terça-feira, dezembro 09, 2014

#HASHTAGS


Estou prestes a completar dez anos de formado em 2015. Mas só de magistério tem quase duas décadas, desde que entrei naquela salinha da escolinha dominical da Igreja onde frequentava (obviamente por conta de um rabo de saia). Não estufo o peito para dizer que os alunos dizem que sou melhor professor de História que já tiveram, tampouco que sou o mais popular. Assim como os cafajestes, só que mais inocentes, eles falam isso para todos. Ou irão falar.  O que me deixa com os ohos marejados, coração palpitante, peito de pombo estufado e sorriso de orelha a orelha por uma semana não é quando vejo que decoraram todos os nomes, datas e aquelas coisas chatas, mas necessárias, da História. Mas é quando eu vejo eles formulando uma opinião com suas próprias pernas ou, sobretudo, quando soltam, corajosamente a uma sala emudecida

- Nelton, eu discordo

Como professor (e isso extrapola os limites do magistério), meu objetivo não é corrigir, enchê-los os alunos de informações e, sorrateiramente, estabelecer “mini-nelton”, onde todos pensam igual a mim, todos me seguem, me veneram, me copiam. E acredite, isso é extramente fácil de fazer. Sinto-me apenas na obrigação de orientar os caminhos, apresentá-los, debater ideias e deixá-los livres a questionar: a mim, a sociedade e em ultima e principal instancia, a si próprios.  Dei aula num pré-vestibular no auge do Rock Emo e via aquela meninada toda com sombrancelhas feitas, pinturas de lágrimas no rosto e todas as parafernalhas.  Se houvesse hashtags na época como hoje, #emocomorgulho seria uma que mais bombaria.  Enquanto outros professores esculhambaram a molecada, eu simplesmente tirei um dia, fui na hora do intervalo para o local mais legal do pré, o pátio dos alunos (o mais chato é a sala dos professores, sempre) e simplesmente comecei a fazê-los questionar “Você sabe realmente o que está fazendo ou apenas moda?”.  Não, não queria acabar com a brincadeira deles ou torná-los chatos, apenas serem conscientes do que estavam fazendo. Mesmo porque eu e você em frente a essa tela que nos divide estamos o tempo todo sendo influenciado por modinhas. E não seguir a moda é uma moda.

Se tens pensamento crítico, para mim, já está preparada para novos caminhos. E pouco importa se você sabe onde foi que Pedro Alvares Cabral desembarcou pela primeira vez, o ano da morte de Guilherme VII ou porque D. Pedro I abdicou do trono.  O que tenho medo é que se tornem cidadãos passivos da sociedade, aprendendo que não precisam se esforçar para ter uma opinião. Hoje, moleque, basta seguir a do professor ou dos seus Pais, mais a frente, de qualquer outro veículo, que sob o manto da idoneidade e da imparcialidade, escondem interesses outros. Em uma palavra resumo: alienação.

E tá cada dia mais fácil esse meu ofício. Eles, meninos e meninas de tudo, já sabem que não precisam se esforçar para ter modelos, referencias, ideias. Há dezenas de caixas espalhadas por aí que eles só precisam entrar e seguir o protocolo passivamente. E quando saio do colégio e tento espairecer em outro espectro, o da corrida, eu simplesmente vejo a mesma coisa.  Homens e mulheres se rotulando por detrás de hashtags de projeto de fitness que só simplificam uma complexidade humana que tanto almejo.  Mulheres e homens seguindo pessoas como se fossem um mito, um profeta que tens os caminhos para o bem-estar e ou a superação de vossos limites.  Na grande maioria, sem racionalização. Soltam hashtags para fazer parte da tribo, em uma necessidade de pertencimento a algum micro-grupo nesse oceano cibernético.  Você, no íntimo, até querer nada contra a corrente, mas tem medo de ir sozinho. Ninguém quer nadar sozinho em direção contrária a maré. A não ser que seja essa a tendência.

Daí a fama repentina de inúmeros blogueiros. O ego, esse fanfarrão, se inflama de tal forma que você se esquece das primeiras ideias para um diarizinho virtual e passa a se auto-intitular formador de opinião. Mais. Passa a agir como se fosse. Quer dizer, num mundo onde é permitido se editar, retocar e camuflar os defeitos, você pode agir como eles, a multidão, a massa, espera que você aja. Sim, porque se não é regra, é tendência atual que nós criemos padrões de condutas para o alheio, mesmo que não haja razão alguma palpável para que se tenha essa expecativa.  O blogueiro vira um ser mitológico, que conduzirá seu povo rumo a Canaã, sua terra prometida, seja ela a barriga tanquinho da fulana do blog y, os 15 quilos a menos que a menina do instagram Y conseguiu, aquele sub-alguma-coisa que os fulanos do portal Z alcançaram, ou, agora finalizar aquele projeto de fazer uma maratona que você leu as meninas de um blog.  Não é a barriga tanquinho que você sempre quis, não são os 15 quilos a menos que você realmente precisa, e ninguém vai te amar menos se você fizer sub ou sobre ou se correr 5km ou 42km, mesmo porque quem não é da corrida não sabe mensurar essa diferença. Não são suas ideias, seus conceitos, seus modelos.  São os dos outros, você vive outra vida que não a sua, sonhos que não são seus. Exatamente, vc entra na caixinhas assim como meus aluninhos do ensino fundamental.

E, infelizmente, eu e alguns amigos e amigas que passaram a escrever sobre corrida e suas experiências acabamos entrando nesse barco.  Escrever, ao menos para mim, é catarse, é forma de me expressar, de brincar com as palavras, de colocar emoção em caracteres frios escritos no silencio da madrugada.  Inspirar, sim. Modelar, jamais.  Escrevo há dez anos, sobre corrida há quase dois, e já li de tudo no meu inbox do face: desde elogios sinceros sobre o texto e a forma, até pedidos para eu ser o treinador de algumas pessoas (o que não é raro, acredite!) e um assustador “Um dia quero ser como você”.  Alguns amigos mais famosos me mostram que certas pessoas até mudam seu login e copiam estruturalmente para ficar igual a do seu ídolo blogueiro.

