invento algumas desculpas para escamotear a realidade. Inventei, ou dei relevo,o fato de não ser nem melhor, nem pior, apenas diferente. E realmente, sou tão diferente que pareço um E.T. em muitas áreas, características, gestos e atitudes, mas isso não exclui, e hoje tenho mais certeza disso, o fato de que eu me acho bom, para não dizer ótimo, em certas ocasiões. O problema é meu, eu sei, porém, já parou para percebeu como a sociedade impõe uma ditadura da falsa humildade? Como o discurso do humilde, mesmo sendo um tanto quanto forçado em muitas vezes, é mais agradável aos ouvidos do que um discurso onde a pessoa afirma sua plena capacidade no assunto? Logo interpretam que tal pessoa, e no meu caso também, que eu me ache superior aos outros. Logo são chamados de presunçosos. Enfim, na sociedade onde é o ego é supervalorizado, a honestidade de dizer que é bem capacitado em tal área é mal digerido. Se permitem um exemplo, já que vejo que esse texto vai ser tão longo quanto os outros, essa semana, vendo um desses programas de futebol (aqueles que repetem o mesmo lance 36 vezes para confirmar que foi gol: um estranho e viciante hábito dos amantes de futebol), entrevistaram o jogador que tinha feito um belo gol durante um jogo do Fluminense, e ele disse algo parecido com “Eu fui muito bem no lance realmente, me coloquei bem e chutei com categoria...”. Mais estranho do que ver um jogador falando em 1ª pessoa, foi meu pai, tricolor fanático, falar para mim: “Presunçoso esse rapaz”. Em nenhum momento ele desmereceu ninguém, em nenhum momento se mostrou superior, apenas valorizou seu trabalho ( e realmente foi um belo gol). Se isso é ser arrogante, presunçoso, confesso: eu também sou, só não contem para ninguém.

A festa de hoje também serviu para me mostrar como sou diferente, se para melhor ou pior, não me interessa. Não sou o maior exemplo de timidez, entretanto, não sou tão extrovertido como pensava. Não em relação aquela turma de adolescentes que me rodeavam. Senti-me o verdadeiro Eduardo, de Eduardo e Mônica, quando repeti mentalmente umas dezenas de vezes que estava num “festa estranha, com gente esquisita, eu não to legal...”. Tentava, em vão, não me escandalizar com alguns atos, e buscava sempre pensar que era uma cultura diferente da sua, uma educação outra, seres diferentes embora muitos tivessem a minha idade. Talvez seja inspiração freudiana, mas tendemos nessas horas puxar a sardinha para brasa da sentimentalidade: eu sempre me eduquei (não tive conversas desse tipo em casa) a ver a mulher como um ser extraordinariamente maravilhoso, e tratá-la, menos pela moda que existia e mais por posições pessoais, como uma princesa, ser atencioso, carinhoso, e tudo que você tem a permissão para pensar. Cada vez descubro que a grande parte das mulheres, para não ser injusto com as que não são assim, detesta esse tipo de homem. Não é ser grudento, é ser romântico, mas as jovens (quase, nesse momento cai no descuido de falar jovens “de hoje”, como se eu aqui fosse o velho...Bem, já passou.) querem o homem que as ignorem, que não mande flores, que não ligue, e etc...Esse sim, é interessante. Talvez explique a proposição de que elas gostem dele por conta do desafio que seja “domar” a fera, mas será a birra mais forte do que o prazer de se sentir um pouco acima do status de objeto descartável? Sim, porque hoje em dia você já entra num relacionamento, seja em que grau for, já coma data de vencimento estipulada, isso porque a necessidade de se experimentar de tudo se tornou incontrolável. E sinceramente, não sei ser diferente, não consigo ser alguém diferente do que eu sou. Pago certo por isso, as vezes caro demais para minha alma, ao me envolver demais com alguém e sofrer depois que percebo que o único envolvido sou eu; viver com intensidade, amar com mais veemência ainda e se ver acompanhado pela solidão, porque as pessoas esqueceram o que significa a palavra intensidade.

