sábado, julho 30, 2011

(Des)Encontros


Desilusão.
Nenhuma outra palavra, frase, ou mesmo enciclopédia poderia designar tão bem o sentimento dele naquele dia. Tivera cultivado com esmero cada sementinha de esperança para o que acreditava ter encontrado: o amor de sua vida. Era como se os astros tivessem combinado entre si e com Deus para promover o que considerava o mais sublime dos eventos: entre uma multidão, um olhar, um sorriso, uma conexão rara e espontânea e lá estava mais uma vítima da flecha do arruaceiro cupido. Desde então, tudo parecia ser questão de tempo: conversas até as horas mortas, admiração mútua, cumplicidade, confidências, textos inspirados. Na sua cabeça, planos, viagens, passeios, cartas e poemas de amor. Mas nada de pressa: ele já tinha aprendido que pro amor, (e, convenhamos, para a maioria das coisas), se precipitar não levaria a nada. 
Que tivesse se precipitado. Melhor um não educado que vê-la indo embora na garupa daquela moto. Vagava pela rua agora um ser que era só solidão, breu total, oco. O coração e a alma ele se esquecera de pedir de volta a ela... 
...Passaram os anos, e eis nosso amigo refeito. O coração e a alma sabiam o caminho de casa, e assim ele foi se reconstruindo. Mais maduro, mais sério, mais equilibrado, inclusive mais cético. Não tinha desistido do amor, mas sabia que precisava fechar algumas feridas para seguir em frente. A maior delas era mostrar a aquela linda moça destruidora de corações o quanto ela tinha perdido. Não queria fazer mal, apenas mostrar que no unidunitê da vida dela, ela tinha escolhido a pior opção. 
Treinou para um eventual encontro, sabia exatamente o que e como dizer, tinha escolhido a dedo as melhores palavras da língua portuguesa. Preparou-se para qualquer imprevisto, já era mestre no improviso e seu sacarsmo tinha se elevado a níveis que ele mesmo se surpreendia. Compensava o fato de não ser o mais belo dos homens com charme, simpatia e até certo porte atlético: tinha se tornado maratonista, e dos bons. Tudo esquematizado, só faltava à ocasião certa. Aprendera a ser paciente: uma hora viria, ah se viria... Sorria imaginando a cena do dia em que ele daria o troco.
            Ele só não contava com uma única coisa: as oportunidades nós criamos, voluntária ou involuntariamente. Se ele soubesse disso, não teria ido para aquelas bandas. Se soubesse, não tinha subido naquele ônibus cheio. Que esperasse outro, não tinha pressa. Mas os astros e, desconfio, até Deus, sorriam largamente com a paralisia momentânea dele ao esbarrar com seu algoz. Com cada músculo de seu corpo enrijecido, nada podia fazer apenas sorrir. E não era um sorriso qualquer era daqueles reveladores, que dispensam palavras. Sua cabeça, a mil por hora, pensava em tudo e ao mesmo tempo em nada. Tentava, sem nenhum sucesso, retomar o controle da máquina, esta que tinha sido, por tanto tempo, construída, preparada, otimizada, para um momento desses. Tudo em vão. Ao olhar nos olhos dela, a luz que refletia era tão intensa que não conseguiu sustentar por muito tempo. Para ser sincero, nem por um segundo.  Por dentro, revoltado consigo mesmo, assistia a um corpo descontrolado apenas dizer um breve “Oi!” “To bem e você?” e, depois de três pontos em um silencio cruciante, “tchau, beijos”. O efeito hipnotizante-retardado foi-se assim que ela desapareceu de sua vista, e ele percebeu o quão ingênuo ele fora. Determinadas coisas somente o tempo, se tiver boa vontade, pode nos vingar. Lançou a cabeça para trás do banco enquanto o banco partia e foi rindo, zombando de si mesmo pelo resto da viagem...
            Enquanto isso, naquele ponto, aquela moça cerrava os olhos, com raiva de si mesmo, perguntando o que deu de errado para ela não conseguir falar tudo que tinha ensaiado por anos para ele...

terça-feira, setembro 01, 2009

Polaroids (ou "e quando o pássaro não volta?)

Seis da manhã.