Isso assusta, porque ninguém, NINGUÉM, sabe realmente como sou por alguns posts de facebook, alguns textos de blogs, um par de tuítes e alguns dígitos no tempo final de minhas corridas. E quer saber? Não quero que saibam. Se posso compartilhar experiencias e as pessoas aproveitarem isso para criarem as suas, terem o seus modelos,  que sejam parecidos ou radicalmente contra os meus, excelente. Mas não me ponha numa redoma de vidro e coloquem num altar, esperando certos padrões de condutas. Eu não sou atleta, posso amar correr e correr forte, pode ser que minha diversão hoje seja baixar ainda meus tempos e que para isso tenha que fazer esse ou aquele sacrificício por um período, mas não esperem de mim coerência. Eu posso postar uma foto comendo um saco de M&M de 1kg que ta guardado aqui, ou virar a noite num barzinho bebendo e falando qualquer merda sem ser corrida. Pode ser que hoje eu treine muito bem e tudo pareça que estou com mega foco em algum sub em maratona e pode ser que amanhã eu simplesmente falte o treino porque...porque... ora, tem que ter porquê? Eu quis, não estava afim. Quem disse que sou exemplo? Quem disse que quero ser formador de opinião? Não, eu não quero.

E meu medo com essa expectativa que criam sobre os “formadores de opinião” é que um dia suas condutas podem simplesmente ser totalmente diferente do que esperam. É a super vegetariana que resolver voltar a ser carnívora, ou o defensor ferrenho do low-carb advogando em defesa dos carboidratos, ou a super corredora que fala “cansei de tudo, vou fazer só Hot-Yoga” ou corredor que treinou feito cão para a maior maratona do mundo e abandona a prova no km 14 para correr com a noiva. E as hordas de admiradores, como ficam? Não era isso que esperávamos, o que vamos fazer? Não temos mais paradigmas a ser seguido, estamos perdidos. A sorte é que para cada um blogueiro se desconstruir para que seus leitores o vejam como apenas um, há trocentos pulando e gritando “Venham comigo, sigam meu modelo. Não pensem, não questionem, não falem. Apenas continuem a nadar comigo. Continuem a nadar. Continuem....”

Como brinco com meus alunos, eu não sou um super-robô que espera o último aluno a sair da sala, me dirijo ao armário, entro e desligo automaticamente para despertar no dia seguinte. Sou de carne e osso. Amo, desamo, odeio, tenho amigos, tenho pessoas que me querem mal, tenho pessoas nas quais desejo que se ferrem lindamente, não porque eu quero, mas porque precisam se fuder no meu ponto de vista. Acerto, erro.  Contradigo-me o tempo todo: um dia quero correr forte uma prova de 10k, outro dia to pensando em parar de correr e ficar só puxando ferro.  Todo ano amaldiçoo os desgraçados que organizam a São Silvestre, mas todo dia 31 to eu lá, correndo com sorriso no rosto. E depois que chego, blasfemo tudo e a todos e digo que é impossível correr lá.  O que sou nas redes sociais, apesar sempre ser  um pequeno retrato editado de mim por mim, é espontâneo, não tem motivações escusas, não pretendem estabelecer uma linha de coerência hipócrita, mas que é admirada por muitos. Não transformo a minha vida num press release ad eternum.  Tão hipócrita quanto é dizer que não entro naquelas mesmas caixas que alienam, que tanto adverto aos meus alunos.  Posto hashtags sim, mas gosto de criar as minhas, brinco de projetos sim, mas são meus, de mais ninguém. Porém  além de saber que faço isso conscientemente, pulo de caixa em caixa. E nunca quis ser outro alguém do que eu já sou.

Uma vez, em uma conversa, uma amiga falou que não ia muito com uma blogueira porque ela parecia meio bipolar, um tanto quanto contraditória. Eu, que conheço a linda blogueira disse “E isso é ruim? Taí a grande virtude dela: ela consegue ser exatamente como ela é na vida  off-line! Isso é um dom!”. 

Sim, pois cada vez mais off-line eu quero ser. Uma vida de mais abraços, beijos, contatos e, sobretudo, da total imprevisibilidade do que você vai falar no minuto seguinte a um bom bate-papo ao vivo. 


#fikadica

quarta-feira, junho 04, 2014

Divagações sobre dança

Geralmente, vivo num mundo particular com meus fones de ouvidos. Mas nunca em ponto de ônibus: dali gosto de escutar conversas alheias, sempre aprendo ou me divirto com alguma coisa.

Houve uma vez que escutei a seguinte frase de uma estudante de dança (presumo ser, acho, não sei): "um bom dançarino não é aquele que te faz querer dançar, mas aquele que te move, mexe, sensibiliza ou mesmo te choca naqueles passos".

Vibrei. Enfim, encontrava palavras para algo que pensava há anos. E voltei a 2007. Época que ainda lia Men's Health (sim, eu tenho um passado obscuro e negro, mas confesso que foi graças a ela que comecei a correr). E lá indicava um DVD imperdível de um tal de Justin Timberlake. Dei risada: conhecia aquele fedelho da época do N'sync e confesso que não via muito potencial naquele moleque não. Mas, benefício da dúvida, lá vamos abrir o Emule e baixar "Future Sex/Lovesounds".

Foram duas horas hipnotizados, assustadoramente.

 Para um TDAH que não consegue ficar 10' sentado num lugar sem se coçar, é de arrepiar. E não, não era pelo Justin. Sim, braço a torcer: aquele moleque tinha um potencial absurdo, tomou vergonha naquela careta, virou homem e ficou foda. Mas o que me hipnotizou eram os dançarinos. Toda aquela desenvoltura, o controle total de cada membro do corpo, a simetria dos gestos entre si, o espaço para o improviso (sim, eu adoro o improviso). Sobretudo pelo claro contraste pelo aquilo que eu não tinha. Poucas coisas eu acredito em dom, o dançar é um desses.