Solidão: foi o que senti quando saía dessa festa. Estava sozinho, tinha rido bastante, feito rir de igual maneira, mas me senti improdutivo. Senti-me como uma espécie de entretenimento televisivo, do qual, ao desligar, é esquecido e que pouco faz refletir. Iria para minha cama sem nenhuma musa para ninar meus sonhos , sem alguém que me fizesse suspirar, rir a toa, que ligasse despretensiosamente, ou melhor: me mandasse um recado virtual, dizendo que pensou em mim (não sei se vocês sabem, mas eu odeio telefone, ouvir a voz de alguém sem vê-la me causa ainda arrepios).Enfim, To indo agora deitar sem alguém que sentisse realmente a minha falta. Sim, é carência, não nego, pelo contrário, uma das características mais explícitas na minha personalidade além da minha baixa estima (Tenho baixa estima e sou arrogante, uau, viva o paradoxo!), é a minha carência. Vocês não têm noção da necessidade do toque para mim, a sede que tenho por palavras de afeto,as de amizade são ótimas, mas me refiro a de amor, o prazer de um abraço, o êxtase de um cafuné. Viver sozinho, como eu vivo, tem lá suas vantagens a curto prazo, mas meu relacionamento com o isolamento não passa de um flerte juvenil. O ato de estar apaixonado me motiva, me faz mais feliz, assim como na maioria das pessoas. Paradoxalmente do que disse aí em cima, sou bastante extrovertidos para algumas coisas e e-x-t-r-e-m-a-m-e-n-t-e tímido para muitas outras. E põe muitas nisso, ô. A principal delas é pedir alguma coisa, não importa qual: dinheiro, dica, livro, cd, namoro, um beijo. Ô coisinha difícil. Para não dizer que nunca pedi, pedi uma única vez, não faz muito tempo: as condições eram favoráveis, o clima também, o local propício, e o não evidente. Para alguém que fica se auto-mutilando por qualquer besteira que fala ou age, que se remói por qualquer coisinha que já aconteceu há anos, isso é a bomba de Hiroshima na minha vã tentativa de romper a timidez com as mulheres. Prefiro, e se prefiro, que elas puxem o papo, que elas tomem a iniciativa, assim é mais fácil eu não errar. E como não tenho o hábito de ficar, tento suprir a necessidade inventando paixões. Agora lanço a pergunta: será que um dia eu vou realmente me apaixonar, sem ser para inteirar alguma necessidade? Uma ótima pergunta para não se responder.

O vazio que estava quando eu fui embora foi esquecido num instante, um instante em que a aniversariante, uma amiga de longa data, se lançou nos meus braços, num breve e intenso abraço, verdadeiro, honesto, emotivo, diferente da maioria dos abraços que dei naquela noite (falo isso porque já amanhece e o quadro de Salvador Dali já se pinta no céu do Rio de Janeiro). Ali senti que toda aquela pressão, aquela avalanche de pensamentos, reflexões, indagações que apareceram em 5 horas de festa se dissiparam. Abraços diferenciais, que falam mais do que mil palavras já fazem parte da minha vida e para quem lê e acompanha minhas divagações. E dessa vez não foi diferente, tão emocionante quanto. Talvez ela nem tenha se apercebido disso. Talvez a gente não perceba como é nas pequeninas coisas, nos simples gestos, atos, palavras que levantamos e derrubamos gigantes. Temos usado nosso tolo tempo em destruir para nos engrandecer, pensar no EU e não em NÓS.

Depois do abraço, entrei no prédio, peguei o elevador, e como vocês podem presenciar, todas as perguntas, as dúvidas, as reflexões, as necessidades, tudo, voltaram a povoar meus pensamentos.

Graças a Deus existem os amigos e seus abraços.





