quarta-feira, novembro 25, 2015

In My Lifetime...(ou "And the Loser teach is... ")


PREFÁCIO
Primeiro de tudo eu tenho que admitir: eu gosto de Hip Hop, Rap, e todas suas variantes. Agradeço a todos os homens das quebradas americanas por alegrarem meus dias, seja em um quando estou apenas livre correndo ou quando estou jogando meu Xbox,  ou mesmo deitado sem fazer nada.  Agradeço desde o moleque Silentó e “watch me”, até Grandmaster Flash e “The Message”, talvez a primeiro início desse movimento do Hip Hop. 

Como um “intelectual” um “professor de História” e outros rótulos que mais me empobrecem que me definem, é meio um heresia afirmar isso, ao mesmo tempo que afirmo que amo Bossa Nova e MPB. Todavia há musica para todo momento. 

Mas dentre todos, o “cara” para mim sempre foi o Jay-z. Lendo sua biografia agora minha admiração aumentou ainda mais. Admiro as suas letras, admiro um cara que tem uma persona que mais parece que come  90% das mulheres gostosas dos EUA (e contando...), é tão generoso e carinhoso que faz aquela fortaleza da Beyoncé (que poderia ter 90% dos homens de face da Terra... e contando...) chorar de saudades e colocar isso num DVD. Admiro o Império que ele criou, mas, acima de tudo admiro a sua capacidade de falar o que levaria cinco páginas em três versos, e explicar melhor que eu...Suas letras em geral falam de uma vida –não politicamente correta que ele viveu, enriqueceu, e quis sair, e foi bem sucedido – E, apesar da ostentação com bebidas caras, Iates, Porsche, mulheres, típica do famoso “Gangstar Rap”, se prestar bem atenção, ele sempre termina seus discos dizendo que o final disso tudo é tortuoso, é cruel, triste, e solitário – seja no abandono, seja a sete palmos do chão, cravados de bala. Sua mensagem é clara: “Moleques, saiam dessas!”

E o que isso tem a ver com minha história? Bem, eu nunca fui traficante, hoje não sou rico, não acabei de beber umas 6 garrafas de Cristal e nem voltei do meu trabalho com minha Porshe. ..Ok, tenho um anjo linda e maravilhosa que suspira de sono ao meu lado agora... mas, eu onde quero chegar é que, contraditoriamente, a música que mais gosto eu não posso tomar para mim. Ele pode estufar o peito e falar e cantar “And the Winner is...”, afinal, ele veio, viu e conquistou. Eu deveria cantar “And The Loser is...”

Então, vamos ao meu Speech! Afinal o Loser Teach  in the building tonight!


I. 

Tal como o Jigga, eu desde adolescente já tinha um sonho a viver. Queria ser professor, Não sabia de quê, mas professor. História caiu no colo por eu justamente gostar de ler História e odiar a forma que TODOS tentavam em vão me ensinar. Dormia, matava aula (meus pais não estão lendo isso, né?), mas era eu que ensinava aos meus colegas nos tempos vagos nos fundos da minha amada Adolpho Bloch.  E de tanto sonhar, tinha hábitos esquisitos, tais como descer um ponto antes da Escola e ir sonhando acordado em como eu seria como professor. E com dezesseis anos eu já tinha definido como seria: alguém que fizesse com que os alunos tivessem prazer, e não obrigação, de ir à Escola num sábado as sete da manhã, como meu professor de Geografia, Luciano, despertavam em mim. 


Agradeço ao Luciano, todas as piadas non sense, e comparações toscas que fizeram meus alunos rirem nesses dez ano de magistério.

Daí veio a faculdade e a descoberta do que era realmente estudar. Aluno “exemplar” até o terceiro período, quando conheci o professor de Teoria da História, Paulo Cavalcante. E ao contrário de todos os professores, ele não lia o texto na sala, não dissecava linha por linha do texto no quadro. Pelo contrário, ficava sentado na mesa, montava a sala em U, mudava sua posição na sala para nos tirar daquele foco tradicional de aula. E eu me via que não precisava escrever uma linha do que ele dizia (e olha que era uma matéria extremamente abstrata), eu lembrava de tudo... transformava sozinho informação em conhecimento, instâncias diferentes.  Mais. Eu lembro de quase todas as aulas dele. E de todos os professores que eu sequer tenho uma anotação num caderno.  Em compensação, aquelas primeiras anotações eu releio e me pergunto “eu estudei isso? Gente, o que ele estava dizendo nesse dia?”. 