Mas em especial, uma dançarina me chamou a atenção. Não era a melhor nos passos, não era a mais performática, não era mais bonita. Mas era aquela que justamente mais me sensibilizava. Dezenas de dançarinos, eu me pegava prestando atenção somente nela.

O tempo passou, Justin resolveu virar um ator meia b...digo, razoável. E quando voltou ao projeto 20/20, trouxe de volta uma trupe mais enxuta de bailarinos. E quem estava lá? Sim, ela! Melhor! Mais solta! Mais vibrante! Mais apaixonante! Dessa vez não resisti: fui atrás para descobri quem era ela. E descobri que ela é melhor do que eu imaginava. O nome dela é Dana Wilson, e o video promocional dela está aí abaixo (isso é, se você ainda ta lendo isso aqui, né?)

Mas por que essa dissertação toda acerca de uma dançarina, Neltinho? Na verdade não tem razão específica, eu quis, o espaço é meu. Mas, parando para pensar bem, um pensador contemporâneo Ken Robinson em uma conferencia do TED sobre educação falou que nosso sistema educacional é feito do pescoço para cima. Queremos (mesmo que veladamente) que nossos filhos virem médicos, engenheiros, arquitetos, advogados, funcionários públicos e, se nada der certo, professores. E quantos grandes bailarinos, atores, pintores, artistas plásticos,poetas, músicos, cantores, atletas olímpicos não estão agora escondidos debaixo de médicos, advogados, arquitetos e engenheiros medíocres? Falo por mim mesmo. Com certeza hoje não teria tomado o caminho que tomei.

Então, agradeço a Dana por tornar os shows do JT mais fabulosos. Mas, também agradeço a mãe da Dana de permitir e encorajar dela ter sido uma dançarina. Assim como agradeço a cada pai e mãe aqui que incentiva seu filho a fazer um curso que não seja um "pré-sei-lá-o-que".

Arte: a gente precisa. Mais que imaginamos, menos que consumimos.


sexta-feira, julho 05, 2013

Acaso

Amo os acasos. Esses maravilhosos lapsos espaco-temporais que fazem que diferentes pessoas se encontrem. Como um bom herege, acredito que deva ser um daqueles momentos onde Deus desobedece a palavra de usar instrumentos para falar com os homens, e, ao invés disso, vem pessoalmente e coloca nós, peças do tabuleiro, lado a lado. As vezes o encontro inesperado é com nós mesmos.

Em geral, acasos proporcionam uma certa perturbação no seu cotidiano, interferindo no equilíbrio necessário. Tudo se torna imprevisível, você não tem a resposta ou o comportamento certo. A outra pessoa se torna uma esfinge, onde você vai desvendando de enigma em enigma. Assustador e ao mesmo tempo instigante. E então você começa a praticar o velho e bom hábito de escutar a outra pessoa.Sim, escutar. Não apenas ouvir cada palavra, como se fosse um ruído que atrapalhasse o que você está pensando em falar na próxima lacuna de silêncio. Mas prestar atenção na entonação, nos argumentos, nos gestos, pois escutar pressupõe outros sentidos além da audição.

Em alguns momentos caminhamos por aí e alguém cruza seu caminho. A resistência a perturbadora situação nos sugere escapar, voltar a caverna. Ou tornar desse cruzamento, uma interseção, aceitando e encarado como uma experiência valiosíssima. A cada passo, um momento em que tiramos nossas máscaras e a maquiagem; a cada rua atravessada, descamamos um ao outro, conversando sobre tudo e sobre o nada, sem medo de pisar em ovos. Permitimos a nos expor, a revelar aquele lado omitido, obscuro e sombrio, sem medo de julgamentos e, ainda assim, dar risadas disso.  Autorizamo-nos a contar piadas sem graças e falar besteira  e fazer caras e bocas como se fossemos um Mangá porque tivemos vontade e não porque quisemos bancar o engraçadinho. A cantar musica antiga sem estarmos embriagado. A elogiar sem parecer galanteio barato. De debater sobre os rumos do país, sua tese de mestrado, Woody Allen, corrida ou do projetos de beleza que há no Instagram. Aliás, falando em Instagram, e ao contrario dele, tudo aqui é #nofilter. De baixo do lindo sol de inverno entrecruzamos nossa caminhada como dois estranhos e a pertubacao do acaso permitiu que se fomentasse uma linda e fina sintonia. E só há crescimento quando saímos da área de conforto.

Mas,  no final da caminhada, já sob os olhos do luar, e a submersão de uma superficial sensação de intimidade, o lapso espaço-temporal é restabelecido bem como a osmeostase de nossas rotinas.  Quando aquelas duas sombras no calçadão voltam a ser só uma, você se lembra que perdeu a hora, o rumo e o mundo.  Culpa da inspiradora sensação de paz de espírito que este acaso lhe proporcionou.

sábado, dezembro 01, 2012

Morte e Ressureição

Sessenta segundos. Ninguém me obrigou a estar ali. As pernas bambas, o coração descompassado e a plena certeza que ali, naquela raia 1, eu tenho a solidão do mundo em minhas pernas. Dezenas  de pessoas correm juntas e aleatórias naquelas sete raias, mas estão todos sozinhos, a deus-dará de seus objetivos e planos. E quem sou eu, alem de mais um naquele vácuo de passos, suores e bufadas, olhando fixamente para aquele relógio em contagem regressiva, que se apressava para terminar aqueles sessenta segundos.