Eu, atrasado, entro no primeiro vagão de um trem rumo a Paciência. Seria uma segunda normal se não fosse pelo fato deste vagão estar vazio. Completamente vazio não: havia, além de mim, um casal. Minha distração de olhar a paisagem do subúrbio sob a luz do nascer do sol e os ouvidos surdos pelos fones do MP3 (hoje era Chico Buarque, pra variar) me fazem esquecer aquele casal a minha frente...

“... Quando você me deixou, meu bem me disse pra ser feliz e passar bem...” (Chico Buarque)

Como um capricho dos deuses, cantarolava essa frase quando o trem parou na estação de Cascadura. Com o parar do trem, abrem-se as portas do vagão e com elas o homem sai, despretensiosamente. E no exato momento que as portas se fecharam, eis que a moça se torna em um grande manancial de lágrimas: grossas, quentes, tristes. Não há escândalo de sua parte, não há desespero, tampouco teatralizações. Há discrição de ambas as partes: da dela, para não mostrar seu rosto encharcado e de maquiagem borrada; da minha, para que ela não percebesse que eu ali a observava e, de certo modo, compartilhava da dor dela e tentava penetrar em seus pensamentos. Pus-me a escrever ali mesmo, misturando dor, reflexão e músicas em uma linha tão difícil de dissociar.

"O que é que eu posso contra o encanto/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto/ E que, no entanto/ Volta sempre a enfeitiçar"

Mesmo na impossibilidade de entrar em seus possíveis devaneios (o dom sobrenatural que tanto almejo), me vi como que abrindo um detestável álbum de fotografias mentais. E nesses flashes, página após páginas, via juras de amor, beijos apaixonados, risos ao luar, cochichos ao pé do ouvido, a calma das mãos entrelaçadas, a sensação de completude, o da “pra sempre”, o suspiro de quem percebe que o pensamento foi invadido pela imagem do amado. E, como num loop de uma montanha russa, as imagens se transformam e as imagens mostram a angustia da solidão, os pés andando em caminhos contrários, o nada, o vazio, o vagão do trem vazio, a imagem daquela moça que, agora, coloca os óculos escuros para disfarçar sua tristeza.

"... O que me dá raiva são as flores e os dias de Sol/São os seus beijos e o que eu tinha sonhado pra nós..." (Leoni)

O castigo daqueles que se atrevem amar é terem que lembrar tortuosamente dos melhores momentos do relacionamento quando ele termina. Tal como Prometeu, que, acorrentado no Monte Cáucaso, tinha a companhia apenas de Abutre que lhe comia fígado diariamente como castigo pela ousadia de pegar o fogo sagrado de Zeus, temos nossos corações devorados pela ousadia de pegar o Amor, o fogo sagrado de Deus. Tortura-nos, de maneira igual, lembrar daquilo que não vivemos, mas que poderíamos viver. Planos, futuros, viagens, aquilo que deixamos de viver, abdicamos voluntariamente acreditando que, no fim, valerá à pena. Mas nem sempre vale...

"(...) Ah, se já perdemos a noção da hora/ Se juntos já jogamos tudo fora/ Me conta agora como hei de partir (...)"

Uma das histórias que mais marcou quando menino era aquela que o mestre, para mostrar ao discípulo que não devemos a nos apegar a nada que não é nosso, ordena que se solte da gaiola o seu melhor pássaro, o mais querido. Incrédulo, o discípulo, ao ver pássaro sair pela janela, pergunta qual a razão dessa atitude tão radical. E o mestre, na sua habitual e irritante calma, profere a célebre frase: “Se ele for realmente meu, ele irá voltar”. Esta fábula se encaixa perfeitamente nos nossos relacionamentos. Se realmente devemos libertar o outro, por qual razão não o fazemos? Ou não o soltamos com medo dele não ser nosso e nunca mais voltar, ou o soltamos, mas sempre com a convicção de regresso.

Mas... e se o pássaro não voltar? O que fazemos?