Agradeço ao Paulo a me apresentar Rubem Alves e definir que minha didática seria de não ser um “conteudista”, não encher o quadro branco de informações, datas e nomes, que fariam alunos entendiados e pais felizes, pois, ainda hoje, pra boa maioria dos pais, professor bom é aquele que acaba com livro e o caderno tais como se fossem papel higiênico: tem que ir até o final. 

Com essas letras e sampleando a batida de “Estudo Errado” de Gabriel, o Pensador (“Manhêeee, tirei dez na escola”...), eu partir pra começar meu Rap. Passei no mestrado, passei no concurso público, e, um moleque gordo e nerd que estudou numa escola municipal perto do Morro, que viu pais de amigos assassinados, que viu amigos perderem para as drogas, que viu o descaso de professores e do sistema, tornou-se um um professor de história politicamente correto  relativamente com uma estabilidade financeira, que me faz, apertado, a realizar seus dois sonhos de consumo: comprar camisas de basquete originais e viajar. Saí ileso de um discurso  de que nunca seria nada, saí ileso da descrença da minha família de que estava desperdiçando meu talento escolhendo ser professor,  fui atrás do meu sonho e transformei toda minha amargura em missão: Queria fazer acreditar neles, em confiar em seus sonhos, em não se abandonar, e de descobrir que são nos piores momentos que nos definimos, e que, apesar do mundo não ser cor de rosa, e terem que ralar muito, com um sorriso no rosto mostrar que era possível, e fato, serem melhores do que eu sou hoje. 


II.

Só que o Comando Delta, da outra quebrada, ao saber dos meus planos, vieram em massa, me apresentando algumas coisas que não sabia.

Disseram para eu pegar e mudar  um sistema onde se premia o que deliberadamente não quer nada, ou seja, escolheu isso, a aquele rala, estuda, ao dar ao primeiro passeios, mãos na cabeça, aprovações non sense, enquanto o segundo não fazia mais do que, como dizem meus colegas, “mais do que sua obrigação”. O governo, para nos dar migalhas de um 14º salário no ano seguinte, colocavam professor contra professor, nos fazia aprovar quem não merecia, aumentar e camuflar as notas, as faltas, os números, nos tornando prostitutos da educação. Perdia minha dignidade enquanto professor e Gritava em vão. Mas sobrevivi. 

Ao falar em meus colegas, me mandaram pegar e mudar uma classe que só pensa só para si, que querem que seus alunos sejam cópias perfeitas suas, ovelhas tais como súditos de um pastor evangélico:  acríticos, deixando serem oprimidos com medo da retaliação do opressor ou, pior, acreditando que era esse curso natural das coisas. Professores que na sua maioria, não se envolvem, estão pouco se fudendo para o tal “currículo oculto” e, em pleno século XXI, ainda rotulam seus alunos pelo lugar que sentam e pouco se importando que os melhores alunos podem ter problemas tão ou maiores que o jovem infrator que surge na sala. Fihos que, como eu, serviam de valvula de escápula de seus pais e se tornam a “carniça”  de pais adolescentes doentes: surras, palavras de desamor, de desencorajamento, e, não é raro, abuso sexual que, se lhe fossem denunciados, daria cadeia e os fariam as mulherzinhas da cela. E, todavia, ainda assim, professores não ligam a mínima para isso.


Não sejamos hipócritas: certos professores dão nota pelo estereótipo do aluno, mais do que ele apresenta em sala em desempenho. A Loirinha linda avoada que senta na primeira fila é sempre 9, 10, enquanto o o preto, de cabelo pintado e que vem de boné e fazendo "passinho" e escutando funk, mas que é mestre Jedi nas matérias é sempre 4, 5, 6 no máximo. No início, gritava em vão, mas depois descobri que a melhor maneira era ficar quieto, morrer por dentro, contorcendo meus rins,  em todos os Conselhos de Classe, e, mesmo já mais combalido, cumprir minha missão com os alunos. 

Nota é um indicador, uma virgula, não o ponto final para uma avaliação. Politicamente incorreto, aumentava as notas daqueles que eram excelente articuladores em sala de aula, mas péssimos escritores. Afinal, Jay-Z jamais escreveu um Rap, falava tudo ali na hora, tudo estava na cabeça.Então, pegava os texto, corrigia os erros – incontáveis – de português e dava para refazer, mas sem humilhar, como muitos professores de português faziam com eles, que viravam a “carniça” desses professores em horário comercial.  