Cinqüenta segundos.  A volta a calma não é mais a mesma que na primeira vez; o sorriso não é o mesmo que dos primeiros minutos, onde, a passos leves e suaves, os músculos começavam a aquecer. Nem mesma é a  felicidade, naqueles, agora, quarenta segundos, de estar de volta aquele piso avermelhado, que  merece respeito a toda liturgia que a envolve, desde o tênis correto, até os exercícios, que, por mais mais placebo que possam ser para os fisiologistas, funcionam como um momento de concentração para que viria a seguir. Os estímulos eram ousados, e qualquer erro de inicial, por entusiasmo ou arrogância, custariam caro. Maior ousadia, maior responsabilidade. Eles tinham que ser feitos, a qualquer custo, e só eu podia resolver isso. E a experiência já tinha me mostrado, a muita dor, que a brincadeira só começaria a partir da metade, quando aquele maldito acido faria uma visitar a cada músculo de meu corpo.

Trinta segundos. A respiração, outrora já normalizada, continua ofegante, e o corpo, apesar daqueles goles gelados e do resto da água da garrafinha na nuca, permanece em plena ebulição. Os pingos de suor  repintam a pista enquanto o cabeça entra em negociação para que eu pare o relógio. Ninguém está me vigiando, ninguém me censuraria, quiçá, saberia. O corpo agradeceria, e como recompensa, me daria sobrevida  para o derradeiro e melhor estimulo. Que se foda o "No pain, no Gain", não há motivo para me maltratar assim. Só que não consigo, simplesmente não consigo: o relógio continua em sua rápida contagem regressiva já chegando ao vinte segundos e tudo que consigo pensar é que preciso fazer isso. Não penso em fazer pelos meus amigos, pelo treinador, por uma superação emergente e clichê da minha condição humana. Nesse momento sinto-me uma máquina: não há motivações, me despojo de toda sentimentalidade. Eu simplesmente tenho que fazer.

Dez segundos. Um Ultimo gole numa garrafa vazia, ultima tomada de fôlego, ultimo pensamento: "só duas voltas". Visualizo o corpo saindo da inércia,inclinando-se, acelerando na primeira curva, ansiando, naqueles primeiros vinte segundos para ver se o ritmo está adequado. A biomecanica impede que se fique olhando muito para o relógio: braços como âncoras, ditando o ritmo que as passadas curtas e mais freqüentes, a 180 bpm, tentam  acompanhar. Após a primeira volta, o pulmão parece uma bexiga vazia sem a remota possibilidade de encher. A panturrilha lateja, o medo de que ela viesse explodir só não é maior que o medo de não terminar. Não há endorfina no caminho, não há prazer, só a sensação de plenitude e dor. Na ultima curva, olhada no relógio e tudo em ordem.  Em êxtase e dilacerado, aumento a freqüência das passadas, os braços aceleram, o peito estufa, a visão turva: não vejo nada, ninguém, todo o cenário ao me redor se transforma em um grande borrão durante longos e intermináveis dezenove segundos...

 O êxtase enfim chega, em doses cavalares, e sorriso disputa espaço com a necessidade de buscar mais oxigênio e a vontade imensa de gritar, extravasar a felicidade e a dor do ato. Novamente naquela manhã, morri e ressuscitei. Quem disse que seria fácil? Quem disse que seria indolor? Quem disse que não ofegarias? Quem disse que não conseguiria realizar? As pernas estão bambas, caminho torto, mas estou pleno. Sinto-me Deus, sinto-me Lúcifer, sinto que asas brotaram em meus tornozelos e, agora sou Mercúrio.

Não tenho muito tempo para vãs divagações ou mesmo voltar a calma na respiração: olho o relógio e ele, inexoravelmente, me mostra que falta menos de sessenta segundos para o próximo...

sábado, julho 30, 2011

(Des)Encontros


Desilusão.
Nenhuma outra palavra, frase, ou mesmo enciclopédia poderia designar tão bem o sentimento dele naquele dia. Tivera cultivado com esmero cada sementinha de esperança para o que acreditava ter encontrado: o amor de sua vida. Era como se os astros tivessem combinado entre si e com Deus para promover o que considerava o mais sublime dos eventos: entre uma multidão, um olhar, um sorriso, uma conexão rara e espontânea e lá estava mais uma vítima da flecha do arruaceiro cupido. Desde então, tudo parecia ser questão de tempo: conversas até as horas mortas, admiração mútua, cumplicidade, confidências, textos inspirados. Na sua cabeça, planos, viagens, passeios, cartas e poemas de amor. Mas nada de pressa: ele já tinha aprendido que pro amor, (e, convenhamos, para a maioria das coisas), se precipitar não levaria a nada. 
Que tivesse se precipitado. Melhor um não educado que vê-la indo embora na garupa daquela moto. Vagava pela rua agora um ser que era só solidão, breu total, oco. O coração e a alma ele se esquecera de pedir de volta a ela... 
...Passaram os anos, e eis nosso amigo refeito. O coração e a alma sabiam o caminho de casa, e assim ele foi se reconstruindo. Mais maduro, mais sério, mais equilibrado, inclusive mais cético. Não tinha desistido do amor, mas sabia que precisava fechar algumas feridas para seguir em frente. A maior delas era mostrar a aquela linda moça destruidora de corações o quanto ela tinha perdido. Não queria fazer mal, apenas mostrar que no unidunitê da vida dela, ela tinha escolhido a pior opção. 
Treinou para um eventual encontro, sabia exatamente o que e como dizer, tinha escolhido a dedo as melhores palavras da língua portuguesa. Preparou-se para qualquer imprevisto, já era mestre no improviso e seu sacarsmo tinha se elevado a níveis que ele mesmo se surpreendia. Compensava o fato de não ser o mais belo dos homens com charme, simpatia e até certo porte atlético: tinha se tornado maratonista, e dos bons. Tudo esquematizado, só faltava à ocasião certa. Aprendera a ser paciente: uma hora viria, ah se viria... Sorria imaginando a cena do dia em que ele daria o troco.
            Ele só não contava com uma única coisa: as oportunidades nós criamos, voluntária ou involuntariamente. Se ele soubesse disso, não teria ido para aquelas bandas. Se soubesse, não tinha subido naquele ônibus cheio. Que esperasse outro, não tinha pressa. Mas os astros e, desconfio, até Deus, sorriam largamente com a paralisia momentânea dele ao esbarrar com seu algoz. Com cada músculo de seu corpo enrijecido, nada podia fazer apenas sorrir. E não era um sorriso qualquer era daqueles reveladores, que dispensam palavras. Sua cabeça, a mil por hora, pensava em tudo e ao mesmo tempo em nada. Tentava, sem nenhum sucesso, retomar o controle da máquina, esta que tinha sido, por tanto tempo, construída, preparada, otimizada, para um momento desses. Tudo em vão. Ao olhar nos olhos dela, a luz que refletia era tão intensa que não conseguiu sustentar por muito tempo. Para ser sincero, nem por um segundo.  Por dentro, revoltado consigo mesmo, assistia a um corpo descontrolado apenas dizer um breve “Oi!” “To bem e você?” e, depois de três pontos em um silencio cruciante, “tchau, beijos”. O efeito hipnotizante-retardado foi-se assim que ela desapareceu de sua vista, e ele percebeu o quão ingênuo ele fora. Determinadas coisas somente o tempo, se tiver boa vontade, pode nos vingar. Lançou a cabeça para trás do banco enquanto o banco partia e foi rindo, zombando de si mesmo pelo resto da viagem...
            Enquanto isso, naquele ponto, aquela moça cerrava os olhos, com raiva de si mesmo, perguntando o que deu de errado para ela não conseguir falar tudo que tinha ensaiado por anos para ele...