"(...) Não ter você/ cair em si/ Morrer de amor não é o fim, mas me acaba (...)" (Djavan)

Como suportar a dilacerante dor que é o fim do amor? Ele pode até não matar, mas nos acaba. O que fazer com aquele espaço enorme que fica quando o outro se vai? O que fazemos para tirar da boca o amargo gosto da frustração?Como tirar da cabeça os bons momentos que nos perturbam e deixam a sensação do “poderia ter dado certo se...”? Por que não podemos lembrar somente das brigas, discussões, defeitos, do que nos incomodava? Por que não sentir o refrescante ar da liberdade e da possibilidade de amar de novo, sem os erros de antes, só que agora mais e melhor? Por que não, numa postura de extrema maturidade (ou de frieza), entender que todos os relacionamentos são pontes para a busca do inatingível “perfeito amor”?

Enfim, por que não entender que, se o pássaro não volta, é porque nunca foi nosso?

"(...) E quando eu me apaixonei/ Não passou de ilusão/ O seu nome rasguei/ Fiz um samba-canção/ Das mentiras de amor/ Que aprendi com você (...)"

A minha tristeza naquele vagão banhado pelo sol mansinho da manhã não era por mim, era por ela. Não sei seu nome, nem sua história, tampouco se ela foi quem terminou, ou o contrário, ou se é que foi um término. Pela frieza que pareceu, deduzo que sim... Minha tristeza era saber que tudo isso que penso de forma racional e em tons mais leves, ela talvez estivesse passando de forma abrupta, dolorida...

"Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus..."

Próxima Estação: Paciência.

Um colega de trabalho interrompe meus devaneios: é hora de desembarcar e viver a vida real. Agradecido me levanto e percebo que a moça não estava mais lá: deve ter soltado em alguma estação que meus devaneios não me permitiram ver. A dor foi junto com ela, mas aquela imagem ficou registrada: tornou-se mais uma Polaroid dos sentimentos humanos que vou guardar em meu álbum...

...que eu teimo em colecionar.



terça-feira, julho 07, 2009

Upgrade U

Há uma frase sobre a amizade, daquelas que você encontra em qualquer site, que sempre me encantou: “Quando fizeres novos amigos, não se esqueça dos antigos”. Entre a multidão de citações do gênero, esta sempre me agradou mais, já que, particularmente, ela representa pra mim o verdadeiro espírito de uma pessoa “amiga”: alguém aberta a novas relações e, portanto, disposta ao risco do desapontamento e da ilusão. Mas, por outro lado, aquela citação traz em si o espírito de que a renovação, o crescimento como pessoa, como amigo, implica em também conservar aquilo que é substancial para você mesmo. No caso da frase, os amigos antigos. Mas não é raro (não mesmo!) encontrarmos pessoas que desatam os “firmes” nós da amizade com uma impressionante velocidade. Transformam aquilo que eu sempre considerei o maior dos sentimentos, até maior que o próprio amor Eros, em um objeto mercadológico, trocando e se desfazendo a partir do momento que aquilo não dá mais benefícios imediatos.

A amizade, assim como a vida, tem se tornado cada vez mais líquida, mas nem sempre de forma tão consciente e maquiavélica como parece. Na avalanche de informações, relações, pessoas, imagens, vamos simplesmente agindo, ou melhor, reagindo a esses impulsos e muitas das vezes não damos conta do que estamos fazendo – ou deixando de fazer. Consciente ou inconscientemente (não quero entrar nessa discussão) não paramos um instante para pensar, refletir sobre nossas ações, nossas escolhas ou mesmo nossas omissões... Enfim, somos como um computador sobrecarregado, eternamente ligado e sem atualização.

Observemos por um instante todos nossos atos, gestos, palavras, pessoas ao nosso redor: será que não estamos nos apegando restritamente as “novidades”, independente se supérfluas ou não, e esquecendo do que nos é essencial, independente do que é novo ou antigo? Não estaríamos nós nos afastando daquilo que é indispensável e inerente ao nosso ser em prol da preocupação exclusiva do novo, que é, por definição, também o incerto? Não é uma questão de dizer que o “velho” constitui o fundamental, tampouco que o “novo” é a matriz do superficial, mesmo porque não é bem por aí o rumo da minha prosa. É bem verdade que estamos apegados demais a quinquilharias desnecessárias e talvez nem tanto atentos ao edificante do novo. É por isso que advogo uma atualização, um “upgrade”.