Musica para se escutar nesse post: Diary - Alicia Keys.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Pérolas Filósficas: A Maçã




"... eis uma maçã


...Nós temos duas maneiras de estudá-la: do ponto de vista metafísico e do ponto de vista dialético. No primeiro caso (de acordo com a metafísica), nós faremos uma descrição dessa fruta: sua forma, sua cor, enumeraremos suas propriedades, falaremos de seu gosto, etc. Depois, poderemos comparar a maçã com uma pêra, ver suas semelhanças e suas diferenças e, enfim, concluir: uma maçã é uma maçã e uma pêra é uma pêra.Mas, se nós quisermos estudar a maçã do ponto de vista dialético, nós nos colocaremos na perspectiva do movimento (mas não daquele movimento quando ela rola e se desloca), mas do movimento de sua evolução. Nós constataremos que a maçã madura não foi sempre o que ela é; anteriormente ela era uma maçã verde. Antes de ser uma maçã verde ela era uma flor; antes de ser uma flor, era um broto e, assim, nós chegaremos à macieira na primavera. Enfim, a maçã não foi e tampouco permanecerá sempre o que é. Ela tem uma história.Eis o que se chama estudar as coisas do ponto de vista do movimento: é o estudo na perspectiva do passado e do futuro. Estudando assim esta maçã, o presente será visto como uma transição entre o que ela era (o passado) e o que ela virá a ser (o futuro) ..."



George Politzer

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

As verdades sobre mim


Nessas longas férias, de noites em branco e dias no escuro, repensei na minha vida, nos meus valores, e vi que tenho virtudes, além dos nossos conhecidos defeitos. Com isso, descobri que minha auto-estima baixa é uma bobagem, visto que minhas virtudes são únicas e singulares. Destarte, fiz uma pequena lista de 22 pontos sobre minhas características mais marcantes.
Eis a lista:


1 - As lágrimas do Nelton Araújo curam o câncer. O problema é que ele é tão macho que não chora nunca. Nunca!


2 - Nelton Araújo não dorme. Ele espera.


3 - Nelton Araújo está atualmente processando a NBC. Ele alega que "Lei e Ordem" são os nomes patenteados para suas pernas ("Lei" a esquerda, "Ordem" a direita).


4 - Se você pode ver Nelton Araújo, ele pode ver você. Se não pode ver Nelton Araújo, você pode estar perto da morte.


5 - Nelton Araújo contou até o infinito. Duas vezes.


6 - A última página do Guiness (livro dos recordes) diz em letras miúdas: "Todos os recordes do mundo pertencem a Nelton Araújo. Nós apenas nos damos o trabalho de listar os segundos colocados em cada categoria."


7 - A Grande Muralha da China foi originalmente construída pra impedir a entrada de Nelton Araújo naquele país. Ela falhou miseravelmente.


8 - Se você perguntar ao Nelton Araújo que horas são, ele sempre dirá, "Dois segundos até..." Depois de você perguntar "Dois segundos até o quê?" ele dará um roundhouse kick na sua cara.


9 - Quando Nelton Araújo recebe os impostos, ele manda de volta folhas brancas com uma foto dele agachado, pronto para atacar. Nelton Araújo não teve que pagar impostos nunca. Nunca!


10 - Nelton Araújo era um dos personagens originais do jogo "Street Fighter II". Ele só foi removido porque todos os botões faziam ele dar um roundhouse kick. Quando perguntaram sobre essa falha do jogo, Nelton Araújo respondeu: "Que falha do jogo?"


11 - Nelton Araújo tem duas velocidades: Andar e Matar.


12 - Uma vez Nelton Araújo comeu um bolo inteiro antes que seus amigos pudessem lhe contar que havia uma stripper dentro.


13 - Quando Deus disse "Que se faça a luz!", Nelton Araújo falou "Diga 'por favor'."


14 - NELTON ARAÚJO NÃO LÊ LIVROS, ELE OS ENCARA ATÉ CONSEGUIR TODA A INFORMAÇÃO QUE PRECISA.


15 - Nelton Araújo jogou roleta russa com um revólver totalmente carregado e ganhou.


16 - Nelton Araújo não tem um forno ou microondas, pois, como todo mundo sabe, "a vingança é um prato que se come frio."


17 - Nelton Araújo pediu um Big Mac no Bob's. Ele foi atendido.


18 - Algumas pessoas usam uniforme do Superman. Já o Superman usa uniforme de Nelton Araújo.