terça-feira, setembro 01, 2009

Polaroids (ou "e quando o pássaro não volta?)

Seis da manhã.

Eu, atrasado, entro no primeiro vagão de um trem rumo a Paciência. Seria uma segunda normal se não fosse pelo fato deste vagão estar vazio. Completamente vazio não: havia, além de mim, um casal. Minha distração de olhar a paisagem do subúrbio sob a luz do nascer do sol e os ouvidos surdos pelos fones do MP3 (hoje era Chico Buarque, pra variar) me fazem esquecer aquele casal a minha frente...

“... Quando você me deixou, meu bem me disse pra ser feliz e passar bem...” (Chico Buarque)

Como um capricho dos deuses, cantarolava essa frase quando o trem parou na estação de Cascadura. Com o parar do trem, abrem-se as portas do vagão e com elas o homem sai, despretensiosamente. E no exato momento que as portas se fecharam, eis que a moça se torna em um grande manancial de lágrimas: grossas, quentes, tristes. Não há escândalo de sua parte, não há desespero, tampouco teatralizações. Há discrição de ambas as partes: da dela, para não mostrar seu rosto encharcado e de maquiagem borrada; da minha, para que ela não percebesse que eu ali a observava e, de certo modo, compartilhava da dor dela e tentava penetrar em seus pensamentos. Pus-me a escrever ali mesmo, misturando dor, reflexão e músicas em uma linha tão difícil de dissociar.

"O que é que eu posso contra o encanto/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto/ E que, no entanto/ Volta sempre a enfeitiçar"

Mesmo na impossibilidade de entrar em seus possíveis devaneios (o dom sobrenatural que tanto almejo), me vi como que abrindo um detestável álbum de fotografias mentais. E nesses flashes, página após páginas, via juras de amor, beijos apaixonados, risos ao luar, cochichos ao pé do ouvido, a calma das mãos entrelaçadas, a sensação de completude, o da “pra sempre”, o suspiro de quem percebe que o pensamento foi invadido pela imagem do amado. E, como num loop de uma montanha russa, as imagens se transformam e as imagens mostram a angustia da solidão, os pés andando em caminhos contrários, o nada, o vazio, o vagão do trem vazio, a imagem daquela moça que, agora, coloca os óculos escuros para disfarçar sua tristeza.

"... O que me dá raiva são as flores e os dias de Sol/São os seus beijos e o que eu tinha sonhado pra nós..." (Leoni)

O castigo daqueles que se atrevem amar é terem que lembrar tortuosamente dos melhores momentos do relacionamento quando ele termina. Tal como Prometeu, que, acorrentado no Monte Cáucaso, tinha a companhia apenas de Abutre que lhe comia fígado diariamente como castigo pela ousadia de pegar o fogo sagrado de Zeus, temos nossos corações devorados pela ousadia de pegar o Amor, o fogo sagrado de Deus. Tortura-nos, de maneira igual, lembrar daquilo que não vivemos, mas que poderíamos viver. Planos, futuros, viagens, aquilo que deixamos de viver, abdicamos voluntariamente acreditando que, no fim, valerá à pena. Mas nem sempre vale...

"(...) Ah, se já perdemos a noção da hora/ Se juntos já jogamos tudo fora/ Me conta agora como hei de partir (...)"

Uma das histórias que mais marcou quando menino era aquela que o mestre, para mostrar ao discípulo que não devemos a nos apegar a nada que não é nosso, ordena que se solte da gaiola o seu melhor pássaro, o mais querido. Incrédulo, o discípulo, ao ver pássaro sair pela janela, pergunta qual a razão dessa atitude tão radical. E o mestre, na sua habitual e irritante calma, profere a célebre frase: “Se ele for realmente meu, ele irá voltar”. Esta fábula se encaixa perfeitamente nos nossos relacionamentos. Se realmente devemos libertar o outro, por qual razão não o fazemos? Ou não o soltamos com medo dele não ser nosso e nunca mais voltar, ou o soltamos, mas sempre com a convicção de regresso.

Mas... e se o pássaro não voltar? O que fazemos?