Atualizar-se não é somente adquirir novos hábitos e idéias, ou novas roupas, tampouco ampliar sua rede social real (nada de Orkut ou Twitter), mas também ver revirar seu baú de emoções, sentimentos, amigos, músicas, etc., e separar aquilo que te é essencial daquilo que não é. Jogar certas coisas fora é um bom exercício de desapego, pois alivia demais a sua bagagem, porém, deve-se ter imenso cuidado, pois aquilo não voltará jamais, e, às vezes, não estamos preparados para isso. Quanto àquilo que não jogamos fora, não basta apenas deixá-lo, inerte e empoeirado: devemos retirar todo o pó, passar um bom lustre e, por vezes, fazer pequenos ou grandes reparos. E, sobretudo, colocá-lo ao lado daquela novidade de última geração que você ainda está babando. Isso requer tempo, disposição, e até doses de sacrifício, porém se não fizermos, a tendência é de se perder aquilo irremediavelmente e aquilo se tornar apenas mais uma, das inúmeras, recordações boas. E é senso comum afirmar que sempre sentimos falta daquilo que perdemos. Criamos, institivamente, zonas de conforto em nossas relações, onde nos aconchegamos e acreditamos que nada precisa ser modificado. E enquanto isso, lá elas estão enchendo-se de poeira, que de tão grossas, já encobrem e embaçam a beleza daquela relação.

Já que está parado aqui lendo este texto, tire mais dois minutinhos para um auto-exame: há quanto tempo você não liga para seus amigos de infância/adolescência para saber como está? Há quanto tempo você não sai com eles para simplesmente ficar de papo, tomando uma casquinha no banquinho do shopping (ou qualquer coisa do gênero)? Lembra-se dos seus sonhos e ideais de quando jovem? Ainda permanecem de pé ou você simplesmente se esqueceu deles? Faz quanto tempo que você não põe pra tocar aquele CD que marcou uma fase boa de sua vida? Porque você não faz uma playlist de músicas que te lembram alguém ou algo importante, ao invés de só escutar as Top 10 Hits de Julho de 2009? Há quanto tempo você não dá aquele abraço nos seus pais? Você pode ter – e eu tenho – dezenas de divergências com eles, mas são, antes de tudo, meus pais. Já tentou retirar a poeira dos seus álbuns de fotografia? Que tal convidar seus amigos pra te ajudar nessa empreitada e relembrarem o porquê vocês são amigos? Faz muito tempo que você não se declara pra sua namorada(o)? Não manda um cartão? Não recita uma poesia ou mesmo a chama de meu anjinho?

São coisas simples, fáceis, algumas precisam de Mastercard, mas maioria não...Acho que não custa tentar.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Ar...



Ali estou eu, sentado naquele banco a esquerda. Observo o mar, sinto a leve brisa cobrir meu rosto. Quisera eu ter a incapacidade absoluta de não precisar deste ar que tanto me inebria. Quisera eu ser completamente insensível ao aconchego que esta me proporciona nesta madrugada, essa paz ao sentir esse vento brando e fresco sobre meu corpo. Ou mesmo dissimular a adrenalina e a endorfina que corriam em minhas veias quando percebia que essa brisa se tornara num tufão e devastava a minha cidade. Quisera eu ser desprovido da necessidade de respirar, de, a todo instante, inspirar e expirar este ar que invade e se apodera de todo meu ser, esse ar que me faz sentir vivo, que me faz ir adiante, que me faz correr maratonas, nadar mares e subir montanhas pelo simples fato de tê-lo mais dentro de mim.

Contudo, querer não é poder (pelo menos por aqui) e cá estou: sentado, respirando, sentindo a brisa acalmar meu corpo, recuperando-me depois de ver minha cidade ser completamente arrasada em frações de segundos. Lá me encontro feliz, otimista, alegre... e morrendo por dentro. Por fora, um homem alegre divertido, carismático, até mesmo interessante. Por dentro, um homem em conflitos, em dúvidas, inseguro, melancólico. O motivo? A vida? Familia? Trabalho? Dilemas existenciais? Nada disso, apenas a incondicional e irrevogável necessidade deste ar.

Respirar um ar que não se pode buscar, que não se pode conquistar, que só pode ser apenas encontrado. Por mais que tentamos ludibriar esta regra, com receitas ali e acolá, o fato é que ele vem até você e não o oposto. E é isso que me dói mais: a impossibilidade da escolha. Não posso escolher tomar o ar do sudoeste, ou do norte, ou do noroeste: o vento vem tão subitamente, tão repentinamente, que só posso aceitá-lo do jeito como vem, sem questionar: eu tenho que respirar, eu preciso respirar. Eu preciso deste ar puro, que emana da fonte mais límpida, totalmente natural, transparente e espontâneo.