19 - Não existe queixo por trás da barba de Nelton Araújo, apenas outro punho.


20 - Nelton Araújo só passa as noites com a luz acesa. Não, Nelton Araújo não tem medo do escuro, mas a recíproca não é verdadeira.


21 - Certa vez Nelton Araújo deu um roundhouse kick tão rápido que quebrou a velocidade da luz, voltou no tempo e atingiu um navio chamado Titanic.


22 - Armas não matam. O que mata é Nelton Araújo.



Todas as informações supracitadas são expresões da verdade.




Musica do Post - I Got The Groove - Tower of Power ( Vc não conhece? Então um roundhouse kick em você!!!!!!!)

domingo, janeiro 22, 2006

Insights de um fim de tarde




"Quando ali penetro, convoco todas as lembranças que quero. Algumas se apresentam de imediato, outras só após uma busca mais demorada, como se devessem ser arrancadas dos escaninhos mais recônditos. Outras irrompem em turbilhão, e , quando se procura outra coisa, se interpõe como a dizer: Não seremos nós que procuras?" (Santo Agostinho - Confissões)














Musica para um fim de tarde: O Silêncio.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Frases Na Madrugada




"Só se sabe o tamanho do grau de intimidade que se
tem com a amada quando ficar perto dela em silêncio não mais o
incomoda"















PS. Agradeço a Erica por essa frase, que me fez refletir as 1 da manhã se não deveria ser esse o meu objetivo em certos momentos.
















Musica do Post: As Time Goes By - Frank Sinatra

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Só de Sacanagem!!!





Meu coração está aos pulos!




Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro,do nosso dinheiro, que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.



Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, Esse apontador não é seu, minha filhinha”.Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.




Pois bem, se mexeram comigo,com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:mais honesta ainda vou ficar.



Só de sacanagem!



Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.



Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.



Eu repito, ouviram? I-M-O-R-T-A-L!



Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser,vai dar para mudar o final!




Musica do Post: Problema Social - Na voz de Seu Jorge

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Belezas




Qual versão da moça, esposa de um rico cidadão fiorentino de nome Francesco Di Bartolomeu Del Giocondo, que em 1503 encomendou a Leonardo Da Vinci um quadro, nessa foto ficou bonita? Não precisa mentir para si próprio. A da esquerda, a original, ou a da direita, a versão americanizada? conseguiu responder? Agora tente explicar para si mesmo o porquê da decisão? Vamos ver...você achou a moça do quadro esquerda muito simpática, um sorrisinho enigmática, mas feia? Não consegue entender como para um gênio como o Leo da Vinci podia tê-la como padrão de beleza, até que finalmente pessoas de bom senso deram um trato, uma repaginada na coitada? Não se preocupe, ou melhor, se preocupe, a grande maioria respondeu como você. Mas deixa-me exercitar minha chatice e perguntar mais uma coisa? O que é ser bonito? Como se mede a beleza de alguém?

Não sou bonito, definitivamente. Isso não é discurso de um feio que quer atenuar sua falta de formosura com a sinceridade, longe disso. Sou alguém que tenho certeza que toda a fotogenia e beleza da família foram dadas a primogênita, ou seja, minha irmã.Loira, magrinha dos olhos verdes, nem de longe parece este que vos fala, que tem cabelo crespo, olhos pequenos, nariz achatado e corpo em forma de “8” (to quase virando um 0). Posso ter várias virtudes, mas essa...


Mas hoje fiquei me perguntando que elementos tornam alguém mais ou menos bonito. Será que um conjunto de biótipos que ao longo do tempo se tornaram tão naturais no nosso subconsciente, tais como peitoral definido, pernas grossas, barriga de ‘tanquinho’, seios volumosos, braços do tamanho da coxa (exagero? Sei não...)? Enfim, pessoas que se constroem, que são produtos e não produtores de beleza. E não adianta dizer que a pessoa pode ser bela nos últimos dias tendo apenas um rosto lindo: parafraseando Vinicius de Moraes, “desculpem-me os gordos, mas um corpo sarado é fundamental”. E essa busca desenfreada por esses estereótipos ditos “formosos” me incomoda, não pela aparência em si, mas porque a maioria não sabe o que é realmente ser bonito. Na verdade, dentro de uma academia, em geral, o que menos se exercita é o senso crítico.