"(...) Não ter você/ cair em si/ Morrer de amor não é o fim, mas me acaba (...)" (Djavan)

Como suportar a dilacerante dor que é o fim do amor? Ele pode até não matar, mas nos acaba. O que fazer com aquele espaço enorme que fica quando o outro se vai? O que fazemos para tirar da boca o amargo gosto da frustração?Como tirar da cabeça os bons momentos que nos perturbam e deixam a sensação do “poderia ter dado certo se...”? Por que não podemos lembrar somente das brigas, discussões, defeitos, do que nos incomodava? Por que não sentir o refrescante ar da liberdade e da possibilidade de amar de novo, sem os erros de antes, só que agora mais e melhor? Por que não, numa postura de extrema maturidade (ou de frieza), entender que todos os relacionamentos são pontes para a busca do inatingível “perfeito amor”?

Enfim, por que não entender que, se o pássaro não volta, é porque nunca foi nosso?

"(...) E quando eu me apaixonei/ Não passou de ilusão/ O seu nome rasguei/ Fiz um samba-canção/ Das mentiras de amor/ Que aprendi com você (...)"

A minha tristeza naquele vagão banhado pelo sol mansinho da manhã não era por mim, era por ela. Não sei seu nome, nem sua história, tampouco se ela foi quem terminou, ou o contrário, ou se é que foi um término. Pela frieza que pareceu, deduzo que sim... Minha tristeza era saber que tudo isso que penso de forma racional e em tons mais leves, ela talvez estivesse passando de forma abrupta, dolorida...

"Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus..."

Próxima Estação: Paciência.

Um colega de trabalho interrompe meus devaneios: é hora de desembarcar e viver a vida real. Agradecido me levanto e percebo que a moça não estava mais lá: deve ter soltado em alguma estação que meus devaneios não me permitiram ver. A dor foi junto com ela, mas aquela imagem ficou registrada: tornou-se mais uma Polaroid dos sentimentos humanos que vou guardar em meu álbum...

...que eu teimo em colecionar.



terça-feira, julho 07, 2009

Upgrade U

Há uma frase sobre a amizade, daquelas que você encontra em qualquer site, que sempre me encantou: “Quando fizeres novos amigos, não se esqueça dos antigos”. Entre a multidão de citações do gênero, esta sempre me agradou mais, já que, particularmente, ela representa pra mim o verdadeiro espírito de uma pessoa “amiga”: alguém aberta a novas relações e, portanto, disposta ao risco do desapontamento e da ilusão. Mas, por outro lado, aquela citação traz em si o espírito de que a renovação, o crescimento como pessoa, como amigo, implica em também conservar aquilo que é substancial para você mesmo. No caso da frase, os amigos antigos. Mas não é raro (não mesmo!) encontrarmos pessoas que desatam os “firmes” nós da amizade com uma impressionante velocidade. Transformam aquilo que eu sempre considerei o maior dos sentimentos, até maior que o próprio amor Eros, em um objeto mercadológico, trocando e se desfazendo a partir do momento que aquilo não dá mais benefícios imediatos.

A amizade, assim como a vida, tem se tornado cada vez mais líquida, mas nem sempre de forma tão consciente e maquiavélica como parece. Na avalanche de informações, relações, pessoas, imagens, vamos simplesmente agindo, ou melhor, reagindo a esses impulsos e muitas das vezes não damos conta do que estamos fazendo – ou deixando de fazer. Consciente ou inconscientemente (não quero entrar nessa discussão) não paramos um instante para pensar, refletir sobre nossas ações, nossas escolhas ou mesmo nossas omissões... Enfim, somos como um computador sobrecarregado, eternamente ligado e sem atualização.

Observemos por um instante todos nossos atos, gestos, palavras, pessoas ao nosso redor: será que não estamos nos apegando restritamente as “novidades”, independente se supérfluas ou não, e esquecendo do que nos é essencial, independente do que é novo ou antigo? Não estaríamos nós nos afastando daquilo que é indispensável e inerente ao nosso ser em prol da preocupação exclusiva do novo, que é, por definição, também o incerto? Não é uma questão de dizer que o “velho” constitui o fundamental, tampouco que o “novo” é a matriz do superficial, mesmo porque não é bem por aí o rumo da minha prosa. É bem verdade que estamos apegados demais a quinquilharias desnecessárias e talvez nem tanto atentos ao edificante do novo. É por isso que advogo uma atualização, um “upgrade”.

Atualizar-se não é somente adquirir novos hábitos e idéias, ou novas roupas, tampouco ampliar sua rede social real (nada de Orkut ou Twitter), mas também ver revirar seu baú de emoções, sentimentos, amigos, músicas, etc., e separar aquilo que te é essencial daquilo que não é. Jogar certas coisas fora é um bom exercício de desapego, pois alivia demais a sua bagagem, porém, deve-se ter imenso cuidado, pois aquilo não voltará jamais, e, às vezes, não estamos preparados para isso. Quanto àquilo que não jogamos fora, não basta apenas deixá-lo, inerte e empoeirado: devemos retirar todo o pó, passar um bom lustre e, por vezes, fazer pequenos ou grandes reparos. E, sobretudo, colocá-lo ao lado daquela novidade de última geração que você ainda está babando. Isso requer tempo, disposição, e até doses de sacrifício, porém se não fizermos, a tendência é de se perder aquilo irremediavelmente e aquilo se tornar apenas mais uma, das inúmeras, recordações boas. E é senso comum afirmar que sempre sentimos falta daquilo que perdemos. Criamos, institivamente, zonas de conforto em nossas relações, onde nos aconchegamos e acreditamos que nada precisa ser modificado. E enquanto isso, lá elas estão enchendo-se de poeira, que de tão grossas, já encobrem e embaçam a beleza daquela relação.