Enfim, um ar que, apesar de estar ao meu alcance, não é meu de verdade. Pode até me tangenciar, mas seu alvo é outro. Busca inebriar outra mente, aconchegar outro braço, encher de vida outros pulmões e, assim, completar outro coração. Por acaso quis o destino (este ser tão ingrato) que essa brisa passasse por mim, mas não era sua intenção. Coitada da brisa, mal ela sabe o mal que ela me faz me fazendo tão bem.

E lá estou eu ainda sentado, sabendo que procurar um outro um lugar onde aquele ar não possa estar é uma procura vã, posto sua onipresença. Então me vejo levantando com a solução: passarei a andar pelas ruas com um balão de oxigênio nas costas, desistindo de respirar...


...por enquanto.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Intensidade

Reencontrei a intensidade dos homens no instante que vi seu rosto. Não estava tão perto a ponto de perceber todos os detalhes daquele sorriso que, inevitavelmente, já me contagiava, nem tão longe que não pudesse perceber o calor por trás de seus olhos castanhos. Achava, pretensiosamente, ser eu o último ser intenso dessa humanidade tão mecânica, porém ao ver aquela face percebi que estava enganado: embora cada vez mais raros, os “intensos” ainda estão por aí, destacando-se dessa massa cada dia mais sem graça.

Se por acaso você, querido amigo leitor, encontrar uma pessoa intensa por perto, não hesite: enlace-a, não a deixe se distanciar e prepare-se, pois, como dizem os comerciais da Sessão da Tarde, “a aventura só está começando”. Faça isso sem pensar duas vezes (aliás, nem pense!), já que os “intensos” são um tipo raro, raríssimo, dentro de uma humanidade quase completamente amorfa, passiva, de indivíduos mornos, vivendo uma vida em tons pastel.

Mas como identificá-los? Muito simples. Primeiramente, não saia procurando, apenas observe. E quando menos esperar você encontrará aquele sorriso... Ah, aqueles olhos! Que indicavam, facilmente, que o que gostam são as cores vivas, vivíssimas. Cores de Almodóvar, de Frida Kahlo. E são os tons extremos que influem suas atitudes: é tão óbvio que a expressão “meio termo” não consta em seu vocabulário. Se amar, ama-se muito, e se odiar, odeia-se muito; ou é lindo ou é completamente horroroso; algo ou é maravilhoso ou horrível. Vive-se a contagiante alegria da paixão ou a dor insuportável da separação ou da solidão. Aquele lindo rosto diferenciava-se daqueles tantos outros que eu via que a rodeavam: não acham as coisas e/ou as pessoas “legalzinhas”, “maneirinhas”, não consideram “normal” um mega evento, uma festa, uma promoção ou mesmo um esperado encontro. Aquele sorriso indicava-me que por trás dele habita uma pessoa que vive ou nos 8 ou nos 80 (porque não 800? Ou mesmo 999?), sem estágios intermediários, buscando sempre o máximo de si, almejando sempre, mas sempre mesmo, o extraordinário que cada instante do presente pode oferecer.

No instante daquele olhar, esqueci-me do que fazia e me peguei devaneando, procurando saber se aquela intensidade era parecida com a que supunha ter. Será que ela teria, assim como eu, o amor como o tema central de sua vida? Pois, afinal, tudo envolve o amor para um “intenso”: a busca contínua pela pessoa especial, por amigos leais, sinceros, confiantes e eternos, por um emprego apaixonante e motivador, por um sentido de viver e até mesmo pela música perfeita, que ora seja em tom maior e uma letra que descreva toda sua alegria, ora seja num tom menor e que relate toda angústia ou melancolia. Alguém que, quando ama, não o faz a prestação, tampouco homeopaticamente. Simplesmente ama, sem orgulhos, nem problemas. Que apesar dos anos sinta ainda borboletas no estômago ou aquele delicioso calafrio na espinha quando vê o amado por perto. Que o motivo de seu amor não seja o “por causa de”, mas sim “apesar de”, isto é, que seus defeitos sejam tão sedutores quanto suas virtudes.