(E se você, colega, e se sente ofendido, desculpe: o botão de voltar é a sua esquerda, e a carapuça está ali do seu lado)


Perdia, gradativamente, como um tiro lento atrás do outro, minha esperança. Mas mesmo relutando contra o rótulo de Dom Quixote, sobrevivi. Vendo mais sangue no chão que no meu corpo, mas sobrevivi. Tinha que sobreviver para poder falar ao máximo de moleques,  ali escondidos naquelas sombras, “Saiam dessa, moleques”. O final seria cruel, pressentia.

Não satisfeitos, o comando delta me mandou pegar e mudar os pais alunos responsáveis . Mudar sua expectativas de vida sobre seus filhos. Colocaram-me em uma escola não de periferia, mas quase de área rural, longe de tudo, onde pais não querem que eles façam uma prova para um ensino médio gratuito de qualidade porque “não quero ver meu filho longe, pode ser ruim pra ele com essas más companhias”. 

Se é ruim para eles deveria ser pra mim, que me deslocava sozinho de Cascadura às cinco da manhã e uma hora depois estava numa escola técnica entre o morro da Mangueira e a Quinta da Boa Vista. No caminho, via clipes de Marcelo D2 na TV do ônibus (Salve, aliás, D2!), passava por prostituas em final de expediente na quinta e dava-lhe um olhar simpático e um bom dia sem segundas intenções.  Sentia cheiro de maconha ao meu redor todo tempo. Meus pais deveriam me odiar para me mandar para um lugar disso, mas é de todo os defeitos que eles têm, a falta de confiança no seu filho não era uma.  

E nunca me deu vontade de “puxar um” para me sentir “parte do grupo” ou por me sentir influenciado pelas letras do Planet Hemp. Andava só com meninas e não me tornei influenciado em ser homossexual, como todos achavam, até hoje. Não era dos mais populares da escola, bem longe disso, mas andava com o grupo que gostava das Boys Band, andava com a turma dos “evangélicos” e participava, de verdade, dos cultos alguns dias. Andava com a turma do Rock, com a turma da MPB, descobri que uma escola 30’ dali dava aula de violão gratuito e eu influenciei uma porrada de gente a fazer curso. 

Ou seja, pai querido que adora ver seu filho em uma gaiola, seja como adorno, seja com medo de perdê-lo, não é o local que influencia, é se seu filho é influenciável.  E, sangrando, luto com pais que não  querem gastar dinheiro com seus filhos e reclamam de qualquer trabalho que faça a ousadia de “tira-los” da internet, a nova babá do século XXI: cuida deles, deixa-os sem vontade comer, de beber, e vivem alienadamente, mas “seguros” dos perigos desse mundo cruel. 

Perdi a esperança,  e gritava. Mas sobrevivi, sem muitos reflexos, sentado e me sentindo sozinho, olhava para trás, e via uma enxurrada de olhinhos na sombra, virava pra frente e esporrava “vou até o fim! Esses gajos estão vendo tudo isso e vão me ajudar. Alguns me ajudaram, mas tiveram que partir. Aguenta firme, Scarface!”

III.
Por fim, e com sorriso de soslaio, o Comando Delta veio mas pra frente, me mandou sua última carta: mandou pegar os tais olhinhos nas sombras e transformá-los, tornando soldados meus. Olhei para trás e de cada viela sombria, tentei escolhi uma. E pra minha surpresa, quase todas  vazias,  e quando dei conta e olhei pra frente de novo, estavam armados ao lado do Comando que tanto lutei e falei contra: tinham se abandonado, sim, SE ABANDONADO, acreditando que sua Via Crúcis era aquela, que o que falava era uma falácia: nasceram para estarem ao lado do Comando Delta.

Levantando, chamei a sombra mais nova, mas a preferida: foram quatro anos de preparação para não se juntar aos opressores, a não se oprimirem. Testes foram feitos com aparente sucesso.  Risadas, conselhos, choro, troca de confidências e de experiencias me fazia acreditar que seríamos um time. Não para sempre, pois eles teriam que partir, eles deveriam partir, mas me ajudariam naquela hora. Chamei uma, duas vezes, e vieram relutantes. 

Fui mais incisivo e olhinhos deram lugar a expressões sérias, indignadas, afinal “quem era eu para fazer isso com eles, tão jovens?”

Outros saiam das sombras com um sorriso debochado enchendo a boca: “Quem vou defender? Ele? O que não dava conteúdo e só sabia falar das viagens e do café da manhã de sua esposa?”. 

Outros saiam passivos, omissos, não querendo aderir a nenhum grupo, mas esquecendo daquela lição de quem se omite acaba descambando para o grupo dominante, tudo que eu não era naquele momento.