Já que está parado aqui lendo este texto, tire mais dois minutinhos para um auto-exame: há quanto tempo você não liga para seus amigos de infância/adolescência para saber como está? Há quanto tempo você não sai com eles para simplesmente ficar de papo, tomando uma casquinha no banquinho do shopping (ou qualquer coisa do gênero)? Lembra-se dos seus sonhos e ideais de quando jovem? Ainda permanecem de pé ou você simplesmente se esqueceu deles? Faz quanto tempo que você não põe pra tocar aquele CD que marcou uma fase boa de sua vida? Porque você não faz uma playlist de músicas que te lembram alguém ou algo importante, ao invés de só escutar as Top 10 Hits de Julho de 2009? Há quanto tempo você não dá aquele abraço nos seus pais? Você pode ter – e eu tenho – dezenas de divergências com eles, mas são, antes de tudo, meus pais. Já tentou retirar a poeira dos seus álbuns de fotografia? Que tal convidar seus amigos pra te ajudar nessa empreitada e relembrarem o porquê vocês são amigos? Faz muito tempo que você não se declara pra sua namorada(o)? Não manda um cartão? Não recita uma poesia ou mesmo a chama de meu anjinho?

São coisas simples, fáceis, algumas precisam de Mastercard, mas maioria não...Acho que não custa tentar.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Ar...



Ali estou eu, sentado naquele banco a esquerda. Observo o mar, sinto a leve brisa cobrir meu rosto. Quisera eu ter a incapacidade absoluta de não precisar deste ar que tanto me inebria. Quisera eu ser completamente insensível ao aconchego que esta me proporciona nesta madrugada, essa paz ao sentir esse vento brando e fresco sobre meu corpo. Ou mesmo dissimular a adrenalina e a endorfina que corriam em minhas veias quando percebia que essa brisa se tornara num tufão e devastava a minha cidade. Quisera eu ser desprovido da necessidade de respirar, de, a todo instante, inspirar e expirar este ar que invade e se apodera de todo meu ser, esse ar que me faz sentir vivo, que me faz ir adiante, que me faz correr maratonas, nadar mares e subir montanhas pelo simples fato de tê-lo mais dentro de mim.

Contudo, querer não é poder (pelo menos por aqui) e cá estou: sentado, respirando, sentindo a brisa acalmar meu corpo, recuperando-me depois de ver minha cidade ser completamente arrasada em frações de segundos. Lá me encontro feliz, otimista, alegre... e morrendo por dentro. Por fora, um homem alegre divertido, carismático, até mesmo interessante. Por dentro, um homem em conflitos, em dúvidas, inseguro, melancólico. O motivo? A vida? Familia? Trabalho? Dilemas existenciais? Nada disso, apenas a incondicional e irrevogável necessidade deste ar.

Respirar um ar que não se pode buscar, que não se pode conquistar, que só pode ser apenas encontrado. Por mais que tentamos ludibriar esta regra, com receitas ali e acolá, o fato é que ele vem até você e não o oposto. E é isso que me dói mais: a impossibilidade da escolha. Não posso escolher tomar o ar do sudoeste, ou do norte, ou do noroeste: o vento vem tão subitamente, tão repentinamente, que só posso aceitá-lo do jeito como vem, sem questionar: eu tenho que respirar, eu preciso respirar. Eu preciso deste ar puro, que emana da fonte mais límpida, totalmente natural, transparente e espontâneo.

Enfim, um ar que, apesar de estar ao meu alcance, não é meu de verdade. Pode até me tangenciar, mas seu alvo é outro. Busca inebriar outra mente, aconchegar outro braço, encher de vida outros pulmões e, assim, completar outro coração. Por acaso quis o destino (este ser tão ingrato) que essa brisa passasse por mim, mas não era sua intenção. Coitada da brisa, mal ela sabe o mal que ela me faz me fazendo tão bem.

E lá estou eu ainda sentado, sabendo que procurar um outro um lugar onde aquele ar não possa estar é uma procura vã, posto sua onipresença. Então me vejo levantando com a solução: passarei a andar pelas ruas com um balão de oxigênio nas costas, desistindo de respirar...


...por enquanto.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Intensidade

Reencontrei a intensidade dos homens no instante que vi seu rosto. Não estava tão perto a ponto de perceber todos os detalhes daquele sorriso que, inevitavelmente, já me contagiava, nem tão longe que não pudesse perceber o calor por trás de seus olhos castanhos. Achava, pretensiosamente, ser eu o último ser intenso dessa humanidade tão mecânica, porém ao ver aquela face percebi que estava enganado: embora cada vez mais raros, os “intensos” ainda estão por aí, destacando-se dessa massa cada dia mais sem graça.

Se por acaso você, querido amigo leitor, encontrar uma pessoa intensa por perto, não hesite: enlace-a, não a deixe se distanciar e prepare-se, pois, como dizem os comerciais da Sessão da Tarde, “a aventura só está começando”. Faça isso sem pensar duas vezes (aliás, nem pense!), já que os “intensos” são um tipo raro, raríssimo, dentro de uma humanidade quase completamente amorfa, passiva, de indivíduos mornos, vivendo uma vida em tons pastel.

Mas como identificá-los? Muito simples. Primeiramente, não saia procurando, apenas observe. E quando menos esperar você encontrará aquele sorriso... Ah, aqueles olhos! Que indicavam, facilmente, que o que gostam são as cores vivas, vivíssimas. Cores de Almodóvar, de Frida Kahlo. E são os tons extremos que influem suas atitudes: é tão óbvio que a expressão “meio termo” não consta em seu vocabulário. Se amar, ama-se muito, e se odiar, odeia-se muito; ou é lindo ou é completamente horroroso; algo ou é maravilhoso ou horrível. Vive-se a contagiante alegria da paixão ou a dor insuportável da separação ou da solidão. Aquele lindo rosto diferenciava-se daqueles tantos outros que eu via que a rodeavam: não acham as coisas e/ou as pessoas “legalzinhas”, “maneirinhas”, não consideram “normal” um mega evento, uma festa, uma promoção ou mesmo um esperado encontro. Aquele sorriso indicava-me que por trás dele habita uma pessoa que vive ou nos 8 ou nos 80 (porque não 800? Ou mesmo 999?), sem estágios intermediários, buscando sempre o máximo de si, almejando sempre, mas sempre mesmo, o extraordinário que cada instante do presente pode oferecer.