Aqueles olhos me revelavam alguém que se entrega inteiramente ao outro, sem receios, sem “pisar em ovos”, sem deixar que os relacionamentos do passado se tornem traumas, mas sim degraus de aprendizado para o tão esperado “grande amor”. Aliás, para o intenso, via de regra, toda paixão é o “grande amor”, mesmo que descubra, mais tarde, que não passava de uma leve brisa romântica. Estranhamente naquele sorriso eu vi que sua felicidade era ver a felicidade nos olhos do seu amor, sem que, para isso, se anular, bem como perceber que não há mais limites do seu corpo e do amado quando estão envoltos num abraço, e que no instante de um beijo, exista uma só boca, um só coração, uma só alma...um só fôlego de vida! Mas me revelavam também que por se entregar a tal ponto sofria uma dor dilacerante quando há o rompimento, a separação ou mesmo a mágoa de um platonismo sem reciprocidade, uma sensação de que um grande vazio se apoderasse de sua alma e a deixasse inteiramente desnorteada, chegando a sentir uma dor física de tanto sofrer. Afinal, os intensos sabem que morrer de amor não é o fim, mas os acabam.

Em meio a pessoas que se escondem e têm medo de sentir em sua plenitude, aquele rosto que vi mergulha de cabeça, com todo o seu ser, com todo o corpo: pele, boca, mãos... Contrariamente àqueles que não demonstram explicitamente suas emoções e muito menos se permitem a avançar sobre esta matéria – por medo de ser reprovado, vetado, ou mesmo castrado-, seu sorriso era a imagem de quem delira de desejo, de peito aberto. Ousa viver cada segundo como se fosse o último, sem medo do desconhecido. O medo não é algo inexistente em seus olhos, mas tampouco era uma barreira no desejo de agir. Corpo e alma estão inteiramente coesos no que quer que faça: dançando (ah... a expressão maior da intensidade!), seja na pista mais famosa do mundo, seja na sala de casa, de pijamas, às 10 da manhã; Cantando a pleno pulmões tanto naquela apresentação para uma platéia lotada exigente, tanto debaixo do chuveiro, sozinha e com um cachorro (ou qualquer outro bicho de estimação) não tão exigente assim.

Imaginei aquele rosto, por exemplo, explodindo de raiva ao perceber que se encontrava completamente indefesa a um temporal, quando tudo que ela queria, após um dia estafante de trabalho, era o calor e aconchego do lar. Mas, logo depois, ecoasse dela uma risada bem alta, contagiante, quase infantil de alguém que acabara de perceber que, na verdade, o que ela precisava naquele momento era justamente a liberdade de voltar a ser criança e tomar um belo banho de chuva. É acionar aquela chave que a faça retornar aos 9, 10 anos e viver, intensamente, seu jeito moleca de ser. Num mundo de laços fraternais tão frágeis, ela entrega-se tal forma que considera ultra-normal renunciar seus próprios planos festivos para estar ao lado, dando o ombro protetor a um amigo em prantos.

Não pautando suas atitudes, em momento algum, no que os outros dizem a respeito, não se preocupa em ser intenso por popularidade, mas por necessidade de dar sentido a todo caos de emoções e sentimentos que há dentro de si. E esse caos é uma massa tão poderosa que mesmo controlada, acaba se revelando externamente. Como naquele sorriso, que era, para mim, verdadeiro estandarte daquela impressionante intensidade. Verdadeiro porta-bandeira de si própria, manifestando o a quem quiser ver o que está sentindo, mesmo que, a princípio, não queira mostrá-lo. Quem nunca viu aquele sorriso amarelado e aquela sensação de constrangimento expressa na vermelhidão nas bochechas que, se pudessem falar, diriam, “Não caibo de tão feliz, mas como controlo isso?”? Não, definitivamente não se controla “isso”, apenas vive-se, entrega-se cabalmente nesta felicidade, sem calcular, meticulosamente, os possíveis “prós” e “contras”. Que eles se explodam!