Se pelo as pessoas entrassem nesse culto ao corpo por consciência própria, por saúde, por gostarem daquele formato do corpo que se produz ou qualquer outra desculpa, até tudo bem. Tenho um caso desse aqui em casa: minha mãe é uma malhadora nata, ratas de academia, mas faz por que gosta, porque se sente bem e não porque quer se exibir para os outros. É esse o problema maior: as pessoas querem aparecer, querem se exibir, e, se por acaso, a moda fosse ser gordo, com certeza a grande maioria deixaria a barriga crescer, se olhariam no espelho e diriam “Fulano, minha barriga tá maior que a sua”. Vão de acordo com a direção do vento, sem pensar, e se o vento mudar, mudam também. Esse culto do corpo cada dia mais tem se tornado uma forma de compensação.


Em hipótese nenhuma estou afirmando que malhar ou estar na academia é sintoma de personalidade fraca, em absoluto. Mas, e eu adoro essa expressão, tudo tem que ter equilíbrio. Quem tem o hábito, bom ou mau, de vasculhar os profiles dos amigos e dos amigos dos amigos tem que se deparar com comentários sobre os livros prediletos: “Não curto muito ler não”, “Não gosto de ler”, “Playboy”...Tá bom homens, tem a versão feminina também: “Capricho”, “Atrevida”, “Eu me lembro que há muito tempo atrás eu li o pequeno príncipe e adorei”, “Comecei a ler Harry Potter, mas ele é muito grande e preferi assistir ao filme”. Tudo isso com a entonação de orgulho, como se ler um mísero livro por mês fosse coisa de Nerd, de pessoas cabeçudas, cdf’s que nunca foram a uma academia. Aliás, já se tornou senso comum ver a pessoa com livros na mão e o achar “o intelectual”, tradução mais comum: o chato que se acha o inteligente.



Mas ainda não consigo ver uma explicação global para a beleza. Um conceito único, que seja compatível com todas as idéias de beleza. A beleza está nos olhos de quem a vê é a frase chave desse parágrafo. Um ser belo é um ser relativo, pode ser belo para você, pode ser feio para mim, pode ser um semi-deus grego para alguns, ou um bruxo para outros. A formosura de uma pessoa não se restringe a apenas alguns traços físicos, mas a inteligência, a simpatia, o charme, a áurea da pessoa. Isso mesmo, ou você nunca teve a sensação de ver uma luz em redor de uma pessoa que você acha encantadora? Esse tipo de pensamento parece antiquado, um tanto quanto ultrapassado, e você tem todo direito de achar que isso é um discurso de um gordinho se justificando, mas o que na verdade quero dizer é que existe algo que nos controla, nos manipula, nos condiciona: a imprensa. Vender uma imagem é interessante para eles, que venderiam até a mãe em troca de audiência. Não concorda comigo? Tudo bem, mas pensa bem: você já viu uma gordinha como protagonista de alguma novela ou filme, salvo aqueles que falam do tema? Você já viu algum feio, feio mesmo, aquele que parece que fez cirurgia para ficar mais feio se tornar galã de novela das oito? Fecho com uma singela indagação: você tem certeza que já assistiu Malhação?. Mas dizer que eles são os únicos responsáveis por isso é querer inventar um bode expiatório. A culpa é também nossa, que, como elfos, seguimos e fazemos passivamente tudo o que eles pedem para fazer.