No instante daquele olhar, esqueci-me do que fazia e me peguei devaneando, procurando saber se aquela intensidade era parecida com a que supunha ter. Será que ela teria, assim como eu, o amor como o tema central de sua vida? Pois, afinal, tudo envolve o amor para um “intenso”: a busca contínua pela pessoa especial, por amigos leais, sinceros, confiantes e eternos, por um emprego apaixonante e motivador, por um sentido de viver e até mesmo pela música perfeita, que ora seja em tom maior e uma letra que descreva toda sua alegria, ora seja num tom menor e que relate toda angústia ou melancolia. Alguém que, quando ama, não o faz a prestação, tampouco homeopaticamente. Simplesmente ama, sem orgulhos, nem problemas. Que apesar dos anos sinta ainda borboletas no estômago ou aquele delicioso calafrio na espinha quando vê o amado por perto. Que o motivo de seu amor não seja o “por causa de”, mas sim “apesar de”, isto é, que seus defeitos sejam tão sedutores quanto suas virtudes.

Aqueles olhos me revelavam alguém que se entrega inteiramente ao outro, sem receios, sem “pisar em ovos”, sem deixar que os relacionamentos do passado se tornem traumas, mas sim degraus de aprendizado para o tão esperado “grande amor”. Aliás, para o intenso, via de regra, toda paixão é o “grande amor”, mesmo que descubra, mais tarde, que não passava de uma leve brisa romântica. Estranhamente naquele sorriso eu vi que sua felicidade era ver a felicidade nos olhos do seu amor, sem que, para isso, se anular, bem como perceber que não há mais limites do seu corpo e do amado quando estão envoltos num abraço, e que no instante de um beijo, exista uma só boca, um só coração, uma só alma...um só fôlego de vida! Mas me revelavam também que por se entregar a tal ponto sofria uma dor dilacerante quando há o rompimento, a separação ou mesmo a mágoa de um platonismo sem reciprocidade, uma sensação de que um grande vazio se apoderasse de sua alma e a deixasse inteiramente desnorteada, chegando a sentir uma dor física de tanto sofrer. Afinal, os intensos sabem que morrer de amor não é o fim, mas os acabam.

Em meio a pessoas que se escondem e têm medo de sentir em sua plenitude, aquele rosto que vi mergulha de cabeça, com todo o seu ser, com todo o corpo: pele, boca, mãos... Contrariamente àqueles que não demonstram explicitamente suas emoções e muito menos se permitem a avançar sobre esta matéria – por medo de ser reprovado, vetado, ou mesmo castrado-, seu sorriso era a imagem de quem delira de desejo, de peito aberto. Ousa viver cada segundo como se fosse o último, sem medo do desconhecido. O medo não é algo inexistente em seus olhos, mas tampouco era uma barreira no desejo de agir. Corpo e alma estão inteiramente coesos no que quer que faça: dançando (ah... a expressão maior da intensidade!), seja na pista mais famosa do mundo, seja na sala de casa, de pijamas, às 10 da manhã; Cantando a pleno pulmões tanto naquela apresentação para uma platéia lotada exigente, tanto debaixo do chuveiro, sozinha e com um cachorro (ou qualquer outro bicho de estimação) não tão exigente assim.

Imaginei aquele rosto, por exemplo, explodindo de raiva ao perceber que se encontrava completamente indefesa a um temporal, quando tudo que ela queria, após um dia estafante de trabalho, era o calor e aconchego do lar. Mas, logo depois, ecoasse dela uma risada bem alta, contagiante, quase infantil de alguém que acabara de perceber que, na verdade, o que ela precisava naquele momento era justamente a liberdade de voltar a ser criança e tomar um belo banho de chuva. É acionar aquela chave que a faça retornar aos 9, 10 anos e viver, intensamente, seu jeito moleca de ser. Num mundo de laços fraternais tão frágeis, ela entrega-se tal forma que considera ultra-normal renunciar seus próprios planos festivos para estar ao lado, dando o ombro protetor a um amigo em prantos.

Não pautando suas atitudes, em momento algum, no que os outros dizem a respeito, não se preocupa em ser intenso por popularidade, mas por necessidade de dar sentido a todo caos de emoções e sentimentos que há dentro de si. E esse caos é uma massa tão poderosa que mesmo controlada, acaba se revelando externamente. Como naquele sorriso, que era, para mim, verdadeiro estandarte daquela impressionante intensidade. Verdadeiro porta-bandeira de si própria, manifestando o a quem quiser ver o que está sentindo, mesmo que, a princípio, não queira mostrá-lo. Quem nunca viu aquele sorriso amarelado e aquela sensação de constrangimento expressa na vermelhidão nas bochechas que, se pudessem falar, diriam, “Não caibo de tão feliz, mas como controlo isso?”? Não, definitivamente não se controla “isso”, apenas vive-se, entrega-se cabalmente nesta felicidade, sem calcular, meticulosamente, os possíveis “prós” e “contras”. Que eles se explodam!

Por sua densidade e complexidade, de quem busca viver, na apenas existir (e vivam os clichês!), pelas altas doses de charme, simpatia, sedução que eles exercem sobre nós é que faço minha apologia aos intensos. Estes, que sempre nos ensinam, inconscientemente, a combater diariamente a morosidade de uma vida sem graça, sem cor. A voltar a ter fé na paixão arrebatadora, no amor verdadeiro, nos laços consistentes, na felicidade impenetrável, e, sobretudo, na amizade duradoura (e quem há de negar que esta não é superior?).


Como eu voltei a ter depois daquele angelical rosto.