Por sua densidade e complexidade, de quem busca viver, na apenas existir (e vivam os clichês!), pelas altas doses de charme, simpatia, sedução que eles exercem sobre nós é que faço minha apologia aos intensos. Estes, que sempre nos ensinam, inconscientemente, a combater diariamente a morosidade de uma vida sem graça, sem cor. A voltar a ter fé na paixão arrebatadora, no amor verdadeiro, nos laços consistentes, na felicidade impenetrável, e, sobretudo, na amizade duradoura (e quem há de negar que esta não é superior?).


Como eu voltei a ter depois daquele angelical rosto.

domingo, dezembro 07, 2008

Saudades...

No meio da praia, no meio da tarde, meio do nada, bateu aquela angústia, aquela sensação de incompletude. Vi-me sozinho, desamparado ao lado daqueles milhares de pessoas sorridentes que se amavam ao sol escaldante, beijando-se, trocando carícias, ou mesmo abraçada caminhando na beira da praia. Tentei fazer do mar meu companheiro e fiquei o contemplando revolto, agitado, como se algo ou alguém o tivesse irritado seriamente. Mas de nada adiantou: sem perceber, já estava com os olhos voltados de novo para aquele casal que caminhava despretensiosamente pela areia, e o estranho e indecifrável sentimento da saudade começava a dominar toda minha alma. Indecifrável porque “saudade” não é só “sentir falta de algo ou de alguém”, ele vai além: tem um mecanismo mais complexo que eu ainda não consegui compreender. Saudade está ligado incondicionalmente a memória, e assim, uma série de cenas, imagens surgiam na minha mente.


Tomado pela agonia da saudade, lembrei-me do nosso passeio a praia, quando nós éramos o casal despretensioso que flutuava pela beira do mar. Lembrei-me dos risos de nossas piadas, que eram só nossas. De nossas conversas, ora sobre o tudo, ora sobre o nada, que as tornavam verdadeiramente um diálogo, não uma competição entre dois egos infantis. Lembrei-me das provocações ao pé do ouvido que te deixavam tão ruborizada como extasiada. Até dos momentos em silêncio, que não nos incomodava, pois a presença um do outro transcendia as palavras, eu senti falta. Junto com as pegadas na areia, lançávamos nossos planos, sonhos, desejos. Não era mais “o meu” ou “o seu”, era “o nosso”, em que tudo se encaixava harmonicamente, assim como nossos beijos apaixonados ,e eu me lembrava de cada um desses com um sentimento tão carinhoso, como se o desejasse de volta. Mas da mesma que o mar apagava sistematicamente as pegadas na areia, tudo que tínhamos em comum, inclusive um ao outro, foram desaparecendo lentamente.


Será?


Dei-me por mim e tentava, em vão, me distrair. Mudar o foco, talvez. Usemos um argumento científico: “tendemos a olhar para o passado mais do que ele realmente foi”. Eu sei, é verdade, mas quem disse que meu coração se acalma com argumentos cientificamente aceitáveis? Ele só ama e sente falta! E, de repente tudo me fazia lembrar nós dois naquele passeio: a playlist em meu mp4, o tom vermelho da minha camisa, o cheiro do meu perfume, que era o que você mais gostava... Tudo, absolutamente tudo, me lembrava aquele momento tão reluzente, onde, mesmo de improviso, tornamos o litoral escravo de nosso amor. E todos os artifícios para tentar controlar esses pensamentos eram em vão e me trazia você mais próximo de mim. E no martírio da memória imensa, seja auditiva, visual ou olfativa, a saudade começou a apertar e a doer.


Dói saber que tua ausência é o que me basta, e que não me foi dada uma segunda escolha. Dói saber que resta apenas a mim o esforço grandioso de agüentar essa falta, esse sentimento de incompletude, essa outra parte de mim que te dei e nunca tive de volta. E dói ainda mais saber que me faltam forças ou coragem, pois a imagem que de ti em vão persigo, consciente ou inconsciente, é minha única companheira. Dói saber que provavelmente este texto nunca lhe será lido e que, dentre em pouco, se tornarão palavras jogadas ao vento. Mas o que dói mesmo é ver aquele lindo casal caminhando pela praia e perceber que sinto saudade de algo que nunca aconteceu, pois nunca fomos à praia. Posso sentir saudade daquilo que nunca vivi?


Sim, posso...


Porque, na verdade, a saudade maior não é o que éramos, mas sim o que poderíamos ter sido.