Repito: a beleza é muito mais abrangente. Pessoas bem humoradas, daquelas que têm prazer em rir sem medo de ser feliz. Pessoas com conteúdo, sem precisar serem doutores em Física em Havard, mas que saibam falar sobre tudo sem ficar perdido. Conheço uma pessoa que vai da fofoca mais recente no show business até a concepção do tempo para Einstein, passando pelas teorias teológicas da criação do mundo, com a mesma naturalidade de quem está falando de um mesmo assunto coerente. (Só não conto quem é porque o meu espelho denuncia). Pessoas inteligentes para mim não são seres que não erram uma concordância verbo-nominal sequer, que esbanjam conhecimento, que leram Nieztchie ou Kant, e etc. Pessoas inteligentes são aquelas que, independente de falar certo ou errado, ter cultura literária ou não, sabem se colocar, tem coerência no pensamento, sabem responder a pergunta:quem é você? Pessoas charmosas, isso é uma coisa que se eu pudesse optar em ser, eu seria.São pessoas carismáticas, possuem um magnetismo que as tornam imãs, independente de características físicas.Não obstante as controvérsias, o Jô Soares é um exemplo,para mim, de homem charmoso.


Enfim, chego a conclusão de que não existe uma beleza, mas uma multiplicidade de belezas. Uma combinação que tem a diversidade infinita. Descobri a pólvora, diz você talvez. Pode ser, mas vai a uma academia, principalmente na parte do Voador, do Supino e, sobretudo, do espelho onde um monte de homens se exibem e se comparam e fale isso. Mas vá acompanhado por um segurança de tamanho, no mínimo, 3 X 4 metros.


São tantos os itens que tornam uma pessoa bela que me perderia aqui divagando sobre cada uma dela. Mas desses breves elementos fica a pergunta: porque a beleza física em primeiro plano? Explicação óbvia é a de que houve uma inversão de valores. A explicação verossímil é de que é muito fácil ficar “bombado” do que uma pessoa mais...que palavra dizer...culta! Por que não entender que nem todas as pessoas querem esse padrão de beleza fugas? Por que essa exaltação exacerbada do corpo, que, ao taxarem os gordos ou magrelos de ‘pessoas com falta de força de vontade’, marginalizando os que fogem ao padrão de beleza, esboçam o que eu diria de “fundamentalismo corporal”?


A cada dia mais percebo que caí de pára-quedas no século XXI, não sou e nem quero ser vassalo desse tempo. Acho a Monalisa bonita sim, adoro mulheres de óculos (Ficam tão mais encantadoras), amo Vinicius de Moraes, mas acho sua frase de “Desculpem-me as feias, mas belezas é fundamental” uma grande bobagem. Gosto de mulheres que se dão valor, que saibam ser sensuais sem apelar para um decote, ou para microssaia e mini-top que as fazem serem confundidas no ponto de ônibus com...vocês-sabem-quem...(Presenciei essa cena hoje, e te garanto que em menos de 15 minutos foram mais de 10 carros parando e perguntando...Lamentável, mas fazer o quê?).


Sou daqueles que se você perguntar a um grupo de pessoas, que acabaram de me conhecer , o que acharam de mim, nunca terão como resposta: ele é bonito. Pelo contrário, escutarão muitos “Legal”, “Simpático”, “Palhaço”, “Falador”. É viva a lembrança de chegar em algum lugar com a minha irmã e o povo comentar para os meus pais: “Nossa, sua filhota é linda! Parabéns... Ah! O seu filho também é bonitinho”.


Se eu me acho feio? Sim, felizmente.


Se me incomodo com isso? De forma alguma...



Mas to me achando gordo, acho que vou começar uma dieta, que tal?


Musica do Post: Chocolate – Marisa Monte.



PS. Post feito à base de uma caixa de bis...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Insegurança, seu nome é Nelton.



A melhor coisa sobre o amor é sua constante incerteza. Um dia você está seguro, sabe exatamente o que está se passando com você, então numa semana inteira de angústia, sua certeza desaparece e você não tem mais certeza de nada.
Li essa frase um dia desses, e, contrariadamente, tenho que concordar com o autor de tal frase. Só não concordo que seja a "melhor coisa sobre o amor", não para mim, alguém que tem a insegurança como uma das características principais, só perdendo para a alegria "em excesso", e para o amor o primeiro lugar das características centrais da personalidade Nelton Araújo. Pelo contrário, é o que me mais incomoda: ser inseguro dá a impressão, por vezes falsa, por vezes verdadeira, que falta confiança no outro. Não é meu caso,mas a descrição de como é a incerteza numa relação é perfeita: você acorda, e bate uma insegurança, como se aquele dia fosse o último dia, como se daqui a algumas horas tudo se esvaísse por suas mãos, e aquilo que você tinha como mais sólido no dia anterior se desmanchasse no ar. Motivos para isso? Nenhum, e você têm consciência disso. Isso te faz sentir calafrios, te faz perder o belo dia de sol infernal com uma preocupação na cabeça, afinal, ninguém gosta e quer perder algo que ama mais do que você mesmo.