 E meia duzia de soldados falando “Vamos,Nelton!”.

Não dera tempo: as balas atravessaram minhas costas e já de joelho, percebi que nenhuma bala saiu do Comando Delta, saiu daqueles olhinhos outrora envergonhados, outrora medrosos que entrei em muita briga para defendê-los. 

Já não havia mais alternativa: me faltava apenas ou uma rápida ambulância, ou o tiro de misericórdia.
Agora gargalhando e zombando do “OTARIO” aqui, o Comando Delta me perguntava o que eu ia escolher.

Fechei os olhos e relutei. Não era vítima: eu escolhi isso, eu errei muito. Gritei de raiva na hora errada inúmeras vezes, quantas vezes deixei-os esperando ávidos pela próxima lição e não aparecia? Quantas vezes fui preguiçoso e também dei notas pelo preconceito do senso comum?  Quantas vezes me vendi por migalhas para comprar camisas como essa que visto, branca e vermelha, vomitando sangue? Quantas vezes dei prioridade às minhas coisas, e esqueci da minha missão?

As armas engatilhando me lembravam que já estavam impacientes. Levantei, com ajuda dos poucos daqueles que acreditavam que eu entrei nessa só para vê-los numa situação diferente dessas e que agora estavam recebendo ofensas de “súditos”.

Olhei com os olhos marejados para cada um e para todos que naqueles dez anos eu tive a honra de mais aprender que ensinar que vieram correndo ao saber do que ocorria em praça pública. Mesmo com os olhos embaçados, enxerguei cada um, suas carinhas de consternação.

Olhei para todos e num gesto covarde, levantei as mãos, em rendição. Não aguentava mais, já não suportava mais.Muito embora não tivesse medo de morrer, e sim medo de não tentar, desculpe Deus, você errou e me deu  um anjo que preciso cuidar todo dia quando ela sai e volta do trabalho. E não quero deixá-la tão jovem. Tampouco transformando em enfermeira particular de um louco. Ela merece mais que isso. 

Pedi, então, que apenas não matassem os que me deram pelas costas, que eles nunca mais me veriam. Melhor, me veriam, mas cumprindo a cartilha deles, por pura necessidade, tais como tantos outros colegas de sala que tenho contato. Assentiram, E, de cabeça baixa, sem coragem de quem puxou o coro entusiasmado de “Vencemos! Vencemos!  Um pouco antes do general do Comando Delta, descumprir o acordo e  mandar executar em todos  que estavam na sua frente, salvando apenas aquela meia dúzia que me ajudaram a levantar. Muito mais por astúcia desses que por generosidade do General. Enquanto a tudo isso fui caminhando sozinho e cambaleante para a emergência mais próxima, vendo o mundo girar e apagar assim que deito no primeiro leito que vejo.


EPÍLOGO

Hoje, ainda respiro por aparelhos no hospital, mas já consigo pensar e sentir:  frustrado,  descrente da mudança, amargurado, sem força e já vendo os contatos com as leis de direito e da língua portuguesa para mudar de quebrada quando sai daqui. Qualquer uma, mesmo aquela que não dê satisfação, mas condições de viajar e correr mais vezes. Recuso-me qualquer papel de herói ou de vítimas, mas me dói reconhecer que não sou nem sombra daquele moleque de 16 anos que andava pelas ruas de São Cristóvão sonhando em ser professor. Hoje preciso de remédios para dormir e sonhar já é, em si, um sonho.



Enquanto isso, os corpos executados estão estirados e abandonados pelas ruas, já em decomposição e sendo banquete de toda sore de ratos, bactérias e urubus. 

Já o Comando Delta, em algum canto da cidade, levantam as taças cheias de Belvederes e gritam “Nós somos os vendedores do anos, os drinks são por conta da casa”

***

2 comentários:

Adaleny Paiva disse...

Enquanto estava lendo me deu uma vontade de chorar. Lembrei daqueles 4 anos e de todos os problemas que cheguei a ver.Onde muitas vezes vi a faca em seu pescoço.
E aqui onde estou agora me vejo sendo só mais uma no meio dessa manipulação. Onde as almas na sala de aula não passam de números. Onde as aulas não passam de uma forma de fazer com que vc decore o conteúdo para tirar o famoso 10, que por muitos mesmo assim não é alcançado e esses ,por fim, viram números falsos. È triste saber que isso que escreveu está longe de ser uma ficção.

Roberta Sousa disse...

Eu chorei.