Talvez seja essa a explicação: amar algo mais do que você. Você se esconde por trás de uma paixão, deseja naquele objetivo de vida, seja profissional ou sentimental, aquilo que, na verdade, você deveria desejar a si próprio. E quando aquilo se perde, não estamos preparados para a frustração.E ninguém consegue estar preparado para a vida se não estiver preparado para enfrentar uma frustração. Particularmente, eu detesto estar no meio termo, e embora entre o 8 e o 80 existam uma diversidade de graus de intensidade, posso dizer que, quando me envolvo com algum projeto ou com alguém, entro de cabeça. Mergulho e corto os oceanos, e por mais que saiba que isso possa me machucar, não encontro melhor maneira de me envolver.


É o perfeccionismo de minhas veias que pulsa nessas horas: quero ser o melhor profissional, o melhor namorado, o melhor filho, o melhor músico... Utopia, eu sei, mas prefiro estar sempre em aperfeiçoamento a me conformar (ô palavrinha que deveria ser limada do dicionário e de nossos corações). Sou daqueles que morreriam feliz se fossem pobres mas realizados, na profissão que realiza, na família que constitui, nos amigos que têm, do que pessoas cheias de grana, ou pelo menos, estabilizadas mas que não suportam o lugar onde trabalham, vivem um casamento de fachada (Estranho para o século XXI,né? Conheço uns montes), que têm o carro do ano, mas não têm amigos para conversar. Talvez seja por isso que tenha tanta incerteza na minha vida profissional. Os estudos de 4 intensos anos na faculdade para mim são recompensadores numa monografia, avaliada com 10 "com louvor", de final de curso. E são considerados ineficientes no dia seguinte que fui levado ao paraíso, quando vi que não passei no mestrado. Posso até nesse momento, mais tranqüilizado e mais racional, saber que estou novo, que não foi culpa minha, mas que na hora bate a insegurança e você se pergunta se é isso mesmo, ah, não há dúvida que bate. Vejo milhares de rostos se formando e indo para o mercado e fico me perguntando se sou capaz a me sobressair dessa multidão.

Da mesma forma acontece com quem está do meu lado, com aquela que eu digo que eu amo. Nunca, mas nunca mesmo acredito no meu potencial. Sempre acho algum defeito em mim, to sempre inventando ou achando algum problema para dizer que não estou agradando. Sempre acho que os ex's foram melhores e que os que dão em cima são superiores para mim. Pura insegurança, eu sei, mas vai explicar isso para a parte do meu corpo que me faz tremer quando não escuto aquele "eu te amo" que esperava, quando não recebo uma mensagem que estava desejando. Nesse instante, a cabeça gira, os sentimentos se confundem, imagens que você nunca viu, mas que tem certeza que já sentiu passam como num filme sobre o seu fracasso. ô cabecinha fértil, por que não acreditar que ela pode estar te amando também? Porque dá ouvidos a vozes de que não sou capaz de estar com quem estou, de que não sou o bom o bastante?
Mas uma hora isso passa, ah, passa!


E quando essa crise de incerteza passa, surge a nuvem da segurança. Passageira, evidentemente, vem e fica algumas horas, quiçá, alguns dias. E tal como no quadro que ilustra o post, a sensação que dá é que, mais cedo do que posso prever, a certeza que tenho sobre a vida, a segurança sobre tudo, se derreterão tal como os relógios...



... e tudo começa de novo. Estranho, não? Bem vindos ao mundo dos inseguros.





Musica do Post: Boa Noite - Djavan.